📘 Almas de Fera
CapÃtulo 61– Uma NotÃcia Inesperada
Depois de se despedirem da sábia curandeira Lyra, Selene pediu à filha que ficasse um pouco mais ali ao ar livre, entre as árvores e flores.
— Vai passear e descansar um pouco, meu amor, respira o ar fresco. Preciso de falar rapidamente com o teu pai sobre assuntos nossos — disse‑lhe com um sorriso doce e misterioso.
Zaira acenou alegremente, ainda sem suspeitar de nada.
— Está bem, mãe. Encontro‑vos mais tarde.
Assim que a princesa se afastou a caminhar devagar, admirando as plantas e as cores ao seu redor, Selene dirigiu‑se rapidamente mas com passo firme para uma das varandas mais altas e privadas do palácio, de onde se via grande parte do reino. Ali estava Arion, debruçado sobre uma mesa de pedra, a analisar mapas e documentos antigos com toda a atenção.
— Arion… — chamou ela suavemente, aproximando‑se.
O rei das Raposas levantou logo a cabeça ao ouvir a voz da esposa. Ao ver o brilho especial nos seus olhos, a mistura de lágrimas e sorriso, deixou cair o pergaminho que segurava e levantou‑se de um salto, cheio de expectativa.
— Então? O que descobriste? Diz‑me depressa…
Selene chegou‑se bem perto dele, pousou as suas mãos sobre as dele e falou com uma voz trémula de tanta felicidade:
— Confirmou‑se tudo, tal como eu pensava. Não há dúvida nenhuma.
Arion ficou imóvel, a respiração a ficar‑lhe presa na garganta.
— Tens a certeza absoluta? Lyra não tem qualquer receio ou incerteza?
Selene acenou com firmeza, as lágrimas a rolarem‑lhe finalmente pelas faces.
— Absoluta. Ela examinou‑a com todo o cuidado e sabedoria. A nossa pequena estrela… a nossa Zaira… está à espera de filhotes. Uma nova vida cresce já dentro dela.
Durante longos segundos, Arion não conseguiu dizer uma única palavra, apenas olhou para a esposa como se tivesse ouvido a mais bela canção dos deuses. Depois, levou as mãos ao peito e sussurrou com uma emoção que nunca antes se vira nele:
— Eu… eu vou ser avô…?
Selene sorriu amplamente, enxugando as lágrimas com carinho.
— Sim, meu amor. Vamos ambos.
Arion passou uma mão forte e calma pelo rosto, completamente atordoado e maravilhado ao mesmo tempo.
— Ela ainda parece tão pequena… tão jovem… parece que foi ontem que a segurei nos braços pela primeira vez… — murmurou ele com ternura.
— Eu sei… também sinto o mesmo — concordou Selene, olhando para o horizonte. — Mas cresceu, tornou‑se forte, sábia e amada. E agora vai dar continuidade a tudo o que construÃmos.
— E ela própria não faz a menor ideia do que está a acontecer com ela? — perguntou Arion, voltando a olhar para a esposa.
— Nenhuma. Acha que é só cansaço ou a preocupação com Vharok. Ainda não percebeu a verdadeira razão — respondeu ela.
Nesse exato instante, uma voz cheia de espanto e confusão surgiu de repente atrás deles, fazendo‑os virar‑se de um salto.
— Como assim… à espera de filhotes?
Kael encontrava‑se parado ali mesmo, à entrada da varanda, imóvel como uma estátua. Tinha saÃdo à procura de Zaira para a acompanhar, ouvira vozes e aproximara‑se devagar — acabara por ouvir cada palavra da conversa sem querer. Os seus grandes olhos dourados estavam completamente arregalados, cheios de surpresa e de uma alegria ainda incrédula.
— O que querem dizer com isso? Que notÃcia é essa? — insistiu ele, a voz a tremer‑lhe ligeiramente.
Arion e Selene trocaram um olhar entre si, compreendendo que já não havia segredo a guardar para ele. Foi Selene quem deu um passo em frente e falou com toda a doçura e seriedade:
— Kael… esta manhã chamámos a Lyra para examinar a Zaira, porque reparei em sinais que só nós da nossa raça reconhecemos. Ela fez todos os exames e perguntas necessários…
O jovem rei permaneceu imóvel, à espera do resto, o coração a bater‑lhe cada vez mais forte no peito.
— E…? — perguntou por fim, quase num sussurro.
Selene sorriu‑lhe com imenso carinho, como se já fosse da sua própria famÃlia.
— E confirmou‑o sem sombra de dúvida: a Zaira está grávida. Vai ter os teus filhos.
O mundo pareceu parar de girar naquele momento para Kael. Tudo o resto desapareceu: os perigos, as guerras, as montanhas distantes… só restou aquela verdade maravilhosa.
— Grávida…? — repetiu ele muito baixinho, como se precisasse de ouvir de novo para acreditar.
Selene acenou devagar.
Kael pestanejou várias vezes, olhou para as suas próprias mãos grandes e fortes, depois para o vazio, tentando compreender a imensidade daquilo.
— Eu… então eu vou ser pai…? — conseguiu dizer, com os olhos a brilharem intensamente.
Arion aproximou‑se dele devagar, pôs‑lhe com afeto uma mão pesada e calorosa no ombro e apertou‑o com força.
— Sim, meu jovem. Vais ser pai. E não poderia haver ninguém melhor para isso.
Pela primeira vez em todo o tempo que o conheciam, tanto Selene como Arion viram lágrimas claras e brilhantes brotarem nos olhos do bravo rei leão. Ele levou uma mão à face, passando‑a devagar, atónito e profundamente comovido.
— Um filhote… o nosso pequeno… — murmurou ele com um sorriso enorme a crescer‑lhe nos lábios.
Selene acrescentou suavemente:
— E talvez mais do que um, sabes? Nas famÃlias reais das raposas, é muito comum nascerem dois ou três de uma vez só. A natureza dá‑lhes mais força assim.
Kael soltou uma pequena gargalhada misturada com emoção, sentindo‑se quase leve como uma pena.
— A Zaira vai entrar em pânico quando souber… — disse ele, imaginando a sua reação e já sentindo um imenso amor por ela e por quem viria.
Arion riu também, abanando a cabeça.
— Bastante… mas também vai ficar a pessoa mais feliz de todo o mundo, tenho a certeza disso.
Kael ficou calado uns instantes, deixando toda a alegria e responsabilidade assentarem no seu coração. Depois endireitou‑se, com o olhar firme e cheio de determinação nova.
— Preciso de ir ter com ela imediatamente. Tenho de lhe contar, de a abraçar, de lhe dizer o quanto isto é maravilhoso para nós dois.
Mas, naquele exato momento, um rugido profundo, poderoso e sombrio ecoou muito alto nos céus distantes, fazendo até as pedras da varanda vibrarem ligeiramente. Era inconfundÃvel: Vharok continuava a aproximar‑se cada vez mais rápido, cada vez mais perto.
Kael ergueu o olhar para as nuvens escuras ao longe, e percebeu de repente com toda a clareza: agora já não tinha apenas de proteger Zaira, a sua amada e a sua futura rainha. Tinha de proteger também a vida que crescia dentro dela, toda a sua famÃlia futura — o bem mais precioso que existia em todo o mundo. E faria tudo, absolutamente tudo, para que nada lhes acontecesse m*l.