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📖 CAPÍTULO 1 — CARLA
Oi…
Eu sou a Carla.
Tenho 21 anos… e responsabilidades que muita gente da minha idade nem imagina carregar.
Agora são exatamente 17h da tarde, e eu estou sentada na beira da minha cama, olhando meu reflexo no espelho pequeno que fica apoiado na parede descascada do meu quarto. A luz do fim do dia entra pela janela, meio tímida, iluminando só metade do meu rosto.
A outra metade… já está na sombra.
E talvez seja assim que a minha vida funciona.
Metade de mim vive na luz.
A outra… ninguém conhece.
Eu puxo o cabelo para trás, prendendo com cuidado, enquanto observo minhas próprias feições. Eu sei que sou bonita. Sempre soube. Não por vaidade… mas porque o mundo fez questão de me lembrar disso da pior forma possível.
E foi exatamente essa beleza que mudou tudo.
Ou melhor… que me trouxe até aqui.
Solto o ar devagar e desvio o olhar do espelho. Não gosto de me encarar por muito tempo antes de sair. Parece que, se eu fizer isso, começo a lembrar demais de quem eu era… e isso é algo que eu não posso me dar ao luxo de fazer.
Levanto da cama e caminho até a pequena cômoda encostada na parede. Abro a gaveta de cima… e lá estão elas.
Minhas máscaras.
Uma coleção inteira.
Pretas, vermelhas, com renda, com brilho, mais discretas, mais chamativas… cada uma escolhida com cuidado. Cada uma com uma função.
Cada uma escondendo um pedaço de mim.
Passo os dedos por cima delas devagar, como se estivesse escolhendo quem eu vou ser hoje.
Porque é isso que eu faço.
Toda noite… eu deixo de ser a Carla.
E me transformo em alguém que ninguém conhece.
Alguém que ninguém pode tocar de verdade.
Alguém que ninguém pode levar para casa.
Alguém que não existe fora daquele lugar.
E eu faço isso por um motivo.
Ou melhor… por duas razões.
Cecília… e Caio.
Meus irmãos.
Meus filhos… mesmo que ninguém chame assim.
Dou um leve sorriso ao pensar neles, e isso é raro. Raramente eu sorrio quando estou me arrumando pra sair. Mas quando penso neles… tudo muda.
Olho para a porta do quarto, meio aberta, e consigo ouvir a voz da Cecília na sala, assistindo desenho na televisão. A risadinha dela é leve, inocente… completamente diferente do mundo em que eu vivo.
Caio provavelmente está fazendo lição de casa. Ele é mais quieto, mais na dele. Sempre foi. Desde pequeno, já parecia entender coisas que criança nenhuma deveria entender.
Eles estudam de manhã.
Eu faço questão disso.
Acordo cedo todos os dias pra garantir que eles estejam prontos, alimentados, com uniforme limpo. Levo até a porta, dou beijo, ajeito o cabelo da Cecília, confiro a mochila do Caio…
E sorrio.
Como se tudo estivesse bem.
Como se a gente fosse uma família normal.
Mas não somos.
Nunca mais fomos… desde que a nossa mãe morreu.
Engulo seco só de lembrar.
Faz um ano.
Um ano desde que o câncer levou ela da gente.
Um ano desde que eu segurei a mão dela no hospital, vendo ela ficar cada vez mais fraca… cada vez mais distante… até não ter mais volta.
Eu ainda lembro da última coisa que ela me disse.
“Cuida deles.”
Só isso.
Sem drama. Sem despedida longa. Sem promessas impossíveis.
Só… cuida deles.
E eu cuido.
Do jeito que dá.
Mesmo que isso tenha custado tudo o que eu era.
Respiro fundo e fecho a gaveta por um segundo… mas logo abro de novo. Não posso fugir disso.
Pego uma máscara preta, com renda delicada.
A minha preferida.
Seguro ela na mão por alguns segundos.
Essa máscara não esconde só meu rosto.
Ela esconde minha vida.
Porque ninguém pode saber quem eu sou.
Ninguém.
Nem os homens que pagam caro por mim.
Nem os olhos que me devoram todas as noites.
Nem o dono daquele lugar.
Principalmente ele.
Coloco a máscara no rosto e ajusto devagar.
A Carla some.
E quem fica… é apenas o que eles querem ver.
Pego minha bolsa, calço o salto… e saio do quarto.
Na sala, Cecília continua no chão, distraída com a televisão.
— Já vai trabalhar, Lala? — ela pergunta.
Meu coração aperta.
— Já, meu amor.
Me abaixo, beijo o cabelo dela e sinto aquele cheiro de criança limpa… de inocência… de tudo o que eu estou tentando proteger.
Caio aparece no corredor, segurando o caderno.
— A Mariza já tá vindo — ele diz, direto.
Eu sorrio de leve.
— Eu sei.
E isso me dá um pouco de paz.
Mariza…
Amiga antiga da minha mãe.
Ela praticamente viu a gente crescer.
Foi a única pessoa que não virou as costas quando tudo desmoronou.
Todas as noites, é ela quem fica com eles.
Ela faz a janta, ajuda na lição, coloca a Cecília pra dormir…
E cuida do que eu tenho de mais importante no mundo.
Se não fosse por ela… eu não conseguiria.
Simples assim.
— Se comportem, tá? — eu digo, olhando pros dois.
— Tá bom — Cecília responde.
Caio só me encara… e assente.
Ele entende.
Sempre entende.
Ouço uma batida na porta.
Mariza.
O alívio vem na mesma hora.
Abro a porta e ela entra com aquele olhar firme, mas cheio de carinho.
— Já tá indo, menina? — ela pergunta.
— Tô sim.
— Pode ir tranquila. Eu cuido deles.
E eu sei que cuida.
Dou um último olhar para os meus irmãos… e saio.
Fecho a porta devagar.
E quando o clique ecoa…
é como se eu estivesse trancando a minha vida de verdade lá dentro.
Desço as escadas.
O céu escurece.
A cidade muda.
E eu também.
A noite é onde eu existo.
A noite é onde eu sobrevivo.
E é lá… sob luzes vermelhas, música alta e olhares perigosos…
que eu deixo de ser a irmã da Cecília e do Caio.
E me torno o desejo de homens que nunca vão saber meu nome.
Porque ninguém me conhece.
Ninguém nunca viu meu rosto.
Ninguém sabe quem eu sou.
Ou pelo menos…
ninguém deveria saber. 😏🔥