O som irritante do despertador foi a primeira coisa que ouvi naquela manhã.
Abri os olhos lentamente, ainda lutando contra o peso do sono que parecia agarrado às minhas pálpebras. Durante alguns segundos fiquei olhando para o teto simples do meu quarto, tentando lembrar em que dia da semana estávamos.
Segunda-feira.
Suspirei.
O pequeno ventilador no canto do quarto girava lentamente, empurrando o ar morno da manhã contra o meu rosto. Não era exatamente um alívio, mas já era melhor do que nada.
Estiquei o braço para o lado da cama e desliguei o despertador antes que ele acordasse o resto da casa.
A última coisa que eu queria era ouvir Lucas reclamando tão cedo.
Sentei-me na cama e passei as mãos pelo rosto, tentando acordar de verdade. Meu cabelo castanho escuro estava completamente bagunçado, caindo sobre meus ombros de qualquer maneira possível.
Levantei-me devagar e caminhei até o pequeno espelho preso na parede.
A garota que me encarava parecia tão cansada quanto eu me sentia.
Minha pele morena clara ainda estava marcada pelo travesseiro e meus olhos castanho-mel tinham aquela expressão típica de quem dormiu pouco.
Nada de novo.
Inclinei a cabeça de um lado para o outro, observando meu reflexo.
Minha mãe sempre dizia que eu era bonita. Eu nunca tive certeza se ela falava isso porque realmente acreditava ou porque era mãe.
Mas uma coisa eu sabia: eu tinha sorte de ter herdado o corpo esbelto que ela sempre dizia ser “presente da genética”.
Não era algo que eu pensava muito. Minha rotina não me dava muito tempo para isso.
Trabalho. Faculdade. Casa.
Repete.
Respirei fundo.
— Vamos lá, Lia — murmurei para mim mesma.
Mais um dia.
Abri a porta do quarto com cuidado, tentando não fazer barulho, mas o velho piso de madeira decidiu protestar mesmo assim.
A casa era pequena, mas aconchegante. Dois quartos, uma sala simples e uma cozinha onde minha mãe passava a maior parte do tempo costurando roupas para clientes.
Era ali que nossa vida acontecia.
Caminhei até a cozinha e encontrei exatamente quem eu esperava.
Minha mãe estava sentada perto da janela, com seus óculos de leitura na ponta do nariz e um pedaço de tecido azul nas mãos.
A máquina de costura estava silenciosa por enquanto, mas eu sabia que aquilo não duraria muito.
— Bom dia, mãe — falei, encostando-me na porta.
Ela levantou os olhos e sorriu.
— Já acordada, minha menina?
— Como sempre.
A verdade era que eu raramente tinha escolha.
Minha mãe observou meu rosto por um instante, como se estivesse analisando alguma coisa.
— Dormiste pouco de novo.
Não era uma pergunta.
Sorri de lado.
— Eu tenho uma prova hoje.
— Arquitetura?
Assenti.
Minha mãe sempre pronunciava a palavra como se fosse algo muito maior do que realmente era.
Como se minha escolha de curso fosse uma espécie de milagre.
Talvez fosse.
— Vai correr bem — disse ela.
Caminhei até a mesa pequena da cozinha e me sentei.
O cheiro de café fresco encheu meus pulmões imediatamente.
Aquilo sozinho já melhorava um pouco o meu humor.
Minha mãe colocou uma xícara na minha frente.
— Precisas comer alguma coisa também.
— Eu como na cafeteria.
— Lia…
Ela me lançou aquele olhar.
Aquele olhar de mãe que sabia exatamente quando eu estava pulando refeições para economizar dinheiro.
Levantei as mãos em rendição.
— Está bem, está bem.
Peguei um pedaço de pão.
Alguns segundos depois ouvimos passos arrastados no corredor.
Lucas.
Meu irmão apareceu na cozinha com os cabelos completamente despenteados e os olhos meio fechados.
— Que horas são? — murmurou.
— Hora de ir para a escola — respondi.
Ele soltou um som que parecia metade reclamação, metade desespero.
— Odeio manhãs.
— Vais sobreviver.
Ele se sentou ao meu lado e pegou um pedaço de pão sem dizer mais nada.
Durante alguns minutos ficamos ali, os três, no silêncio confortável de quem já estava acostumado com aquela rotina.
Era simples.
Mas era nossa.
Terminei o café e me levantei.
— Tenho que ir.
Minha mãe se aproximou e ajeitou uma mecha do meu cabelo atrás da orelha.
— Orgulho de ti, sabes disso?
Meu peito apertou um pouco.
— Eu sei.
Peguei minha mochila e saí de casa.
O ar da manhã estava fresco e a rua já começava a ganhar movimento.
Pessoas caminhando apressadas.
Carros passando.
Mais um dia começando.
Caminhei até o ponto de ônibus, como fazia todos os dias.
Algumas pessoas já estavam esperando.
A senhora que sempre carregava sacolas demais.
O homem que parecia eternamente atrasado.
E o garoto que passava o tempo todo olhando para o celular.
A cidade estava acordando.
E eu fazia parte daquela multidão de gente tentando sobreviver a mais uma segunda-feira.
O ônibus chegou alguns minutos depois.
Entrei e encontrei um lugar perto da janela.
Enquanto o veículo começava a se mover pelas ruas da cidade, apoiei a cabeça no vidro frio.
Às vezes eu me perguntava como seria viver do outro lado da cidade.
Na parte onde os prédios eram mais altos.
Onde as pessoas não precisavam contar moedas antes de comprar um café.
Balancei a cabeça.
Não adiantava pensar nisso.
Meu mundo era este.
E eu estava lutando para torná-lo melhor.
Quando finalmente cheguei à cafeteria onde trabalhava, o movimento já estava começando.
Empurrei a porta de vidro e fui recebida imediatamente pelo cheiro familiar de café moído.
— Lia! — chamou uma voz.
Era Marta, minha chefe.
— Pensei que ias chegar atrasada hoje.
— Nunca.
Coloquei meu avental e prendi o cabelo num r**o de cavalo.
— Mesa três já está à tua espera.
Suspirei.
— Claro que está.
Peguei meu bloco de anotações e caminhei até lá.
Foi então que percebi.
O homem sentado naquela mesa.
Ele não parecia pertencer àquele lugar.
O terno escuro perfeitamente ajustado.
O relógio caro brilhando discretamente no pulso.
A postura calma de alguém acostumado a ambientes muito mais luxuosos do que aquela pequena cafeteria.
Por um momento pensei que talvez tivesse entrado no lugar errado.
Mas quando ele levantou os olhos e me encarou, senti algo estranho.
Algo que eu não consegui explicar.
Seus olhos verdes eram intensos.
Observadores.
Quase como se estivessem analisando cada detalhe ao meu redor.
Engoli em seco e me aproximei.
— Bom dia — falei, tentando manter a voz firme. — O que gostaria de pedir?
Ele me olhou por mais um segundo antes de responder.
E quando falou, sua voz era calma.
Segura.
— Um café.