Depois daquela pequena conversa, voltei a fazer exatamente o que sempre fazia: anotar pedidos, levar cafés às mesas e tentar não derrubar bandejas no caminho.
Mas, por mais que eu estivesse ocupada, percebia algo diferente em mim.
De vez em quando, meu olhar voltava para a mesa perto da janela.
Ele ainda estava lá.
Tomando café lentamente, como sempre.
Algumas vezes ele olhava para o celular.
Outras vezes simplesmente observava a rua.
Era curioso como ele parecia completamente à vontade naquele lugar.
A cafeteria não era sofisticada. As mesas eram simples, as cadeiras já tinham alguns anos de uso e a decoração consistia basicamente em quadros antigos pendurados nas paredes.
Mesmo assim, ele parecia confortável ali.
Como se fosse exatamente onde queria estar.
— Lia.
A voz de Marta me puxou de volta ao presente.
— Sim?
— Mesa cinco está esperando.
— Já vou.
Peguei duas xícaras de café e caminhei até a mesa indicada.
Dois homens estavam sentados ali discutindo algo em voz baixa enquanto olhavam para alguns papéis espalhados sobre a mesa.
— Aqui estão — disse eu ao colocar as xícaras diante deles.
— Obrigado.
Voltei para o balcão.
Quando passei perto da janela novamente, notei que o cliente de terno estava olhando na minha direção.
Não de uma forma estranha.
Apenas observando.
Quando percebeu que eu tinha notado, desviou o olhar para a rua novamente.
Franzi levemente a testa.
Aquilo era… curioso.
Mas antes que eu pudesse pensar muito sobre isso, a porta da cafeteria se abriu novamente.
Duas mulheres entraram conversando animadamente.
— Bom dia — disse eu automaticamente.
Comecei a anotar mais pedidos.
O tempo passou rápido.
Por volta das dez e meia, o movimento começou a diminuir novamente.
Algumas mesas estavam vazias agora.
Eu aproveitei para recolher algumas xícaras usadas.
Quando me aproximei da mesa três, percebi que a xícara dele estava vazia novamente.
— Quer mais café? — perguntei.
Ele levantou os olhos.
— Talvez.
— Talvez?
Ele sorriu levemente.
— Estou pensando se devo voltar ao trabalho ou continuar aqui.
Olhei ao redor da cafeteria quase vazia.
— Acho que isso depende do quanto gostas do teu trabalho.
— Boa resposta.
Peguei a xícara vazia.
— Então?
Ele inclinou um pouco a cabeça.
— Mais um café.
— Certo.
Voltei para o balcão e preparei outra xícara.
Quando retornei à mesa, ele estava olhando para algo no celular.
Coloquei a xícara diante dele.
— Aqui está.
— Obrigado.
Eu estava prestes a me afastar quando ele falou novamente.
— Posso fazer uma pergunta?
Cruzei os braços levemente.
— Depende da pergunta.
Ele pareceu divertido com a resposta.
— Por que arquitetura?
Demorei um segundo antes de responder.
Não era uma pergunta que eu costumava ouvir de clientes.
— Sempre gostei de desenhar — disse finalmente.
Ele ouviu em silêncio.
— E também gosto da ideia de criar lugares onde as pessoas vivem.
Ele assentiu lentamente.
— Isso faz sentido.
— Nem sempre.
— Por quê?
Dei de ombros.
— Nem todo mundo entende por que alguém escolheria um curso tão difícil.
Ele tomou um gole do café.
— As melhores coisas normalmente são difíceis.
Fiquei em silêncio por um momento.
Depois disse:
— Tens uma resposta para tudo?
Ele sorriu novamente.
— Nem sempre.
— Parece que sim.
Antes que a conversa continuasse, Marta chamou meu nome outra vez.
— Lia!
Suspirei levemente.
— Trabalho chama.
— Claro.
Afastei-me da mesa mais uma vez.
Enquanto limpava outra mesa perto da porta, ouvi duas estudantes universitárias conversando em voz baixa.
— Aquele homem é muito elegante — disse uma delas.
— Eu vi.
— Parece alguém importante.
Olhei rapidamente na direção da mesa três.
Ele continuava sentado lá, aparentemente alheio ao comentário.
Voltei minha atenção para o pano na minha mão.
Não era realmente da minha conta quem ele era ou o que fazia.
Ele era apenas um cliente.
Um cliente que gostava de café e de sentar perto da janela.
Nada mais.
Mesmo assim, quando passei novamente perto da mesa dele alguns minutos depois, percebi que ele estava olhando para o desenho que aparecia na capa do meu caderno.
Eu tinha deixado o caderno sobre o balcão mais cedo.
Um pequeno esboço arquitetônico estava desenhado ali.
Ele apontou para o desenho.
— Fizeste isso?
Olhei para o caderno.
— Sim.
Ele observou o desenho com atenção.
— É bom.
Não era um elogio exagerado.
Mas parecia sincero.
— É apenas um esboço.
— Mesmo assim.
Fechei o caderno.
— Preciso voltar ao trabalho.
Ele assentiu.
Alguns minutos depois, levantou-se novamente para pagar.
Caminhou até o balcão e colocou o dinheiro sobre ele.
— Acho que hoje realmente preciso ir — disse.
— Provavelmente.
Peguei o dinheiro e preparei o troco.
— Tenha um bom dia.
Ele pegou as moedas e guardou no bolso.
Depois olhou diretamente para mim por um instante.
— Boa sorte com arquitetura.
Sorri levemente.
— Obrigada.
Ele fez aquele pequeno aceno de cabeça novamente antes de sair.
O sino da porta tocou quando ele desapareceu na rua.
Fiquei olhando para a porta por um segundo.
Depois voltei ao trabalho.
Mas havia algo curioso naquela situação.
Ele ainda era apenas um cliente.
E, mesmo assim, começava a parecer um pouco menos desconhecido do que antes.
***
O sino da porta ainda balançou suavemente por alguns segundos depois que ele saiu.
A cafeteria voltou ao seu ritmo normal quase imediatamente.
Marta estava organizando algumas xícaras no balcão, e duas clientes perto da entrada continuavam conversando sobre alguma coisa que parecia extremamente importante para elas.
Eu, no entanto, fiquei parada por um pequeno momento olhando para a porta fechada.
Depois balancei levemente a cabeça, como se estivesse afastando um pensamento desnecessário.
Era apenas um cliente.
Peguei o pano novamente e continuei limpando as mesas vazias.
Quando voltei ao balcão, Marta levantou uma sobrancelha.
— Ele fala bastante contigo.
— Ele só faz perguntas — respondi.
— Exatamente.
Abri o caixa para guardar o dinheiro que ele tinha deixado.
— Clientes fazem perguntas o tempo todo.
— Nem todos parecem tão interessados.
Olhei para ela.
— Marta.
— Estou só dizendo.
Suspirei e peguei meu caderno novamente.
— Ele perguntou sobre arquitetura.
— Vês?
— Isso não significa nada.
Marta deu de ombros.
— Talvez não.
O restante da manhã passou de forma tranquila.
Alguns clientes entraram e saíram rapidamente, pegando café para viagem antes de seguir para o trabalho.
Outros ficaram alguns minutos sentados, lendo ou olhando para os celulares.
Por volta das onze e meia, a cafeteria estava quase vazia novamente.
Eu aproveitei o momento para me sentar por alguns minutos no banco atrás do balcão.
Abri meu caderno.
O desenho do bairro planejado ainda estava ali.
Observei as linhas por um instante antes de pegar o lápis novamente.
Comecei a ajustar algumas partes do projeto.
Ampliei um pouco a praça central, como a professora Helena havia sugerido.
Adicionei algumas árvores ao redor.
Pequenos detalhes que davam mais vida ao desenho.
Enquanto trabalhava, percebi Marta me observando.
— Sabes — disse ela depois de alguns segundos —, nunca entendi como consegues estudar arquitetura e trabalhar aqui ao mesmo tempo.
Dei de ombros.
— Não tenho muita escolha.
— Deve ser cansativo.
— É.
Fiz mais algumas linhas no papel.
— Mas vale a pena.
Marta apoiou os cotovelos no balcão.
— Tens certeza?
Levantei os olhos para ela.
— Tenho.
Ela sorriu levemente.
— Então espero que um dia projetes uma cafeteria melhor do que esta.
Olhei ao redor do lugar.
As mesas simples.
As paredes com quadros antigos.
A máquina de café que fazia barulho sempre que era usada.
Sorri também.
— Talvez eu projete uma exatamente assim.
— Por favor, não.
Ri baixinho.
Fechei o caderno e olhei para o relógio na parede.
Faltava pouco para o fim do meu turno.
Depois disso, eu ainda teria aula na universidade.
Outro dia cheio.
Mas, curiosamente, eu não estava tão cansada quanto costumava estar naquele horário.
Talvez porque a manhã tivesse sido mais tranquila.
Ou talvez porque aquela pequena conversa inesperada tivesse quebrado um pouco a rotina.
De qualquer forma, logo tudo voltaria ao normal.
Porque, no final das contas, minha vida era feita de coisas simples.
Trabalho.
Estudo.
Casa.
E sonhos que ainda estavam muito longe de se tornarem realidade.