Capítulo 8

1384 Words
Depois daquela pequena conversa, voltei a fazer exatamente o que sempre fazia: anotar pedidos, levar cafés às mesas e tentar não derrubar bandejas no caminho. Mas, por mais que eu estivesse ocupada, percebia algo diferente em mim. De vez em quando, meu olhar voltava para a mesa perto da janela. Ele ainda estava lá. Tomando café lentamente, como sempre. Algumas vezes ele olhava para o celular. Outras vezes simplesmente observava a rua. Era curioso como ele parecia completamente à vontade naquele lugar. A cafeteria não era sofisticada. As mesas eram simples, as cadeiras já tinham alguns anos de uso e a decoração consistia basicamente em quadros antigos pendurados nas paredes. Mesmo assim, ele parecia confortável ali. Como se fosse exatamente onde queria estar. — Lia. A voz de Marta me puxou de volta ao presente. — Sim? — Mesa cinco está esperando. — Já vou. Peguei duas xícaras de café e caminhei até a mesa indicada. Dois homens estavam sentados ali discutindo algo em voz baixa enquanto olhavam para alguns papéis espalhados sobre a mesa. — Aqui estão — disse eu ao colocar as xícaras diante deles. — Obrigado. Voltei para o balcão. Quando passei perto da janela novamente, notei que o cliente de terno estava olhando na minha direção. Não de uma forma estranha. Apenas observando. Quando percebeu que eu tinha notado, desviou o olhar para a rua novamente. Franzi levemente a testa. Aquilo era… curioso. Mas antes que eu pudesse pensar muito sobre isso, a porta da cafeteria se abriu novamente. Duas mulheres entraram conversando animadamente. — Bom dia — disse eu automaticamente. Comecei a anotar mais pedidos. O tempo passou rápido. Por volta das dez e meia, o movimento começou a diminuir novamente. Algumas mesas estavam vazias agora. Eu aproveitei para recolher algumas xícaras usadas. Quando me aproximei da mesa três, percebi que a xícara dele estava vazia novamente. — Quer mais café? — perguntei. Ele levantou os olhos. — Talvez. — Talvez? Ele sorriu levemente. — Estou pensando se devo voltar ao trabalho ou continuar aqui. Olhei ao redor da cafeteria quase vazia. — Acho que isso depende do quanto gostas do teu trabalho. — Boa resposta. Peguei a xícara vazia. — Então? Ele inclinou um pouco a cabeça. — Mais um café. — Certo. Voltei para o balcão e preparei outra xícara. Quando retornei à mesa, ele estava olhando para algo no celular. Coloquei a xícara diante dele. — Aqui está. — Obrigado. Eu estava prestes a me afastar quando ele falou novamente. — Posso fazer uma pergunta? Cruzei os braços levemente. — Depende da pergunta. Ele pareceu divertido com a resposta. — Por que arquitetura? Demorei um segundo antes de responder. Não era uma pergunta que eu costumava ouvir de clientes. — Sempre gostei de desenhar — disse finalmente. Ele ouviu em silêncio. — E também gosto da ideia de criar lugares onde as pessoas vivem. Ele assentiu lentamente. — Isso faz sentido. — Nem sempre. — Por quê? Dei de ombros. — Nem todo mundo entende por que alguém escolheria um curso tão difícil. Ele tomou um gole do café. — As melhores coisas normalmente são difíceis. Fiquei em silêncio por um momento. Depois disse: — Tens uma resposta para tudo? Ele sorriu novamente. — Nem sempre. — Parece que sim. Antes que a conversa continuasse, Marta chamou meu nome outra vez. — Lia! Suspirei levemente. — Trabalho chama. — Claro. Afastei-me da mesa mais uma vez. Enquanto limpava outra mesa perto da porta, ouvi duas estudantes universitárias conversando em voz baixa. — Aquele homem é muito elegante — disse uma delas. — Eu vi. — Parece alguém importante. Olhei rapidamente na direção da mesa três. Ele continuava sentado lá, aparentemente alheio ao comentário. Voltei minha atenção para o pano na minha mão. Não era realmente da minha conta quem ele era ou o que fazia. Ele era apenas um cliente. Um cliente que gostava de café e de sentar perto da janela. Nada mais. Mesmo assim, quando passei novamente perto da mesa dele alguns minutos depois, percebi que ele estava olhando para o desenho que aparecia na capa do meu caderno. Eu tinha deixado o caderno sobre o balcão mais cedo. Um pequeno esboço arquitetônico estava desenhado ali. Ele apontou para o desenho. — Fizeste isso? Olhei para o caderno. — Sim. Ele observou o desenho com atenção. — É bom. Não era um elogio exagerado. Mas parecia sincero. — É apenas um esboço. — Mesmo assim. Fechei o caderno. — Preciso voltar ao trabalho. Ele assentiu. Alguns minutos depois, levantou-se novamente para pagar. Caminhou até o balcão e colocou o dinheiro sobre ele. — Acho que hoje realmente preciso ir — disse. — Provavelmente. Peguei o dinheiro e preparei o troco. — Tenha um bom dia. Ele pegou as moedas e guardou no bolso. Depois olhou diretamente para mim por um instante. — Boa sorte com arquitetura. Sorri levemente. — Obrigada. Ele fez aquele pequeno aceno de cabeça novamente antes de sair. O sino da porta tocou quando ele desapareceu na rua. Fiquei olhando para a porta por um segundo. Depois voltei ao trabalho. Mas havia algo curioso naquela situação. Ele ainda era apenas um cliente. E, mesmo assim, começava a parecer um pouco menos desconhecido do que antes. *** O sino da porta ainda balançou suavemente por alguns segundos depois que ele saiu. A cafeteria voltou ao seu ritmo normal quase imediatamente. Marta estava organizando algumas xícaras no balcão, e duas clientes perto da entrada continuavam conversando sobre alguma coisa que parecia extremamente importante para elas. Eu, no entanto, fiquei parada por um pequeno momento olhando para a porta fechada. Depois balancei levemente a cabeça, como se estivesse afastando um pensamento desnecessário. Era apenas um cliente. Peguei o pano novamente e continuei limpando as mesas vazias. Quando voltei ao balcão, Marta levantou uma sobrancelha. — Ele fala bastante contigo. — Ele só faz perguntas — respondi. — Exatamente. Abri o caixa para guardar o dinheiro que ele tinha deixado. — Clientes fazem perguntas o tempo todo. — Nem todos parecem tão interessados. Olhei para ela. — Marta. — Estou só dizendo. Suspirei e peguei meu caderno novamente. — Ele perguntou sobre arquitetura. — Vês? — Isso não significa nada. Marta deu de ombros. — Talvez não. O restante da manhã passou de forma tranquila. Alguns clientes entraram e saíram rapidamente, pegando café para viagem antes de seguir para o trabalho. Outros ficaram alguns minutos sentados, lendo ou olhando para os celulares. Por volta das onze e meia, a cafeteria estava quase vazia novamente. Eu aproveitei o momento para me sentar por alguns minutos no banco atrás do balcão. Abri meu caderno. O desenho do bairro planejado ainda estava ali. Observei as linhas por um instante antes de pegar o lápis novamente. Comecei a ajustar algumas partes do projeto. Ampliei um pouco a praça central, como a professora Helena havia sugerido. Adicionei algumas árvores ao redor. Pequenos detalhes que davam mais vida ao desenho. Enquanto trabalhava, percebi Marta me observando. — Sabes — disse ela depois de alguns segundos —, nunca entendi como consegues estudar arquitetura e trabalhar aqui ao mesmo tempo. Dei de ombros. — Não tenho muita escolha. — Deve ser cansativo. — É. Fiz mais algumas linhas no papel. — Mas vale a pena. Marta apoiou os cotovelos no balcão. — Tens certeza? Levantei os olhos para ela. — Tenho. Ela sorriu levemente. — Então espero que um dia projetes uma cafeteria melhor do que esta. Olhei ao redor do lugar. As mesas simples. As paredes com quadros antigos. A máquina de café que fazia barulho sempre que era usada. Sorri também. — Talvez eu projete uma exatamente assim. — Por favor, não. Ri baixinho. Fechei o caderno e olhei para o relógio na parede. Faltava pouco para o fim do meu turno. Depois disso, eu ainda teria aula na universidade. Outro dia cheio. Mas, curiosamente, eu não estava tão cansada quanto costumava estar naquele horário. Talvez porque a manhã tivesse sido mais tranquila. Ou talvez porque aquela pequena conversa inesperada tivesse quebrado um pouco a rotina. De qualquer forma, logo tudo voltaria ao normal. Porque, no final das contas, minha vida era feita de coisas simples. Trabalho. Estudo. Casa. E sonhos que ainda estavam muito longe de se tornarem realidade.
Free reading for new users
Scan code to download app
Facebookexpand_more
  • author-avatar
    Writer
  • chap_listContents
  • likeADD