Perfeito, Cláudia. Vou continuar diretamente da noite em que Lia estava no quarto trabalhando no projeto, mantendo Lia narrando, desenvolvendo mais a vida dela e preparando naturalmente os próximos acontecimentos. Vou caprichar no ritmo e nos detalhes.
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Capítulo 10
Lia
Fiquei trabalhando no projeto por mais tempo do que tinha planejado.
Quando finalmente levantei os olhos do caderno, o relógio marcava quase onze da noite.
Passei a mão pelos cabelos e me recostei na cadeira.
Minhas costas estavam um pouco doloridas por ficar tanto tempo inclinada sobre a mesa, mas o desenho finalmente estava começando a parecer exatamente como eu queria.
Observei o projeto mais uma vez.
A praça central.
As ruas organizadas ao redor.
As pequenas áreas verdes que eu tinha acrescentado nas bordas.
Era apenas um exercício universitário, mas para mim parecia algo maior.
Talvez porque cada linha que eu desenhava representava um passo mais perto do futuro que eu imaginava.
Fechei o caderno com cuidado.
— Chega por hoje — murmurei para mim mesma.
Apaguei a luz da mesa e me deitei na cama.
O cansaço veio quase imediatamente.
Mas, curiosamente, minha mente demorou um pouco mais para desacelerar.
Pensei nas aulas.
No trabalho na cafeteria.
Na quantidade de coisas que ainda precisava fazer naquela semana.
E, sem perceber exatamente por quê, lembrei-me novamente do cliente de terno.
A forma como ele fazia perguntas.
A forma como parecia realmente interessado nas respostas.
Franzi levemente a testa para mim mesma no escuro.
Era estranho pensar nele fora da cafeteria.
Mas logo aquele pensamento desapareceu.
Fechei os olhos.
E, pouco tempo depois, o sono finalmente chegou.
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O despertador tocou cedo demais outra vez.
Abri os olhos lentamente e estendi o braço para desligá-lo.
Seis horas da manhã.
Suspirei.
Levantei-me e comecei a me arrumar para mais um dia.
Quando cheguei à cozinha, Lucas ainda estava terminando o café da manhã.
Minha mãe já estava vestida para sair para o trabalho.
— Bom dia — disse ela.
— Bom dia.
Peguei uma xícara de café e me sentei à mesa.
— Hoje tens aula? — perguntou ela.
— Só à tarde.
— Então trabalhas na cafeteria primeiro?
— Sim.
Lucas olhou para mim com um sorriso travesso.
— Aposto que vais beber uns cinco cafés hoje.
— Eu não bebo cinco cafés.
— Quatro?
— Talvez dois.
Ele riu.
Terminamos o café rapidamente.
Pouco depois, peguei minha mochila e saí de casa.
A manhã estava clara e fresca.
O céu estava completamente azul, algo que parecia raro depois de tantos dias nublados.
No ponto de ônibus, algumas pessoas esperavam em silêncio.
O veículo chegou alguns minutos depois, e a viagem até a cafeteria foi tranquila.
Quando entrei, Marta já estava atrás do balcão.
— Bom dia — disse ela.
— Bom dia.
Coloquei o avental e prendi o cabelo rapidamente.
— Dormiste bem?
— Mais ou menos.
— Vida de estudante.
— Exatamente.
A manhã começou calma.
Alguns clientes habituais apareceram, como sempre.
Um senhor idoso que lia o jornal todos os dias.
Uma mulher que sempre levava café para viagem antes de ir para o trabalho.
Um grupo de dois estudantes que discutiam alguma coisa sobre provas.
Nada fora do normal.
Por volta das nove da manhã, o movimento aumentou um pouco.
Eu estava anotando um pedido quando o sino da porta tocou novamente.
Por algum motivo, levantei os olhos automaticamente.
E lá estava ele.
O mesmo cliente.
Outro terno elegante.
Outro dia sentado na mesma mesa perto da janela.
Mesa três.
Soltei um pequeno suspiro silencioso.
Peguei meu bloco de anotações e caminhei até lá.
— Bom dia — disse eu.
Ele levantou os olhos.
— Bom dia.
Inclinei levemente a cabeça.
— O de sempre?
Ele sorriu.
— Estava esperando essa pergunta.
Anotei o pedido.
— Já volto com o café.
Quando retornei com a xícara alguns minutos depois, ele parecia mais relaxado do que nos dias anteriores.
Coloquei a xícara diante dele.
— Aqui está.
— Obrigado.
Ele tomou um pequeno gole antes de falar novamente.
— Trabalhas todos os dias?
— Quase.
— E ainda estudas arquitetura.
— Sim.
Ele parecia genuinamente impressionado.
— Isso exige muita disciplina.
Dei de ombros.
— Ou necessidade.
Ele observou meu rosto por um momento, como se estivesse pensando em algo.
Depois perguntou:
— E vale a pena?
Demorei alguns segundos para responder.
Mas quando falei, minha voz saiu firme.
— Vale.
Ele assentiu lentamente.
— Então espero que consigas tudo o que queres.
Fiquei em silêncio por um instante.
Não era exatamente o tipo de coisa que clientes costumavam dizer.
Antes que eu pudesse responder, Marta chamou meu nome novamente.
— Lia!
Suspirei levemente.
— Trabalho chama.
Ele sorriu.
— Claro.
Afastei-me da mesa, mas algo naquela pequena conversa ficou na minha mente.
Talvez porque, pela primeira vez, parecia que ele não estava apenas fazendo perguntas.
Parecia que realmente queria entender minhas respostas.
Marta estava organizando algumas xícaras quando me aproximei.
— Ele voltou — disse ela em voz baixa, sem sequer olhar para mim.
— Eu percebi.
Peguei uma bandeja vazia e comecei a recolher algumas xícaras das mesas próximas.
— Sabes — continuou ela —, estou começando a achar que ele vem aqui mais por tua causa do que pelo café.
Quase deixei cair a colher que estava na bandeja.
— Marta.
— Estou só observando.
— Ele apenas gosta do lugar.
— Claro.
Ignorei o comentário e continuei trabalhando.
Mesmo assim, por algum motivo, senti vontade de olhar novamente para a mesa perto da janela.
Ele estava exatamente como antes.
Sentado com postura relaxada, segurando a xícara com uma das mãos enquanto observava a rua.
Parecia completamente tranquilo.
Como se não tivesse nenhuma pressa de estar em outro lugar.
A porta da cafeteria se abriu novamente e dois novos clientes entraram.
Voltei minha atenção para o trabalho.
— Bom dia — disse eu automaticamente.
Anotei os pedidos e preparei mais duas xícaras de café.
O movimento continuou constante durante a próxima meia hora.
Algumas pessoas entravam, pegavam café para viagem e saíam rapidamente.
Outras ficavam alguns minutos sentadas conversando.
Era a rotina de sempre.
Quando finalmente tive um momento de pausa, percebi que ele ainda estava lá.
A xícara já estava quase vazia novamente.
Peguei a cafeteira e caminhei até a mesa.
— Quer mais café?
Ele levantou os olhos para mim.
— Aceito.
Inclinei a cafeteira e enchi a xícara novamente.
— Obrigado.
Eu estava prestes a me afastar quando ele falou outra vez.
— Posso fazer outra pergunta?
Suspirei levemente.
— Estás cheio delas hoje.
Ele pareceu achar graça.
— Curiosidade continua.
Cruzei os braços de forma relaxada.
— Está bem. Qual é a pergunta desta vez?
Ele pensou por um segundo.
— Como é teu dia normal?
Franzi a testa.
— Meu dia?
— Sim.
Pensei por um momento antes de responder.
— Acordo cedo. Venho trabalhar aqui. Depois vou para a universidade. Estudo arquitetura. Volto para casa. Faço mais trabalhos.
Ele ouviu tudo com atenção.
— Parece cansativo.
— Às vezes é.
— E ainda assim continuas.
Dei de ombros.
— Não tenho muito espaço para desistir.
Ele ficou em silêncio por alguns segundos.
Depois disse:
— Isso explica muita coisa.
— Explica o quê?
Ele tomou um pequeno gole do café antes de responder.
— A forma como falas do teu curso.
Inclinei levemente a cabeça.
— Como assim?
— Parece que realmente queres isso.
Sorri de forma discreta.
— Eu quero.
Nesse momento, Marta chamou novamente do balcão.
— Lia!
Olhei rapidamente para ela.
— Já vou!
Voltei minha atenção para a mesa.
— Preciso trabalhar.
Ele assentiu.
— Claro.
Afastei-me novamente.
Enquanto organizava algumas xícaras atrás do balcão, percebi Marta me observando outra vez.
— Ele realmente gosta de conversar contigo.
— Marta.
— Estou falando sério.
— Ele só faz perguntas.
— E tu respondes todas.
Peguei um pano e comecei a limpar o balcão.
— Porque sou educada.
Ela sorriu.
— Claro.
A manhã avançou lentamente.
Por volta das dez e quarenta, a cafeteria estava novamente mais tranquila.
Algumas mesas estavam vazias.
Outras tinham apenas um ou dois clientes.
Quando olhei novamente para a mesa perto da janela, percebi que ele estava olhando para o meu caderno outra vez.
Eu tinha deixado o caderno aberto no balcão.
O desenho do projeto ainda estava visível.
Ele se levantou e caminhou até o balcão.
— Posso?
Apontou para o caderno.
Hesitei por um momento, mas depois o virei um pouco na direção dele.
— É só um projeto da universidade.
Ele observou o desenho com atenção.
Seus olhos acompanharam as ruas desenhadas, a praça central e as pequenas áreas verdes.
— É interessante.
— Ainda não está terminado.
Ele apontou para uma das partes.
— Esta área aqui parece um parque.
— É.
— Gostas de incluir espaços assim?
— Sim.
Ele assentiu lentamente.
— Faz sentido.
Fechei o caderno.
— Preciso terminar isso antes da próxima aula.
Ele colocou as mãos nos bolsos do casaco.
— Então não vou atrapalhar mais.
Pegou a carteira e colocou o dinheiro sobre o balcão.
— Acho que hoje realmente preciso ir.
Preparei o troco rapidamente.
— Tenha um bom dia.
Ele pegou as moedas e guardou.
Antes de sair, olhou novamente para mim.
— Boa sorte com o projeto, Lia.
Fiquei surpresa por um instante.
— Eu… não disse meu nome.
Ele abriu a porta da cafeteria.
Um pequeno sorriso apareceu em seu rosto.
— Marta te chamou algumas vezes.
O sino da porta tocou quando ele saiu.
Fiquei parada por um segundo olhando para a porta.
Depois balancei a cabeça e voltei ao trabalho.
Mas, pela primeira vez desde que ele começou a aparecer na cafeteria, percebi algo curioso.
Eu não estava apenas curiosa sobre ele.
Eu também estava começando a prestar mais atenção quando ele entrava pela porta.