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O morro é dela :a dona do Vidigal

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Blurb

SINOPSE Lina Marques tem 24 anos e é a primeira mulher a comandar o Morro do Vidigal. Depois que o pai morreu, ela não chorou. Ela abriu um caderno e começou a organizar o caos que os homens deixaram. Fria, calculista e dona de um moletom preto três números maior que ela, ela tem um plano: em dois anos, limpar o morro e sumir.Só que o Estado tem outro plano.Eles mandam o Capitão Theo Nascimento, do BOPE, para pacificar a comunidade. Lindo, íntegro e com fama de incorruptível, ele é o herói do asfalto. O problema? Ele nasceu no Vidigal. E foi o primeiro amor da Lina.Há 15 anos ele jurou que nunca mais voltaria. Agora ele volta com farda, fuzil e uma ordem de prisão com o nome dela.Na laje mais alta do morro, entre tiroteios, motociatas da milícia e noites em que ela desliga a luz do quartel dele só pra mostrar quem manda, eles vão ter que escolher.Ela vai ter que decidir se entrega o império que construiu para salvar o homem que veio para destruí-la.Ele vai ter que decidir se trai a farda que lhe deu um futuro para proteger a mulher que é o seu passado.No morro onde todo mundo achava que o dono seria um homem, quem manda é ela. E ela não está disposta a perder.

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capítulo 1
CAPÍTULO 1 - A Dona tá no bar da laje Vidigal, 2:17 da manhã. O rádio chiou no meu ouvido e a voz do Menor veio abafada, com medo. "Chefe, confirma? É uma mulher. A Dona tá no bar da laje. Sozinha. O BOPE tá subindo." Eu fechei os olhos por um segundo e respirei fundo. O ar do Vidigal de madrugada tem cheiro de maresia, de fumaça de churrasquinho que ficou aceso e de esgoto, tudo misturado. Lá de cima, da laje mais alta do morro, a minha laje, eu via tudo. As luzes das viaturas do BOPE entrando pela Rua do Mirante, os caveirões pretos, os fuzis apontados pros becos onde as crianças jogam bola de dia. E eles me procurando. Eu, Lina Marques, 24 anos, 1,60 de altura se esticar muito, moletom da Adidas preto três números maior que o meu, com as mangas cobrindo metade da minha mão, cabelo preto preso de qualquer jeito num r**o torto, sem maquiagem, de Havaianas velha. A Dona do Vidigal. Seis meses atrás, quando meu pai, o Seu Jorge, teve um infarto fulminante no meio do bar, ninguém, NINGUÉM acreditou que no testamento dele, escrito a mão num caderno velho, tava meu nome. Não do meu tio Zé, que achava que era o herdeiro por ser o irmão mais velho. Não dos meus dois irmãos de sangue, um morto com 19 anos numa troca e outro preso em Bangu 1 cumprindo 20 anos. Meu nome. "Lina." O povo do morro riu. Os caras do asfalto que vinham comprar acharam que eu ia chorar, vender tudo por mixaria e voltar a trancar faculdade de Administração na Estácio que eu tinha largado no terceiro período porque não tinha dinheiro pra pagar a mensalidade. Eu não chorei. Na noite do enterro, eu sentei naquela mesma laje, abri o caderno de contabilidade do meu pai, aquele com capa de couro toda rasgada, e vi o caos. Dívida com fornecedor, dinheiro sumindo, meninos de 15 anos querendo ser dono de tudo na base da arma. Meu pai comandava no grito. Eu não. Eu comando no silêncio. "Desliga o transformador da base deles", eu falei baixo no rádio. Minha voz nunca gritava. Quem grita no morro é porque não tem poder. Quem tem poder fala baixo e todo mundo escuta. "Mas Dona, vai cair a luz da parte de baixo toda, vai cair da creche e da casa da Dona Fatima..." "Eu sei. Desliga. Liga de novo em 10 minutos. Só quero mostrar pra eles que eu sei onde eles pisam." Dois segundos depois, um estalo seco. PÁ. O morro inteiro, da parte de baixo até a metade, ficou no escuro. Um breu só quebrado pelos faróis das viaturas. Só a minha laje continuou acesa, com a gambiarra de LED amarela que eu mesma instalei com o Menor. É assim que se marca território sem dar um tiro. Você mostra que pode apagar tudo. Lá embaixo, o caos. Eu conseguia ouvir os gritos dos policiais, dos moradores reclamando. Eu tomei um gole da minha long neck quente. Cerveja quente é gosto de morro, quem é do asfalto nunca vai entender. Foi quando eu vi ele. Mesmo de longe, mesmo no escuro, mesmo depois de 15 anos, eu reconheceria aquele jeito de andar. Ombro travado, cabeça baixa, mas andando rápido como se o mundo fosse acabar. O capacete preto, o colete com BOPE escrito em amarelo, a arma na mão. Theo Nascimento. O menino magrelo que dividia a merenda comigo na Escola Municipal Almirante, que me ensinou a soltar pipa na laje da minha avó Dona Conceição e que me prometeu, com 12 anos, chorando no ponto de ônibus quando a mãe dele conseguiu um emprego de faxineira no Leblon e tirou ele do morro: "Eu nunca mais volto pra cá, Lina. Esse morro só traz morte." Ele voltou. E voltou pra me prender. Meu coração, que não batia forte nem quando os caras da milícia vieram me ameaçar semana passada, deu um soco no meu peito. --- THEO "Capitão, a gente revistou o QG principal. Tá vazio. Só tem caderno, uns sacos de cimento e cheiro de perfume barato. Feminino." Perfume barato. Só podia ser ela. Eu tirei o capacete. O suor descia pelo meu rosto, pela minha nuca, encharcando a gandola. Eu conhecia cada beco desse morro de olhos fechados. Eu sabia onde tinha buraco na escadaria, onde a Dona Maria vendia acarajé até 2 da manhã, onde era o campinho. Mas fazia 15 anos que eu não pisava aqui. Quando eu saí, eu tinha 12 anos e minha mãe me jurou que a gente nunca mais ia voltar. Ela me fez estudar, fez eu entrar pro colégio militar, depois pra Academia. Eu virei o orgulho do Vidigal que deu certo no asfalto. E agora o comando me manda de volta, pra "pacificar" o lugar onde eu nasci. Pra prender a nova Dona. "Capitão, falaram que a nova chefe é mulher. Filha do Seu Jorge. Lina Marques. 24 anos. Dizem que ela é pior que o pai porque não grita, ela calcula." Meu estômago afundou de um jeito que eu não sentia desde a primeira vez que entrei em confronto. Lina. A Lina que tinha o sorriso mais feio e mais lindo que eu já vi porque tinha faltado o dente da frente quando caiu da laje. A Lina que me defendeu com uma vassoura quando os moleques maiores queriam me bater porque eu era magrelo e usava óculos. A Lina que eu deixei pra trás no ponto de ônibus. Não podia ser a mesma. A Lina que eu conheci queria ser professora. "Onde ela tá?", eu perguntei, e minha voz saiu mais rouca do que eu queria. Meus soldados olharam estranho. "No bar da laje, senhor. No topo. Dizem que ela não sai de lá. Fica bebendo cerveja e vendo o morro queimar. Tá sozinha." Sozinha. Merda. Eu subi sozinho. Contra todo protocolo do BOPE. Eu deixei minha equipe lá embaixo e subi os 200 degraus da escadaria principal correndo. Cada degrau era uma lembrança me dando um soco. Aos 50 degraus, a parede onde a gente escreveu nossos nomes com carvão: T+L. Aos 100, o bar do Seu Jorge, fechado. Aos 150, eu já tava sem ar, não de cansaço, de nervoso. No topo, o bar da laje. Uma lâmpada amarela piscando, uma geladeira Consul velha fazendo barulho, uma mesa de plástico branca suja, um varal com roupa. E ela. Ela tava de costas pra mim. Moletom preto gigante da Adidas, shorts jeans por baixo que aparecia só um pouquinho, chinelo Havaianas branco sujo de barro, as pernas grossas de quem sobe e desce morro todo dia. Cabelo preto, longo, preso num r**o m*l feito, alguns fios soltos grudados na nuca por causa do calor. Ela segurava uma long neck na mão direita e olhava a confusão lá embaixo, as luzes piscando, como se fosse um filme que ela mesma dirigiu. Meu treinamento mandou gritar. Minha garganta gritou sozinha. "POLÍCIA! MÃOS PRA CIMA! AGORA!" Ela não se assustou. Ela não pulou. Ela nem se virou. Ela só tomou mais um gole da cerveja. E falou, com aquela voz que eu conheceria em qualquer lugar do mundo, só que agora mais grave, mais cansada, mais poderosa: "Demorou, Theo." Minha arma quase caiu da minha mão. Minha perna bambeou. Ela se virou devagar. E não era mais a menina sem dente. Era uma mulher. Linda de um jeito que me deu raiva, porque eu não podia achar linda a mulher que eu tinha que prender. Olhos castanhos puxados, cansados, boca cheia sem batom, pele morena suada, uma cicatriz fina, branca, na sobrancelha esquerda que eu não lembrava. Ela devia ter uns 1,60, mas parecia ter 2 metros de altura ali, na laje dela. "Lina?", eu sussurrei. Eu não era mais Capitão. Eu era o menino de 12 anos de novo. Ela deu um sorriso. Um sorriso frio, torto, que não chegava nos olhos. "Capitão Theo Nascimento. O menino que fugiu do morro e voltou de farda pra prender a amiga de infância. Que filme bonito da Globo, hein? Vai ganhar medalha por isso?" Ela andou até mim. Sem medo de fuzil nenhum. Passou do meu lado, roçando de propósito o ombro dela no meu colete à prova de balas. Cheirava a perfume barato de baunilha, cerveja e um pouco de cigarro. O cheiro da minha infância. "Você tá na minha laje, Capitão. Aqui no meu morro, até pra me prender você pede licença. Esqueceu?" Eu deveria algemar ela. Era uma ordem direta do meu comandante. Era a traficante mais procurada do Rio de Janeiro segundo a inteligência. Mas eu não conseguia me mexer. Eu não conseguia nem respirar direito. "Você... você desliga a luz do meu QG?", eu perguntei, tentando com todas as forças voltar a ser policial, a ser o Capitão. "Desligo o que eu quiser. O morro é meu. Você esqueceu como funciona aqui, menino do asfalto?", ela falou, e chegou tão perto que eu podia ver as gotinhas de suor na testa dela, a pintinha embaixo do olho. Ela levantou a mão devagar. Eu achei que ela ia me bater, me dar um tapa. Ela tirou o capacete da minha cabeça com delicadeza e jogou no chão de cimento da laje. "Você continua feio quando tá com medo", ela disse baixinho, só pra mim ouvir, com a boca a 10 centímetros da minha. E foi aí que o rádio dela, um radinho velho preto, chiou alto e quebrou o feitiço: "DONA! DONA! Os homens da milícia tão subindo pela parte de trás! São do Tio Zé! Ele tá com 5 motos! Ele falou que vai te pegar hoje! Ele tá armado!" O rosto dela mudou na hora. O deboche, o sorriso frio, tudo sumiu. Ficou só o medo. Um medo rápido, que ela tentou esconder mas eu vi. O Tio Zé era o tio dela, irmão do pai dela, que queria o morro de volta e já tinha tentado matar ela uma vez. Theo ainda tava ali, parado, com a arma na mão, suando, sem saber se prendia a mulher que ele amou a vida inteira ou se protegia ela dos homens que estavam subindo pra matar ela. Eu olhei pra ele. Pela primeira vez na noite inteira, eu, Lina Marques, a Dona do Vidigal, tive medo de verdade. Não da milícia. De ele me deixar. "Se você veio me prender, me prende agora, Theo", eu falei, e minha voz finalmente quebrou. "Porque se eles me pegarem, você nunca mais me vê. E eu... eu não quero morrer sem te ver de novo." Eu estendi as mãos pra ele. Não pra ser algemada. Pra ele escolher. Prender ou salvar. E lá embaixo, o barulho das motos subindo o morro, cada vez mais alto, começou a ecoar pelas vielas.

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