Cássia chegou à pousada completamente arrasada. Cada passo era um fardo, cada respiração, um esforço. A notícia de que Natan havia pegado a balsa, somada à fúria do irmão e à dor da rejeição, a consumia por dentro. Para piorar, a colocaram para trabalhar como camareira, cobrindo uma colega que havia faltado. Trocar lençóis e limpar banheiros era uma tarefa que parecia zombar de seu estado de espírito.
Com a mente em um turbilhão, ela começou a limpar os quartos, com os movimentos mecânicos, e a alma em pedaços. Estava nervosa, com o coração batendo descompassado no peito, cada ruído a sobressaltando.
No horário do café, recebeu uma mensagem do ex-padrasto. A mensagem era curta e direta: Natan estava com ele. E um pedido, quase uma exigência: para ela ir para lá, se possível, no mesmo dia. O alívio momentâneo de saber que o irmão estava seguro rapidamente deu lugar a uma nova onda de preocupação. Ela já estava transtornada, mas a urgência no tom do ex-padrasto, o pedido para ir "no mesmo dia", mesmo com Natan a salvo, não parecia normal. Por um instante, o medo de que algo pior tivesse acontecido a atingiu, mas ela tentou reprimir o pensamento.
Enquanto trabalhava, limpando a sujeira dos outros, Cássia só conseguia sentir culpa e remorso. Cada lençol sujo que trocava, cada resquício de uma vida que não era a dela, parecia amplificar a dor de ter falhado com seu irmão. O fantasma de Kalel, os encontros que tiveram, tudo parecia ter culminado naquele momento de desespero e perda.
As horas se arrastavam lentamente para Cássia, cada minuto no resort parecendo uma eternidade. A mente dela estava longe, dividida entre a preocupação com Natan e o remorso que a consumia. Ao entrar em um dos melhores quartos, ela começou o procedimento padrão de limpeza, os movimentos automáticos, o olhar vazio.
De repente, seus olhos pararam sobre a cama. Em cima do colchão macio, havia uma mochila. Uma mochila que ela reconheceu instantaneamente. Era a mochila de Kalel. Um arrepio correu por seu corpo, e o nó em seu estômago apertou ainda mais.
Seguindo o instinto, e quebrando todas as regras do trabalho e da sua própria conduta, Cássia estendeu a mão e abriu o zíper da mochila. Lá dentro, as roupas dele coloridas que ele havia usado, os poucos pertences que ele carregava. Ela ficou confusa, sem acreditar no que estava acontecendo. A imagem do "turista pobre" desmoronou em sua mente.
Seu olhar varreu o quarto. No canto, havia uma mala grande e elegante, trancada. O cofre da parede, um modelo de alta segurança, estava fechado. Aquilo não era de um turista comum. A verdade, fria e chocante, começou a se formar em sua mente.
Cássia nem sequer fez o que deveria fazer como camareira; não arrumou a cama, não tocou em mais nada. Seu coração batia descompassado. Ela saiu do quarto rapidamente, quase correndo, e avistou uma colega que limpava um quarto vizinho.
— Você… você viu como era o hóspede daquele quarto? — Cássia perguntou, com a voz embargada, m*l conseguindo conter a urgência e a incredulidade em sua pergunta.
Cássia prendeu a respiração, com o coração martelando no peito. A colega de trabalho, distraída com a própria tarefa, m*l percebeu o desespero nos olhos de Cássia.
— Olha, ele quase não ficou aí e vai embora hoje mesmo. — a moça disse, com um tom de fofoca casual.
— É um Deus grego, amiga, e rico, um n***o gato!
A cada palavra, o mundo de Cássia desmoronava um pouco mais. O "turista pobre", o homem com bermuda e chinelo, o amante vulnerável, era na verdade um magnata. As peças do quebra-cabeça se encaixavam de uma forma dolorosa e humilhante.
A colega continuou, alheia à tempestade interna de Cássia.
— Amiga, arruma direito esse quarto porque ele tem dinheiro pra comprar a pousada inteira. Tenho minhas suspeitas que ele trabalha naquele hotel que quer comprar a nossa vila toda viu.
As palavras da colega se perderam no zumbido ensurdecedor na cabeça de Cássia. A mentira, a manipulação, a farsa… tudo se revelava de uma vez. A vergonha e a raiva a consumiram, mais intensas do que nunca.
A raiva e a humilhação consumiram Cássia. Sem pensar duas vezes, largou o quarto e saiu em uma busca frenética por Kalel. Ela andou a pousada toda, com seus olhos varrendo cada canto, cada rosto. A cada minuto sem encontrá-lo, a sensação de ter sido enganada crescia, alimentando o desejo de confrontá-lo, de extravasar toda a sua fúria. Cássia se sentia muito m*l, uma mistura de desespero e indignação que a impulsionava a dar o maior show, agindo na emoção.
Enquanto Cássia o procurava, Kalel, por sua vez, estava em uma busca desesperada por ela. Ele havia retornado à casa de Cássia. Do lar simples, foi até o quiosque, pronto para contar a verdade sobre quem ele realmente era. Queria muito ficar com ela de novo, e em sua mente, expondo sua realidade, ele conseguiria fazê-la mudar de ideia.
Mas o quiosque estava vazio. Ele andou pelos arredores, sem encontrá-la. Foi então que o mesmo conhecido que havia visto Natan na balsa o abordou.
— Está procurando a Cássia? Ah, ela deve ter pego a balsa também. Foi atrás do irmão.
A notícia esmagou Kalel. Ela havia partido. Desanimado, Kalel retornou à pousada, onde já estava de saída. Seu motorista, com uma eficiência impecável, já havia pegado suas coisas no quarto. Kalel, agora de roupa social, com sua aparência impecável e óculos escuros, era novamente o magnata frio e calculista. Sem uma palavra extra, ele seguiu para o seu carro de luxo.
Cássia, ao saber pelos colegas que o hóspede gato já havia feito o check-out e que o quarto estava vazio, correu, uma última esperança de confrontá-lo. Mas era tarde demais. Não deu tempo. Ela apenas o viu de longe, uma silhueta imponente entrando no banco de trás do carro. O carro partiu, levando consigo não apenas Kalel, mas as últimas ilusões de Cássia. Não havia mais dúvidas: ela havia sido enganada, usada. A dor e a humilhação a engoliram por completo. Cássia ficou ali, parada, observando o carro desaparecer no horizonte, sentindo-se muito m*l, com um vazio excruciante no peito.