Capítulo 27

873 Words
Kalel chegou ao quiosque com o litro de vodca nas mãos e o coração cheio de expectativas. Mas a cena à sua frente não era o que ele esperava. Um rapaz estava servindo as mesas, e se aproximou para atendê-lo. Kalel, confuso, olhou ao redor, buscando o rosto familiar de Cássia. — A dona do quiosque não está? — Kalel perguntou. O rapaz, com um sorriso educado, respondeu: — Não é mais dela, moço. Assumi faz pouco tempo. A notícia atingiu Kalel como um choque. Ele pediu uma caipirinha, com a mente já trabalhando para processar a informação. Enquanto o rapaz preparava a bebida, Kalel, disfarçando a ansiedade, começou a conversar, perguntando se ele sabia algo de Cássia. O rapaz, sem rodeios, começou a contar a triste realidade: — A irmã dela... morreu faz umas semanas. E o irmão dela, o Natan, foi atropelado e se quebrou todo. Uma pena, moço. Kalel sentiu o impacto das palavras, um m*l-estar. As notícias eram piores do que ele poderia imaginar. O rapaz continuou, lamentando a situação de Cássia e explicando como assumiu o negócio: — Eu paguei um valor simbólico para assumir o quiosque. Ela precisava muito de dinheiro, e eu só tinha um pouco guardado. Enquanto a conversa se desenrolava, Kalel, perdido nas informações chocantes, tirou os óculos escuros e o boné. O rapaz, que o havia acompanhado na noite do karaokê, o reconheceu na hora. Ele não disse nada, mas seus olhos curiosos percorreram Kalel, notando a boa aparência, o relógio caro e o celular de última geração. O disfarce do "turista pobre" havia caído. Kalel, com o coração pesado pelas notícias, agradeceu ao rapaz e, sem terminar a caipirinha, seguiu direto para a casa de Cássia. Quando ele chegou à casa de Cássia, a porta estava fechada, e um silêncio melancólico pairava no ar, tão diferente da efervescência que ele esperava encontrar. Não havia sinal dela. Kalel não queria encontrá-la no resort, temia a reação dela ao vê-lo ali, especialmente agora com as notícias trágicas. Sabia que ela poderia reagir muito m*l, e a ideia de um confronto público o aterrorizava. Com o coração pesado, ele decidiu andar pela ilha, tentando esvaziar a mente e, quem sabe, esbarrar com ela por acaso. O dia se arrastou em uma mistura de paisagens paradisíacas e a angústia de não encontrá-la. Ele retornou ao bangalô ansioso, esperando que talvez, depois do almoço, Cássia estivesse lá trabalhando. Por isso, não saiu do quarto. As horas passaram, e Cássia estava lá, tão perto e, por sorte, não o viu. Quando anoiteceu, a solidão e a culpa começaram a apertar. Kalel foi jantar em um restaurante da ilha, tentando se distrair, mas a comida parecia sem sabor. Depois, quase por instinto, acabou no karaokê. Pediu várias caipirinhas, cada gole buscando afogar a dor e o remorso que o consumiam. Cheio de culpa e remorso, e com a bebida afrouxando suas inibições, ele acabou passando da linha. Pegou o microfone e começou a cantar músicas do Roupa Nova. A melodia melancólica da banda, conhecida por suas letras de amor e perda, servia como uma trilha sonora para sua própria angústia, enquanto ele tentava, em vão, esquecer o caos que havia provocado na vida da mulher que não conseguia tirar da cabeça. Já passava das vinte e uma horas, e a ilha pulsava com os últimos resquícios da vida noturna. Kalel, ainda sob o efeito das caipirinhas e da culpa, decidiu que não suportaria mais a solidão do bangalô. Seu destino: a casa de Cássia. Dessa vez, não haveria disfarces. Conseguiu uma carona rapidamente, pagando duzentos reais sem pestanejar. Aquele não era mais o "turista pobre". No bar, antes de partir, fez questão de pagar bebidas para os conhecidos que o viram lá da última vez. Gestos como esses, combinados com sua postura e a aura que o cercava, deixaram claro para todos que o observavam que ele tinha grana, e muita. Ao chegar no quintal de Cássia, Kalel estava diferente. Vestia uma camisa de botão preta, calça jeans bem cortada e sapatênis. Estava nitidamente bem vestido, cheiroso, um contraste gritante com o homem desleixado que ela havia mandado embora dias atrás. Na mão, trazia a garrafa de bebida, um presente que agora parecia carregado de arrependimento e a urgente necessidade de se explicar. Kalel chamou do portão, dessa vez sem a ousadia de invadir o quintal. A voz, embora mais contida, carregava a urgência de quem precisava de respostas. Dentro da casa, Cássia estava na cozinha, picando legumes para um jantar solitário. Havia chegado há pouco do resort, exausta, e já havia tomado um banho rápido, vestindo um baby doll simples. Ao ouvir a voz dele, seu corpo enrijeceu. Ela respirou fundo, tentando conter a onda de raiva e mágoa que a invadia. Com uma frieza calculada, Cássia saiu da cozinha e foi abrir a porta. Quando Kalel a viu, tão linda e frágil em seu baby doll, ele não hesitou. Ignorando o portão, ele entrou no quintal, com seus olhos fixos nos dela, uma mistura de arrependimento e determinação em seu olhar. — Precisamos conversar, Cássia. — ele disse, com a voz grave, sem rodeios. A garrafa em sua mão parecia um símbolo de sua tentativa de redenção.
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