9 de maio de 2015, Morro do Batan, Realengo
— Qual é o trabalho, tio? — A pirralha perguntava. Estava sentada de pernas cruzadas, como gente grande.
Aline só ficou mais bonita conforme cresceu. A mulata mais parecia uísque, só ficava melhor com o envelhecimento e tinha uma filha linda.
A pirralha só tinha dez anos e já era passista-mirim, com todos os não-me-toques que a mãe conseguiu impregnar em sua cabecinha.
— Esse vai ser perigoso, mas o tio ajuda com sua tropa. — Eu lhe sorri. — Tua mãe já ‘tá ligada no que é... Vou pagar como sempre. Só toma cuidado!
— Pode deixar, tio! — Ela sorriu.
— Agora vai lá! — Olhei na direção do baile.
Realmente esperava que não fosse um baile agitado naquele domingo, mas me enganei — na real, esqueci que era final de mês... tempo de dinheiro!
Felizmente, a gente sempre se preparava ‘pra estar abastecido nas festas e não teríamos problemas com isso, mas o plano de ficar quieto foi frustrado.
Após todo o trabalho no dia anterior, ainda consegui adiantar a conversa com a moça da CRE e conectei Alma à mulher — essa parte estava concluída.
Estava recostado numa das vigas de uma marquise quando um amigo da favela vizinha parou ao meu lado e também cruzou os braços, olhando o baile.
— Já teve confronto? — perguntei.
— Ainda não. Ele já se adiantou de lá. ‘Tá tudo numa boa. Trouxe uma paradinha e deixei com DG, deve custear o milícia safado — riu. — Como ‘tá por aqui? A gente ‘tá esperando agitar na Brasil...
— Já esperava que ficaria esquisito. A gente ‘tá vigilante. Se um puto botar a cara, a ordem é derrubar. Como sempre! — Dei de ombros. — Ninguém vai chegar na minha casa e atrapalhar uma paz que me custou.
— ‘Cês são perigosinho. — Ele riu. — Todo mundo já esquematizou também. O chefe só disse ‘pra eu vir porque não quer essa comunicação no rádio.
— Não sei de nada, ‘pô.
— Valeu, meu mano! — Ele assentiu com a cabeça.
— Atividade! — alertei.
Ele só sorriu de canto de boca e se meteu no meio do povo. Ainda acompanhei com o olhar até ver uma silhueta nova na visão periférica.
Olhei ‘pro lado e era Alma. Estava bonita. De salto alto, vestido curto de saia rodada. Mais parecia vestida ‘pra um samba. O decote chamava atenção.
— Que isso, linda! — Eu a medi de cima a baixo.
Nem me fiz de rogado ao devorar com os olhos.
— Ai, quase fiquei pelada só com isso! — riu.
— Porrä, dá até ‘pra entender que tipo de golpe ‘cê dava! — Eu ri. — Bebe algo? Usa algo? — ofereci.
— Não uso nada, mas aceito uma cerveja.
— É a clássica Brahmeira... — Eu me aproximei e o perfume doce e suave deu até tesäo. Mudei de ideia e só corri a mão à sua cintura ‘pra ir até o bar.
Em dias “normais”, o nosso camarote era sempre provido por alguns bares nas diferentes pontas do baile.
Não eram nossos, mas de velhos amigos do morro. Eles estouravam o dinheiro bom deles e sempre davam uma moral quando a gente precisava — era uma ótima relação de muitas trocas de favores.
Em níveis de periculosidade, os bares que estavam mais baixos, perto das descidas, eram os óbvios mais expostos — também os mais barateiros.
Os que estavam mais acima, eram não só os mais seguros e mais caros, mas também os que tinham aparência muito mais luxuosa — só abriam ‘pro baile.
Ela não pareceu se incomodar com a mão na cintura, mas também não direcionou o olhar em minha direção. Eu a guiei até uma mesa no mais vazio deles.
Dentro do bar, era possível ver o movimento no lado de fora. A música era, obviamente, provida pelas nossas caixas — não dava ‘pra colocar nada diferente.
— Por que mudou de ideia? — perguntei, só gesticulando ‘pro carinha servir as nossas cervejas.
Ele já sabia o que eu bebia, não precisei falar.
— Deve fazer uns dois anos que eu não vou em nenhuma festa ou pagode; talvez ainda mais tempo que eu não paro ‘pra beber uma cerveja na rua — falou.
— Eita! Medo do cara? — Fiquei curioso.
— Sempre curti parar num bar perto de casa ‘pra tomar uma. — Ela me olhou de canto. — Já era até amiga do dono do lugar — riu —, mas ele cismou com o cara.
As cervejas chegaram e eu comecei a servir.
— O cara nem era tão novo, talvez já tivesse seus cinquenta. Tinha família, filho. Era gente boa. Só que ciúme é fodä, ‘né!? Não faz sentido! — Deu de ombros.
— Ciúme é uma merda! — ri.
— Desde que cismou com aquele carinha do bar, eu nunca mais parei em bar nenhum. Só saía com ele...
— Começou a te controlar. — Olhei e ela assentiu. Entreguei sua tulipa e brindei com ela. — Ao maldito ciúme que deixa todo homem doido...
— Amém! — Ela bebeu após o brinde. — ‘Cê não parece do tipo que tem ciúme assim... Vendo como age com Helena e tal... Sei que ela tem os boys dela.
— Pfff. Tenho ciúme ‘pra caralhö! — ri de novo. — Só aprendi a me manter numa boa. A gente não ‘tá junto, nem nada. Quando a gente ‘tava, eu traía, ‘né!?
— Tem muito homem que acha que tem direito de trair... — Ela deu de ombros. — ‘Cê poderia ser só mais um desses e nem seria nenhuma surpresa.
— Nunca fui tão babaca assim e nem pretendo ser. Eu perdi muito amigo quando meu último chefe surtava com a mina dele. Nunca vou repetir aquilo!
Mesmo que já tivesse passado muito tempo, o amargor da lembrança era igualmente forte. Acabei meneando a cabeça e respirando fundo.
— Agora que ‘tá longe desse prego... Quais são seus planos, Alma? — Tentei mudar o assunto.
Ela acabou rindo e abaixou a cabeça.
— Ainda não sei. — Meneou a cabeça. — Nem acredito que as coisas realmente... podem ficar bem. Ainda não caiu a ficha que ele não vai aparecer do nada.
— Se ele brotar, a gente atira ‘pra matar. Não sou só um traficante — sorri com toda minha confiança. — Antes de traficar, já trabalhava atirando e eu era bom.
— Por isso é tão normal ‘pra tu, ‘né?
— O quê!? — Eu a olhei.
— Nada... — Ela meneou a cabeça.