14 de maio de 2015, Morro do Batan, Realengo
— Ei, ei... O que ‘tá havendo? — Era Naval.
De toque bruto, ele pegou meu queixo ‘pra erguer meu rosto e fitar meus olhos, parecendo preocupado.
Após aquele horrível mäl-estar, a sensação só piorou com o traste tentando fazer contato. Tudo pareceu simplesmente apagar e só lembro de chorar.
— E-Eric... E-e... e-ele... ‘tá aqui!
Ele soltou meu queixo para passear com a mão em meu pescoço até pousá-la em minha nuca. Com seu jeitão bruto, ele me puxou ‘pra me envolver.
— Precisa manter a calma — pediu o impossível!
Deu ‘pra sentir ele pôr dois dedos em meu pescoço. Pareceu contar baixo — o que tocou meus nervos, me deixou ainda mais agoniada.
— Calma... — Ele insistiu.
Eu me sentia tonta.
As lágrimas seguiam vazando. Minha cabeça parecia que explodiria e os pulmões estavam exauridos!
— A mãe vai trazer um chá. — Eric me ajudou a sentar. — ‘Cê toma e depois me conta o que houve.
Não pude esconder o quanto o corpo estava trêmulo ao apontar para o meu telefone. Ele assentiu com a cabeça e o pegou. Beijou minha testa e saiu.
“Calma!”, eu repeti ‘pra mim mesma enquanto o pedido de Eric mais pareceu ecoar na minha cabeça.
Ana chegou com a xícara e sentou ao meu lado.
— Bebe... É calmante. — Ela sorriu. — Tenta respirar fundo... tudo bem? ‘Cê não ‘tá só. Lembra disso!
— ‘B-brigada.
Fechei os olhos e suspirei, segurando a xícara com firmeza. Bebi devagar, repetindo aquele pedido mentalmente enquanto ela acariciava meu ombro.
Naval só voltou quando terminei de beber. De semblante sério, ele colocou o telefone sobre o armário e sentou no chão, na minha frente.
— Eric, quer um café? — Ana ofereceu.
— Posso, minha mãe...
— Vem! — Ela o convidou e ele levantou ‘pra segui-la. — Alma comerá algo, não!? — arguiu retórica.
— S-sim, senhora.
— Só esperar, mocinha. — Ela sorriu.
Deixaram a sala e eu acabei me encolhendo no sofá. Foi exótico. Nunca senti aquilo antes e, pior, eu nunca me vi tão vulnerável como naquele momento.
— Eu ‘tô tentando, mas não é simples... — Ouvi Naval falar um pouco alto na cozinha. — Não sei como repreender ele, nem sei como faço ela agir diferente!
Logo fiquei preocupada com Eric, coitado. Eu já sabia que sua situação com Lena não era boa, mas ver Ana intervir me fez pensar que a coisa piorou.
— Eu ‘tô cansado... minha mãe...
A voz ‘tava carregada com aquela tristeza que cortava o coração. Acabei levantando ‘pra ir à cozinha e Naval ‘tava sentado enquanto Ana falava baixo:
— Imagino que sim, mas é teimoso! Você escolheu esse caminho horroroso — repreendeu. — Ainda pode sair, mas insiste... então, tenta ter juízo, mocinho!
— Ainda tenho! — Ele a respondeu.
Apoiava ambos os cotovelos na mesa e tapava o rosto com as mãos. Uma das mãos de Ana, pousada em seu ombro, fazia uma suave massagem.
Deu ‘pra sentir o quanto ela ‘tava preocupada.
— Ainda não falei com ele sobre isso... Só o mínimo ‘pra ele largar a arma, mas... É fodä. Eu sei que tenho que falar algo, mas não faço ideia do quê.
— Se fosse você no lugar dele, o que acha que faria diferença? — Foi a pergunta de Ana. — Não há uma resposta certa, mas há boas respostas ‘pra isso.
Ele ergueu a cabeça e respirou fundo.
Ao observar seus ombros pesados e o sério semblante que parecia implorar por ajuda foi a primeira vez que eu senti o coração errar as batidas.
“Calma...”, seu pedido acabou reacendendo na minha memória. Quer dizer, ele falou com tom tão calmo, nem parecia aquele cara cansado à mesa.
Uma estranha sensação ansiosa pareceu revirar meu estômago ou o diafragma logo acima, isso fez a entrada de ar parecer estranha.
Coloquei a mão na barriga, franzindo o cenho.
Talvez pelo reflexo, Eric sacou a pistola rápido e apontou na minha direção. Eu me senti parar de respirar, arregalando os olhos, mas ele arfou.
— Desculpa, linda. — Ele meneou a cabeça.
— D-desculpa. Não queria assustar. Nem espiar.
Ele foi rápido ao guardar a arma.
— E-eu vou... tenho trabalho ainda. — Eric se levantou, engolindo seco. — Eu te amo, mãe. ‘Bença!
— Xangô te desvie dos caminhos tortos, menino. Que a mão de Deus alinhe suas ideias ‘pro bem. — Ana o abraçou apertado com semblante triste.
Devia ser muito ingrato estar no lugar dela, fazer aquele papel de pessoa boa que vê os outros se afundando, dia após dia — eu nem podia imaginar.
— Fica bem, filho meu! — desejou com doçura.
Eric volveu e veio em minha direção.
A melancolia de seus olhos contrastava com a seriedade do resto da face, como o habitual. Cada passo em minha direção fez meu corpo estremecer.
Senti as mãos suarem e calor, muito calor!
— Vai ficar tudo bem. Não se preocupa. — Ele pousou a mão em meu rosto ao se aproximar, sorrindo amarelo. — Lembra que ele não pode te tocar, okay?
O tom tão zeloso me fez sentir protegida.
— ‘Brigada, Eric. — Fitei seus olhos.
Até me preparei ‘pra receber um beijo na boca, mas ele beijou minha testa — mais que suficiente ‘pra me arrepiar e extrair as forças de meu corpo.
— Cuidado e lembra de manter a calma! — Ele alertou e passou por mim logo depois. — Até mais!
Precisei me recostar na entrada da cozinha e não pude evitar de observá-lo sair. Algo dentro de mim gritava ‘pra ele ficar, me fazer companhia.
Meneei a cabeça ao entender que seria muito absurdo chamá-lo de volta assim, de repente.
Quer dizer, a gente transou, mas não era ‘pra tanto.
— A mocinha vai descer da lua ‘pra comer? — Ana chamou atenção, quase me causando um infarto.
— C-claro. O q-que houve... com ele?
— Miguel sacou uma pistola ‘pra Helena hoje. — Ana suspirou, triste. — Puxou o gênio forte dos pais...
— Nossa! Eric deve ‘tá péssimo... — Voltei a olhar à sala. Senti culpa por atrapalhar aquele momento onde ele provavelmente só ‘tava sendo filho dela.
— Ele suporta, mas ninguém sabe quanto tempo.