Capítulo 42. Um Hábil Equilibrista

1130 Words
15 de maio de 2015, Morro do Batan, Realengo — ‘Bença, pai. — Foi mais uma manhã onde um zumbi ‘tava aos pés da minha cama. — Bom dia. — Dia. — Eu me sentei. — Como ‘tá hoje? Eu me sentia estupidamente cansado. Acabei me dedicando inteiramente ao trabalho naquele dia. Teve festinha na endolação, mas eu nem participei de nada. Não consegui pregar os olhos direito pela noite. Um maldito pesadelo me mostrou meu filho atirando em Helena e isso perturbou os meus sonhos. Conseguindo cochilar às quatro e meia, eu me peguei voltando a acordar ao ver um vulto no quarto. Pronto, lá se foi embora o sono. — Bem, eu acho... e-eu... — Ele abaixou a cabeça. — Seu pai não sabe o que fazer. — Eu me ajeitei na cama. — Devia te repreender ou te dar uma putä lição de moral, mas eu não sei como fazer isso. — E-eu sei que foi errado. — Respirou fundo. — Tenho certeza que sim. ‘Cê não é bobo. — Por que a mãe não me ouve? — Ele me olhou. — A vida é esquisita, meu anjo. As famílias, antes, se valiam da palavra do mais velho, sabe? Isso fazia com que todas as palavras do mais novo nada valessem... Ele me olhou com curiosidade. — Não acho que é por mäl. Os mais velhos acham saber de tudo por terem sofrido demais. Tentam anular os mais novos justamente ‘pra impedi-los de sentir dor. — Mas... — Dói muito. Eu sei. — Eu o interrompi. — E-eu queria falar com a mãe, mas ‘tô com vergonha. — Ele abaixou a cabeça, engolindo seco. — É completamente normal, eu acho — ri. — Eu devo!? — Ele fitou meus olhos. — Depende, meu anjo. Há muito tempo, seu pai te pede ‘pra ser paciente; até ‘pra ser omisso, abaixar a cabeça e só pedir desculpa... não é? — E eu sempre faço! — Ele logo se defendeu. — Sim e eu te agradeço muito por isso — sorri —, mas, agora, tudo muda, Miguel. Será mais fácil sentir que deve desafiar sua mãe... então, depende... — Ela não precisa aprovar tudo, mas não precisa ser tão cruël, eu acho. — Seu olhar entristeceu. — Parece que não liga ‘pra mim ou qualquer coisa que eu falo. — Sua mãe teve uma família que a ensinou ser certo dessa forma. Ela só ‘tá replicando a forma como acredita que cuidará bem de você... — Entendi, mas não gosto — lamentou. — Que tal esperar um pouco? — sugeri. — Tenta se acalmar um pouco mais; eu falo com sua mãe e tento acalmá-la um pouco mais... e aí, sim, vocês conversam? — S-sim, senhor. — Hoje é sexta-feira. Dia de baile. — Eu não vou. — Ele meneou a cabeça. — Que bom que sabe — ri. — ‘Tá de castigo! Ele se aproximou ‘pra deitar a cabeça no meu colo. Ainda parecia muito tristonho, apesar de ter confusão e timidez se misturando no semblante. — Se for castigo... tem que tirar a Pati do quarto? — Quase que implorou ‘pra eu não fazer isso. — Pois é! — Eu assenti e ele pareceu ainda mais tristonho. — Vai ficar aqui comigo até isso passar, ‘tá? — Ele assentiu com a cabeça. — Agora, me diz... o que ‘tá rolando com a Pati? Pensei que ‘cês não se pegavam... — Não sei... pai. — Seu rosto ficou vermelho. — Quem foi que procurou? — Ela. Nunca me imaginei... beijando a Pati. — Foi ruïm? — ri e ele meneou a cabeça. — Sabe que meu primeiro beijo foi com a sua mãe? Eu era meio bobo... nem percebi que ela queria... ela só fez... Acabei sorrindo largo com a lembrança. — ‘Cês... desmoronaram, ‘né!? — Ele soou triste. Alguns soluços acabaram acumulando no meu peito, mas me recostei na cabeceira ‘pra respirar fundo, expulsando aquela maldita agonia dos pulmões. — Pois é! — Eu só consegui assentir. — Teve muito amor envolvido. — Eu o olhei, rindo. — É bem difícil ‘pra mim ver que ‘cês ‘tão entrando numa fase pior ainda... — Desculpa. — Não precisa se desculpar comigo. Era inevitável. Só quero que ‘cês se resolvam, sem nenhum sangue correr, sabe!? — arfei. — Isso é muito sério, meu anjo... — Eu sei... F-foi... Eu amo a mãe, mas... foi tão injusto... ela podia, de repente, só partir ‘pra cima da Pati... como eu já vi ela fazer com tantas... e-eu... Acariciei seus fios rebeldes e ele respirou fundo, engolindo seco. Acabamos silenciados por algum tempo. Fiquei satisfeito com o pouco que falamos. Ele parecia mais calmo e logo ficou evidente que foi um acidente causado por um jovem apaixonado... Seria ainda mais difícil de lidar. Fiz o máximo de preces possível naquele tempo — só uma intervenção divina naquela situação onde eu me sentia completamente impotente, eu não podia reagir. Após a quietude, levantei ‘pra ir ao meu banho e Miguel desceu, falando que cuidaria do café da manhã. Tomei um putä banho gelado — tipo, gelado ao ponto de dar câimbras no corpo todo. Ajudou e a adrenalina me acordou daquele torpor melancólico. Fiz meu velho exercício ‘pra ter um bom dia: me arrumei bem com direito ao meu melhor perfume. O quarto tinha um altar sobre a porta. Era pequeno, mas tirei quase uma hora inteira ‘pra cuidar dele, limpar tudo, fazer as minhas orações... Era repetitivo, mas eu só podia orar... Dei um jeito rápido no quarto. Nada nunca ficava fora do lugar — porque nunca suportei zona no quarto —, mas ainda fui atento ao lidar com as minhas coisas. Desci e Patrícia já estava à mesa. Eles falavam baixo, mas o sorriso na cara de Miguel deixava bem claro que o assunto não devia ser ouvido por mim. Sempre cuidei de não ser muito barulhento ao andar, então precisei mudar isso com passos mais fortes ‘pra me fazer perceber pela duplinha safadinha. — D-dia. — Miguel ficou muito sem graça. — Bom dia, tio! — Pati me olhou e sorriu. — Dia... Já posso chamar de nora? — brinquei. — Que isso, pai... — Se ele pudesse abrir um buraco e entrar, provavelmente faria rápido. — Qual foi? — N-não, tio. — Ela meneou a cabeça rápido. — Entendo... — Eu acabei rindo e me juntando. — Eu espero. Como você ‘tá, Pati? — Comecei a me servir. — Ele falou contigo que ‘cê vai trocar de quarto, ‘né!? — S-sim... e-ele falou... Tudo bem! — assentiu.
Free reading for new users
Scan code to download app
Facebookexpand_more
  • author-avatar
    Writer
  • chap_listContents
  • likeADD