16 de maio de 2015, Morro do Batan, Realengo
— Sabemos de um acordo do CV com o pessoal de São Paulo. ‘Tão buscando um vacilão da área deles que, supostamente, tem uma baba... — Nando falava.
— É um suposto homem... — Eu o olhei.
— Os rumores dizem que sim.
— As favelas deles viraram de ponta-cabeça, mano. — Ele meneou a cabeça. — Tem até vídeo dos filhos da putä revirando a casa dos outros.
— Saquei! — assenti com a cabeça, pegando meu telefone. — Grava esses rostos porque eles são de lá.
Coloquei no trechinho da galeria onde eu ainda tinha as fotos dos carinhas que andaram com Alma.
— Diego é o nome desse puto. É quem começou essa merda e eu não sei bem como. Atividade, mano!
— ‘Tá sabendo do quê!? — Ele riu.
— Eles ‘tão procurando uma mina... esse puto disse que ela roubou ele... O papo não é esse e eu não sei o que ele ganha colocando o mundo atrás dela.
— Uma mina... — Ele me olhou de soslaio.
— Sim, ‘tá comigo e vou ‘pra guerra, se preciso.
— Eita! — Ele acabou rindo, debochado. — Tua mina mesmo ou só uma parceira... familiar, sei lá?
— É da família... e é gente boa. Cometeu os vacilos dela, mas não roubou ele... aqui é o certo pelo certo.
— Vou avisar em casa... Cuidado, mano! — Ele alertou. — Vai realmente querer transformar isso numa putä guerra à moda antiga? Avisa logo.
— Se eles vierem ‘pra isso, eu ‘tô mais que pronto!
— Conta com a gente, ‘pô. — Ele deu de ombros. — Se eles vierem com a intenção de plantar aquele caos todo, eles ‘tão fodido com a gente! — Meneou a cabeça.
Não sabia do que ele ‘tava falando, mas ele mostrou as imagens que alguns moradores fizeram dos putos destruindo a casa deles.
Sempre foi muito fácil me deixar com raiva e aquele era o tipo de coisa que eu mais odiava ver.
— Vou comunicar os meus ainda hoje sobre isso — falei, me levantando. — Espero que curta o baile!
— Claro, ‘pô. — Ele sorriu.
Saindo dali, fui direto na boca falar com DG.
Ainda não alarmei, mas já deixei comunicado que o papo da nossa última reunião ia voltar pelo dia.
Isso já ajudaria ‘pra eles se esquematizarem ‘pra ir na minha casa. A cabeça já começou a trabalhar em todo o necessário ‘pra eu realmente ir à guerra.
Mesmo não querendo, era impossível esconder toda a hostilidade e preocupação de DG. Eram muitos anos de convivência nas mais diversas situações.
Ainda desci um pouco ‘pro meio dos carros estacionados só ‘pra fumar meu cigarro em paz.
O ruïm de lidar com qualquer trabalho muito sério enquanto estava na onda é que isso acabava me deixando mais sóbrio do que eu gostaria.
E eu disse que não usaria nada ‘pra Alma...
— ‘Tá me trocando por ela? — Lena parou perto do carro atrás de mim. — Eu não acredito nisso, Eric!
Virei em sua direção e apenas respirei fundo.
— ‘Cê não ‘tá pensando numa parada séria com o VK? — perguntei, dando de ombros. — Achei que sim.
— Não desconversa... — Ela se aproximou.
— Na real, não sei se é possível te trocar, Lena. Só não te quero mais... Aproveita tua vida; tenta tirar o VK dessa e, quem sabe, ‘cê não vive seu conto de fadas!?
— C-como... — Ela abaixou a cabeça.
— Não ‘tô desconversando quando falo disso. Acho que ‘cê merece. Ele é um cara bom, é um cara inteligente... Não tem que ficar presa comigo.
— A gente viveu tanta coisa. — Uma lágrima correu seu rosto. — A gente sobreviveu há tanta coisa!
— A gente não tem salvação. — Meneei a cabeça. — Quando achei que tinha, por muitos anos, ‘cê fez questão de jogar na minha cara que não... O que mudou?
Seu olhar arregalou e ela me olhou em silêncio.
— Agora, Miguel tem treze anos... Isso significa que fazem mais de dez anos que eu estive preso nessa porrä dessa esperança de ter você de novo.
— E-eu...
— Pode parecer fácil ‘pra você, olhando de fora, a forma como eu parecia muito feliz, mas não ter você na minha cama foi uma das piores dores da minha vida.
Eu só respirei fundo, meneando a cabeça.
— Nem falo de transär contigo. Só de ‘tá no teu braço, ‘tá ligada? Ter um colo que afastava os meus malditos demônios pela noite. Doeu muito, Helena!
— D-desculpa.
— Agora, passou. — Dei de ombros. — Volta ‘pro baile... Vai curtir sua noite. — Beijei sua testa. — Você sempre vai ser uma boa amiga, isso não vai mudar.
Nem deixei que ela respondesse, só voltei.
Obviamente, tinha muito lixo emocional ‘pra descarregar. Como garanti a Alma que não usaria nada, recorri a outro cigarro, mas ainda voltei ao camarote ‘pra me sentar ao lado dela que estava só bebendo.
— Não ‘tá bem? — Ela perguntou quando cheguei.
— Que porrä de mágica é essa? — ri.
— Do quê!? — Ela franziu o cenho.
— Já fui um bom mentiroso. — Meneei a cabeça.
— O que houve? — Ela aproximou a cadeira.
— Nada.
— Não vai me convencer! — Soou repreensiva.
— A gente pode falar disso amanhã, o que acha?
— Só se prometer! — propôs.
— Prometo — assenti com a cabeça.
— Se não quer falar, quer dançar? — Ela levantou, soando empolgada. — Ou quer que eu dance ‘pra você?
— Pode dançar! — sorri de canto de boca.
Ela se aproximou ‘pra envolver meu pescoço. Abaixou um pouco ‘pra beijar o canto da minha boca, mas não tardou ‘pra mostrar o quanto rebolava bem.
Ajudou a diluir a melancolia que Helena me fazia sentir. Consegui me distrair e não tentei compensar aquela sensação na cerveja ou qualquer outra bebida.
Foi razoável.
Ficamos chapadinhos na medida e subi por volta das quatro, quando o movimento do baile já ‘tava começando a cair. Só me despedi da tropa ‘pra subir.
— Como foi a noite sem usar nenhuma droga? — perguntou quando chegamos à sala. — Valeu a pena?
— Ainda não — ri, medindo-a de cima a baixo.
— Ah, seu maldoso... Vou fazer valer, então! — Ousada, ela me pegou pela mão ‘pra começar a subir.
Mulheres com iniciativa têm um sabor melhor...