Capítulo 50. Uma Perdedora Insistente

1125 Words
16 de maio de 2015, Morro do Batan, Realengo — Sabemos de um acordo do CV com o pessoal de São Paulo. ‘Tão buscando um vacilão da área deles que, supostamente, tem uma baba... — Nando falava. — É um suposto homem... — Eu o olhei. — Os rumores dizem que sim. — As favelas deles viraram de ponta-cabeça, mano. — Ele meneou a cabeça. — Tem até vídeo dos filhos da putä revirando a casa dos outros. — Saquei! — assenti com a cabeça, pegando meu telefone. — Grava esses rostos porque eles são de lá. Coloquei no trechinho da galeria onde eu ainda tinha as fotos dos carinhas que andaram com Alma. — Diego é o nome desse puto. É quem começou essa merda e eu não sei bem como. Atividade, mano! — ‘Tá sabendo do quê!? — Ele riu. — Eles ‘tão procurando uma mina... esse puto disse que ela roubou ele... O papo não é esse e eu não sei o que ele ganha colocando o mundo atrás dela. — Uma mina... — Ele me olhou de soslaio. — Sim, ‘tá comigo e vou ‘pra guerra, se preciso. — Eita! — Ele acabou rindo, debochado. — Tua mina mesmo ou só uma parceira... familiar, sei lá? — É da família... e é gente boa. Cometeu os vacilos dela, mas não roubou ele... aqui é o certo pelo certo. — Vou avisar em casa... Cuidado, mano! — Ele alertou. — Vai realmente querer transformar isso numa putä guerra à moda antiga? Avisa logo. — Se eles vierem ‘pra isso, eu ‘tô mais que pronto! — Conta com a gente, ‘pô. — Ele deu de ombros. — Se eles vierem com a intenção de plantar aquele caos todo, eles ‘tão fodido com a gente! — Meneou a cabeça. Não sabia do que ele ‘tava falando, mas ele mostrou as imagens que alguns moradores fizeram dos putos destruindo a casa deles. Sempre foi muito fácil me deixar com raiva e aquele era o tipo de coisa que eu mais odiava ver. — Vou comunicar os meus ainda hoje sobre isso — falei, me levantando. — Espero que curta o baile! — Claro, ‘pô. — Ele sorriu. Saindo dali, fui direto na boca falar com DG. Ainda não alarmei, mas já deixei comunicado que o papo da nossa última reunião ia voltar pelo dia. Isso já ajudaria ‘pra eles se esquematizarem ‘pra ir na minha casa. A cabeça já começou a trabalhar em todo o necessário ‘pra eu realmente ir à guerra. Mesmo não querendo, era impossível esconder toda a hostilidade e preocupação de DG. Eram muitos anos de convivência nas mais diversas situações. Ainda desci um pouco ‘pro meio dos carros estacionados só ‘pra fumar meu cigarro em paz. O ruïm de lidar com qualquer trabalho muito sério enquanto estava na onda é que isso acabava me deixando mais sóbrio do que eu gostaria. E eu disse que não usaria nada ‘pra Alma... — ‘Tá me trocando por ela? — Lena parou perto do carro atrás de mim. — Eu não acredito nisso, Eric! Virei em sua direção e apenas respirei fundo. — ‘Cê não ‘tá pensando numa parada séria com o VK? — perguntei, dando de ombros. — Achei que sim. — Não desconversa... — Ela se aproximou. — Na real, não sei se é possível te trocar, Lena. Só não te quero mais... Aproveita tua vida; tenta tirar o VK dessa e, quem sabe, ‘cê não vive seu conto de fadas!? — C-como... — Ela abaixou a cabeça. — Não ‘tô desconversando quando falo disso. Acho que ‘cê merece. Ele é um cara bom, é um cara inteligente... Não tem que ficar presa comigo. — A gente viveu tanta coisa. — Uma lágrima correu seu rosto. — A gente sobreviveu há tanta coisa! — A gente não tem salvação. — Meneei a cabeça. — Quando achei que tinha, por muitos anos, ‘cê fez questão de jogar na minha cara que não... O que mudou? Seu olhar arregalou e ela me olhou em silêncio. — Agora, Miguel tem treze anos... Isso significa que fazem mais de dez anos que eu estive preso nessa porrä dessa esperança de ter você de novo. — E-eu... — Pode parecer fácil ‘pra você, olhando de fora, a forma como eu parecia muito feliz, mas não ter você na minha cama foi uma das piores dores da minha vida. Eu só respirei fundo, meneando a cabeça. — Nem falo de transär contigo. Só de ‘tá no teu braço, ‘tá ligada? Ter um colo que afastava os meus malditos demônios pela noite. Doeu muito, Helena! — D-desculpa. — Agora, passou. — Dei de ombros. — Volta ‘pro baile... Vai curtir sua noite. — Beijei sua testa. — Você sempre vai ser uma boa amiga, isso não vai mudar. Nem deixei que ela respondesse, só voltei. Obviamente, tinha muito lixo emocional ‘pra descarregar. Como garanti a Alma que não usaria nada, recorri a outro cigarro, mas ainda voltei ao camarote ‘pra me sentar ao lado dela que estava só bebendo. — Não ‘tá bem? — Ela perguntou quando cheguei. — Que porrä de mágica é essa? — ri. — Do quê!? — Ela franziu o cenho. — Já fui um bom mentiroso. — Meneei a cabeça. — O que houve? — Ela aproximou a cadeira. — Nada. — Não vai me convencer! — Soou repreensiva. — A gente pode falar disso amanhã, o que acha? — Só se prometer! — propôs. — Prometo — assenti com a cabeça. — Se não quer falar, quer dançar? — Ela levantou, soando empolgada. — Ou quer que eu dance ‘pra você? — Pode dançar! — sorri de canto de boca. Ela se aproximou ‘pra envolver meu pescoço. Abaixou um pouco ‘pra beijar o canto da minha boca, mas não tardou ‘pra mostrar o quanto rebolava bem. Ajudou a diluir a melancolia que Helena me fazia sentir. Consegui me distrair e não tentei compensar aquela sensação na cerveja ou qualquer outra bebida. Foi razoável. Ficamos chapadinhos na medida e subi por volta das quatro, quando o movimento do baile já ‘tava começando a cair. Só me despedi da tropa ‘pra subir. — Como foi a noite sem usar nenhuma droga? — perguntou quando chegamos à sala. — Valeu a pena? — Ainda não — ri, medindo-a de cima a baixo. — Ah, seu maldoso... Vou fazer valer, então! — Ousada, ela me pegou pela mão ‘pra começar a subir. Mulheres com iniciativa têm um sabor melhor...
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