Quando entraram Seu Jair e Neide já haviam chegado.
Júlio pediu para conversar com Seu Jair e foram pra um barzinho que havia ali perto.
Sentaram em uma mesa e pediram dois sucos.
Seu Jair perguntou:
- Então, rapaz, o que está acontecendo? Algum problema com a recuperação da Berenice? Alguma coisa não vai bem?
- Não, com a recuperação dela tudo está caminhando de forma positiva, tanto que vou dar meu trabalho como terminado. Agora só falta ela ter segurança para largar as muletas e perceber que não precisa mais delas.
- Como é isso?
- Berenice já pode andar normalmente, agora é só uma questão de segurança, de confiança nela mesma. Ela se acostumou tanto em só caminhar com o apoio que ainda não percebeu que não precisa mais delas.
- Acha que é o caso de pedirmos ajuda a um psicólogo?
- Não vejo necessidade. Ela hoje saiu comigo e não levou as muletas. Achou que só de braço dado comigo, eu estava servindo de apoio, mas eu percebi que não havia peso no andar dela. Eu não era um substituto para as muletas. Todo o trabalho foi feito por ela mesma. Por isso, eu não quero continuar a receber por um serviço que não tem mais necessidade.
Além disso, nos gostamos e eu a pedi em namoro, mas deixei claro que só iríamos começar a namorar depois que eu lhe desse alta.
- Então você enganou ela?
- Não. Esse processo de confiança pode ser lento. Ninguém pode dizer por antecipação quanto tempo vai levar. Se eu mandar ela andar sem as muletas, o medo pode travar e ela não conseguir. Mas eu não posso continuar a trabalhar remunerado pelos pais de minha namorada. Por isso, vou continuar a sair com ela e aos poucos ela vai perceber que não precisa mais das muletas.
- Você é um rapaz decente. Fazemos muito gosto nesse namoro.
- Fico feliz em ser aceito pela família. Já tinha conversado com Dona Nora, que como amigo, não me sentia a vontade de continuar a receber. Agora como namorado, não teria cabimento.
- A Nora me falou da conversa que vocês tiveram, mas também sou de opinião que mesmo um amigo merece receber por um serviço prestado. Afinal você investiu na sua formação e é justo que tenha o retorno desse investimento.
- Não se preocupe quanto a isso. Além de ter outros pacientes, estou entrando em um hospital como contratado. O que eu não vou fazer é continuar a receber de vocês.
- É justo. Vou conversar com a Nora e explicar essa sua nova condição de namorado e ela vai entender. Aliás, tenho certeza que vai gostar muito da novidade. Você conseguiu conquistar toda a família. Pode ter certeza.
- Fico muito feliz com isso. Mas agora é melhor voltarmos. O senhor tem que acordar cedo amanhã prá trabalhar. Espero que o suco não tenha lhe tirado o apetite.
- Não se preocupe, a noite eu como pouco, ainda dá pra beliscar alguma coisa. Vamos.
Pagaram e foram pra casa.
Júlio deixou Seu Jair no portão de casa e foi embora. Não quis entrar para não atrapalhar a rotina da casa. Já estava ficando tarde.
Seu Jair entrou e já encontrou com a família completa. Todos já haviam chegado e só esperavam ele pro jantar.
Ele resolveu anunciar:
- O Júlio pediu para namorar a Berenice. Com isso, não quer receber mais pelo tratamento. Achei justo. Agora só resta saber de você Berenice, também quer esse namoro?
- Sim pai. Há muito tempo gosto dele, mas ele apesar de ser muito carinhoso na maneira de lidar comigo, sempre se manteve na posição de um prestador de serviço. Somente hoje, conversamos e eu aceitei o namoro. Só que ele falou que só iríamos namorar quando terminasse o tratamento.
- Pois é isso. O tratamento acabou.
- Como, se eu ainda não posso andar sozinha?
- Ele vai continuar a te ajudar, só que agora, como namorado, sem hora marcada.
Dona Nora comentou:
- Ele podia ter falado com todos nós. Porquê te chamou pra uma conversa em particular?
- Não seja ciumenta, ele vai falar com todos. É um rapaz decente e não queria fazer nada escondido, por isso, me chamou prá conversar. Queria saber de mim primeiro para depois falar com todos. Afinal eu sou o chefe da casa. Agora vamos comer. Amanhã é dia.
Jantaram e enquanto Dona Nora e Neide foram arrumar a cozinha, os outros foram se distrair em frente a televisão, até a hora de se recolher. Aos poucos um a um foi se retirando.
No dia seguinte, depois que todos saíram, Dona Nora e Berenice se ocuparam com os afazeres da casa. Enquanto cada uma realizava uma tarefa, Dona Nora perguntou:
- E agora, o que você tá pretendendo fazer?
- Sobre o quê, mãe?
- Você já está em casa há um ano. Não pretende retomar a tua vida de onde parou?
- Tenho que marcar uma nova perícia. Só o instituto pode me dar alta prá eu voltar pro trabalho.
- É bom ter alguém dentro de casa pra me fazer companhia, mas prá você vai ser bom voltar a trabalhar, ver gente, preencher o teu dia, você já deve estar cansada de ficar em casa o tempo todo.
- É mãe, estou doida prá voltar pro trabalho. Quanto a uma pessoa pra te fazer companhia, vou falar com todos hoje. Acho que seria bom contratar uma pessoa pra te ajudar no serviço da casa e ao mesmo tempo te servir de companhia até a hora de nós chegarmos.
- Como assim? Uma pessoa estranha mexendo nas minhas coisas, nas minhas panelas?
- Não precisa ser assim. Pode dividir o serviço, até porque ficar sem fazer nada é muito chato. É muito chato. Esse tempo que eu fiquei em casa parecia que cada dia tinha quarenta e oito horas, mas se você dividir as tarefas uma faz companhia a outra e se ocupam. Você pode continuar fazendo a comida e ela o serviço mais pesado. É uma questão de combinar.
- Não sei se o teu pai vai querer.
- Se não perguntarmos, não vamos saber. O papai ganha bem e todos nós trabalhamos e podemos ajudar a pagar alguém. É só uma questão de combinar.
- É uma boa idéia, mas não quero nenhuma mocinha, cabeça de vento pra me dar mais trabalho.
- Tem muita gente de mais idade procurando trabalho por aí. Com certeza vai ser fácil arrumar alguém.
- Tem que ser gente conhecida. Afinal vai conviver com todos em casa, ter acesso a tudo, tem que ser alguém de confiança.
- Pode ser também alguém de alguma agência. Essas agências têm controle sobre quem colocam nas casas das pessoas. Tudo o que a pessoa fizer de certo ou de errado, são eles os responsáveis.
- É verdade, é mais seguro.
- A noite, quando todo mundo estiver aqui, falamos com eles.
E continuaram com seus afazeres.
Berenice ficou pensando que seria bom sua mãe ter companhia. Pretendia voltar a trabalhar logo. Estava cansada de ficar em casa.
Quando todos estavam em casa, na hora do jantar, Berenice puxou o assunto:
- Gente, eu estava pensando. Daqui a pouco eu vou voltar a trabalhar, vou pedir uma perícia pra ter alta do instituto. Tô cansada de ficar em casa. Conversei com a mamãe e acho que podíamos contratar alguém pra ajudar ela no serviço da casa e servir de companhia pra ela enquanto não estamos aqui. Ela fica sozinha o dia inteiro. Isso é muito chato. Cada um de nós entra com uma parte do salário e não fica pesado prá ninguém.
Todos concordaram, mas Seu Jair perguntou:
- Mas onde vamos arrumar alguém de confiança de uma hora pra outra. Hoje em dia é como encontrar uma agulha no palheiro.
Neide deu sua opinião:
- Podemos conversar com os vizinhos que tem empregadas dentro de casa. Uma delas pode ter alguém da família ou alguma colega de confiança precisando de trabalho e nos indicar. Quem indica uma pessoa pra trabalhar é porque conhece e confia. É uma maneira segura.
Berenice:
- Ou procurarmos em uma agência. As agências de emprego tem responsabilidade por quem colocam nas casas dos outros.
Neide:
- Também é uma boa idéia. E você não vai voltar a trabalhar amanhã. Dá tempo da mamãe se acostumar com a pessoa antes de ficar sozinha com ela.
Dona Nora explicou que não queria nenhuma mocinha. Preferia uma pessoa mais madura.
Neide achou melhor ser mesmo uma pessoa de mais idade, assim iam ter melhor entrosamento.
Decidido esse item, Dona Nora falou:
- Mas só quero que trabalhe de Segunda a Sexta. Não quero ninguém de fora atrapalhando nossos familiares finais de semana, quando todos vocês estão em casa.
Berenice falou:
- Vai ser mais fácil ainda. Todo mundo vai querer trabalhar num lugar tranquilo e ficar com os finais de semana livres.
E assim ficou decidido. Dona Nora ia começar a falar com a vizinhança, se não aparece ninguém partiram para uma agência.
O jantar acabou e enquanto as mulheres arrumavam a cozinha, Seu Jair e Jairo foram ver televisão.
Na cozinha Neide comentou:
- Acho que além de folgar finais de semana, quem vier poderia trabalhar até às cinco. Assim quando a gente chegar, vai continuar a ter a privacidade que estamos acostumados.
Berenice:
- É uma boa idéia. De oito da manhã até cinco da tarde mamãe fica com companhia. Você larga às cinco e logo chega em casa.
Dona Nora:
- Vocês estão falando como se eu fosse alguma inválida. Tô acostumada a fazer as coisas sozinha dentro de casa.
Neide:
- Não é isso mãe. É que nesse tempo que a Berenice ficou em casa, você acostumou a ficar acompanhada. Além dela, tinha o Júlio e a enfermeira. Agora você estranharia ficar sozinha de novo. O dia ia custar a passar, sem ter alguém pra bater um papo, acompanhar nas compras. É bom ter companhia.
- Isso é. E também se não der certo, dispensamos e pronto
- Vai dar certo. Vamos procurar uma pessoa de mais ou menos uns quarenta anos. Assim vocês vão ter assunto.
- Tá certo, vou tentar me acostumar.
E terminaram com o serviço e foram se juntar aos homens na sala.
Daí a algum tempo cada um foi se recolhendo.
No dia seguinte, Berenice foi na padaria comprar um pãozinho fresco para tomar café e encontrou com uma vizinha que tinha empregada em casa e falou:
- Bom dia, sabe, logo eu vou voltar a trabalhar e estamos procurando alguém prá ficar com a mamãe e ajudar no serviço da casa. Você conhece alguém?
- Não, mas posso falar com a Sirlene, que trabalha prá mim, quando ela chegar.
- Mas avisa a ela que estamos procurando uma pessoa na faixa dos quarenta anos. A mamãe não se acostumaria com uma mocinha. Se ela conseguir alguém nessa faixa, manda lá em casa. Nós queremos que ela se acostume antes de eu voltar a trabalhar.
- Pode deixar. Assim que ela chegar eu falo com ela. Mais velha então, ainda é mais fácil.
- Me faz esse favor. É pra trabalhar de Segunda a Sexta. Nos finais de semana estamos todos em casa e não tem necessidade.
- Vou falar com ela assim que ela chegar, pode deixar.
- Obrigada, tchau.
- Tchau.
Foi prá casa e começou a aguardar os outros para o café.
O dia correu sem novidades.
No dia seguinte era Sábado e logo cedo bateram no portão. Dona Nora foi atender e uma mocinha junto com uma outra pessoa mais madura, estavam lá.
Quando chegou perto reconheceu a empregada da vizinha.
- Bom dia, falou a mais nova. A patroa falou que vocês estão procurando alguém pra trabalhar aqui.
- Sim, isso é idéia dos filhos. Quando a minha filha se acidentou há quase um ano ficou em casa e ainda não voltou a trabalhar, mas logo vai voltar e eles estão achando que eu não vou me acostumar a ficar sozinha de novo.
- Sempre é bom ter com quem conversar e dividir as tarefas. Eu trouxe aqui a minha mãe pra conversar com a senhora. Os antigos patrões se aposentaram e saíram do Rio, foram pro interior e ela está custando a encontrar outra colocação. Sabe como é, depois dos trinta acham que as pessoas não servem mais prá trabalhar.
- Não é o meu caso. Eu prefiro uma pessoa de mais idade. Mas entrem e vamos conversar lá dentro.
A menina falou:
- Vai você mãe. Eu tenho que trabalhar. Quando sair passa lá pra me dizer se vocês se acertaram.
- Tá bom, eu passo lá.
Entraram e Berenice veio prá conhecer a senhora. Simpatizou logo com ela.
Dona Nora perguntou:
- Você tá acostumada a trabalhar em casa de família?
- Sim desde adolescente que eu trabalho. Eu tenho carta de recomendação dos últimos patrões. Trabalhei por doze anos na casa deles.
- Deve sentir muita falta deles, acostumada há tanto tempo
- Sinto, eles queriam que eu fosse com eles, mas eu tenho família, minha filha mais nova vai fazer quinze anos ainda. Eu não tinha como largar tudo aqui e ir junto.
- Você é casada?
- Sou viúva. Meu marido morreu novo ainda. A menor ia fazer quatro anos na época. Não foi fácil, mas a patroa deixava eu levar ela pro trabalho e ela ia comigo, não podia deixar uma criança pequena em casa.
- Quantos filhos você tem?
- Duas meninas. Essa que me trouxe e a mais nova. Mas com quase quinze anos, ela já pode ficar sozinha em casa. Estuda de manhã e é muito ajuizada.
- O trabalho aqui não é muito e nem pesado, a comida sou eu que faço. Os meninos está acostumados a manter a ordem nos seus quartos, é pra ajudar a manter e me fazer companhia.
- Eles podem deixar os quartos pra eu arrumar. Assim terão mais tempo prá eles mesmos.
- Aí, cada um que vai decidir.
Berenice entrou na conversa:
- Nós queremos alguém que trabalhe de Segunda a Sexta, das oito às cinco. Final de semana estamos todos em casa e não precisa vir.
- Prá mim está ótimo. E quanto a senhora?
Dona Nora respondeu:
- Vamos tentar, te espero na Segunda as oito.
- Muito obrigada. Vou passar lá no serviço da minha filha pra falar com ela. Então até Segunda.
- Até.
Quando ela se foi Dona Nora lembrou:
- Esquecemos de perguntar o nome dela.
- Segunda-feira pergunta. Tem muito tempo pra isso. Eu simpatizei com ela.
- Eu também. Coitada, ficou viúva nova e com duas meninas prá criar, não é fácil.
- Mas, pelo visto, ela tirou de letra. As meninas agora estão criadas, a mais velha já trabalha prá ajudar, cada um passa o que tem que passar.
- Cadê o pessoal.
- Cada um foi pro seu quarto, arrumar e papai está no quintal de trás.
E seguiram a rotina.
A tarde Júlio veio buscar Berenice e saíram para pegar um cinema.
A Segunda chegou e quando faltava cinco minutos para as oito a empregada bateu no portão pronta prá trabalhar.
Berenice foi abrir e se prontificou a mostrar a casa e dizer como gostavam das coisas. De repente lembrou:
- Esquecemos de perguntar o seu nome.
- Me chamo Dirce.
- Eu sou Berenice a minha mãe Nora.
- Tenho certeza que vamos nos dar bem. A sua mãe falou em acidente, o que aconteceu
- Foi o ônibus que bateu na volta do trabalho prá casa, mas Graças a Deus, já passou. Fiquei quase um ano sem andar. Tive diversas fraturas na coluna. Pensei até que não ia conseguir.
- Quando vai recomeçar no trabalho!
- Ainda tenho que passar numa perícia e conseguir alta, mas acredito que seja logo.
- Prá quem tá acostumada a trabalhar, ficar em casa é h******l. Eu fiquei só dois meses e pareceram dois anos. Só o salário da minha filha prá fazer toda a despesa, tava difícil. Ainda bem que não pago aluguel. A casa era do meu marido.
- É, aluguel come com a gente. Quando pagamos um já começou a contar o outro mês. Não é fácil.
Seu marido morreu de quê?
- Foi assalto. Acho que reagiu.
- Cada um age de uma maneira, mas reagir a assalto não é inteligente. O melhor é entregar tudo e correr atrás de novo. Não tem dinheiro que pague a vida.
- Também acho. Deve ter agido por impulso, ser pensar.
- Vamos prá cozinha ver o que a mamãe quer que se faça.
Quando chegaram na cozinha, Dirce falou:
- Dona Nora, o que a senhora quer que eu faça? A casa está toda limpa e arrumada.
- Eu não falei que cada um cuida das suas coisas? Agora têm que se acostumar a deixar prá você fazer. Me ajuda aqui na cozinha mesmo.
E as três batendo papo se entregaram ao preparo do almoço.
Quando ficou pronto, Dirce perguntou se não tinha roupa prá passar.
Dona Nora falou que tinha alguma no cesto e foi mostrar prá ela. Deixou ela na área de serviço que era mais fresco e voltou para a cozinha. Comentou com Berenice:
- Gostei dela. Não gosta de ficar parada, está o tempo todo procurando alguma coisa pra fazer.
- Com o tempo tudo se ajeita e vocês vão ter tempo prá sentar um pouco a tarde.
- É, vou voltar a ver meus programas.
Logo depois, Dirce veio avisar que tinha acabado com a roupa e Berenice foi ajudar a separar e mostrar aonde guardava cada coisa.
Quando terminaram, almoçaram e colocaram a cozinha em ordem. Era cedo ainda. Resolveram ver um pouco de televisão até dar a hora de começar a preparar o jantar.
Quando deu quatro horas, voltaram para a cozinha e tudo ficou pronto rapidamente. Dona Nora dispensou Dirce para que fosse se preparar para ir embora. Ela se espantou:
- Ainda não são cinco horas.
- Enquanto a Berenice ainda estiver em casa, não tem necessidade de ser tão rígida com o horário. Quando ela voltar a trabalhar, você fica até às cinco. Pode ir se arrumar.
- Tá bom.
- Você trouxe a tua carteira de trabalho?
- Não.
- Traz amanhã pro Jair assinar.
- Não precisa ter pressa. Pode fazer uma experiência antes. Um tempo prá vê se vai dar certo.
Berenice falou:
- Experiência se coloca na carteira.
Aqui gostamos de fazer as coisas de acordo com a lei. E eu estou certa que tudo vai dar certo.
- Tá bom. Amanhã eu trago. Vou me arrumar então.
E foi para a área aonde tinha deixado suas coisas. Estava muito feliz. Tinha gostado muito da maneira que tinha sido tratada.
Voltou na cozinha para se despedir e Berenice foi com ela até o portão.
Depois que Dirce se foi, Berenice comentou:
- Acho que vai dar certo.
- Por isso eu pedi uma pessoa de mais idade. São mais responsáveis.
- A patroa da Milena, filha da Dirce, também está satisfeita com ela e a Milena é nova. Acho que tem uns dezoito anos.
- É uma excessão. E ela trabalha Sábado.
- A maioria das domésticas trabalham. Umas têm folga de quinze em quinze dias, fora as que tem que dormir no emprego.
- Isso é exploração. Quase e********o. Você reparou que na hora do almoço, ela ia comer encostada na pia?
- Nem todo mundo trata uma empregada como gente. Tem casa que até faz comida diferente pra elas.
- Cruz credo!
E foram pra sala sentar um pouco em frente a televisão. Ainda não era hora de começar a fritar os bifes do jantar.
Berenice comentou:
- Acho que amanhã vou ligar pro INSS para marcar a perícia. Como eu quero alta, vai ser rápido.
- Não é melhor esperar mais uns dias?
- Tô sentindo falta do trabalho e agora você já tem companhia.
- É, gostei dela. Como será que o marido dela morreu?
- Reagiu a um assalto.
- Coitada, então foi de repente.
- Foi. Ele morreu na hora.
- Coitada.
- Já faz mais de dez anos. Ela já superou.
- Não tem outro jeito. Tem as filhas prá criar.
- Vamos prestar atenção no programa.
- Vamos.
Ficaram ali até Neide chegar. Quando chegou contaram que estavam satisfeitas com a Dirce, muito educada e procurava preencher o tempo com alguma coisa prá fazer. Que ela havia dito pra eles deixarem os quartos pra ela arrumar.
Neide falou:
- Eu só faço a cama antes de sair. O resto eu faço no Sábado.
- Então ela vai passar a limpar os quartos na Sexta. Assim no Sábado vocês vão poder descansar mais um pouco.
- Pode ser. Vou tomar meu banho.
- Ela passou a roupa que tinha pra passar e a Berenice ajudou ela a guardar.
- Ah! Isso se ela fizer eu vou gostar, não gosto de passar roupa ainda mais nesse calor.
- Depois vou estipular um dia da semana prá isso.
- Tá bom. Deixa eu ir pro banho. Daqui a pouco os outros começam a chegar.
Quando todos estavam em casa Dona Nora foi prá cozinha terminar o jantar.
Depois do jantar viram um pouco de televisão e cada um foi se retirando.
E assim, alguns dias depois Berenice voltou ao trabalho, continuava seu namoro com Júlio, enfim sua vida tinha retornado aos eixos.
Todos estavam satisfeitos.