Maria
Capítulo 1
Para sempre dela por Veronica Fox
Visão de Sadie
Ele estava sentado na minha frente, sua bebida na mão, mexendo e encarando-a contente. Ele deu um grande gole e a colocou no balcão. Vários cubos de gelo foram mexidos enquanto o líquido dourado escorria pela lateral do copo. Seu corpo estava coberto de tatuagens em sua camisa escura, seus olhos fitando os meus, o que fez com que meu fôlego falhasse. Eles eram azuis elétricos, e estavam se aproximando. O sorriso em seu rosto apenas me deixava saber que ele era amigável, mesmo com um corpo intimidador. Seu rosto tinha algumas cicatrizes e o cabelo estava bagunçado para o lado. Ele estendeu a mão para que eu a pegasse, e quando deixei minha mão cair para tocá-la, fui despertada do meu sonho.
Algumas noites sonhava com ele. Já fazia um tempo desde que vi o homem sombrio, mas no meu momento de precisar de conforto, ele veio até mim enquanto eu dormia. Não sabia quem era esse homem; nunca o vi além dos meus sonhos, então tentava não pensar nele. No entanto, hoje me fez sentir que poderia encontrá-lo, e dizem que os sonhos muitas vezes são projeções da realidade.
Meus dedos dançaram junto ao caixão metálico n***o, segurando minha querida tia, Maria. Meu coração estava pesado, e o mesmo acontecia com todos na cidade; sabíamos que esse dia estava chegando. Foi um milagre que ela tenha chegado tão longe, mas seus amigos mais próximos sabiam que ela viveria um pouco mais, só por minha causa.
Maria teve um terrível episódio de depressão, algo que ela teve desde que eu a conheço. Ela sempre tinha uma graça em como fazia as coisas, sempre solene, graciosa, sempre calculando seus movimentos. Era como se Maria estivesse em câmera lenta. Ela assava suas tortas e sobremesas, e era aí que ela era mais feliz. Todos podiam provar um pouco de sua felicidade quando eu os levava ao restaurante local para vendê-los e ganhar um dinheiro extra.
Maria preparava lentamente suas massas de torta toda segunda-feira de manhã, para a semana. Ela amassava com as próprias mãos, porque não podia pagar uma das batedeiras chiques. Ela cantarolava a mesma música, “Twinkle, twinkle little star”, enquanto trabalhava com suas mãos envelhecidas. Ouvi-la cantarolando seria música para os meus ouvidos; naquele momento, eu podia fingir que ela era realmente feliz.
Ela era muda durante todo o tempo que a conheci; nunca falou uma palavra. Ao invés disso, Maria pegava seu bloco de notas que carregava em seu avental e escrevia o que precisava dizer. A maioria das vezes, eu já sabia o que ela precisava ou estava pensando. Era como se tivéssemos criado uma linguagem secreta.
Maria olhava para a geladeira e pausava por alguns momentos, até que eu percebesse que ela precisava de algo. Geralmente ovos, sempre ovos. Outras vezes, quando eu chegava em casa depois de um péssimo dia na escola, era como se ela já soubesse. Maria pegava o chocolate quente, colocava na minha frente e batia suavemente na minha mão para me deixar saber que ela estava ouvindo.
Eu sentia um calor atrás de mim, erguendo-se sobre minha cabeça. — Sadie, como você está? — O senhor Dobson falou comigo com voz suave. Seus olhos ainda estavam vidrados no discurso fúnebre que eu tinha feito anteriormente. Como eu consegui fazer um discurso breve sobre a vida dela sem desabar em soluços? Eu nunca iria saber.
— Estou bem, senhor Dobson. — eu sorri para ele para deixá-lo saber que ficaria bem com o tempo. — Só estou demorando, sabe... para me despedir adequadamente. — Ele assentiu e colocou seu braço ao redor do meu ombro. O senhor Dobson me abraçou apertado pelos ombros e olhou para baixo, para mim, e eu não consegui encará-lo.
— Desculpe por apressá-la, querida, mas todos já se foram. Que tal passar a noite em nossa casa mais uma noite? Ficar naquela casa sozinha agora pode ser deprimente. — O senhor Dobson acariciava encorajadoramente minhas costas. A senhora Dobson caminhou lentamente até mim, pegou minha mão por trás e fez círculos nas costas dela.
— Eu não quero incomodar vocês, e sinceramente, estou bem para voltar agora. O senhor e a senhora Dobson sempre foram tão gentis comigo, e honestamente, não poderia pedir mais. — Tentei conter a ardência nos meus olhos, sabendo que meu coração começaria a se partir mais uma vez.
— Isso é bobagem, Sadie, nós te vimos crescer, você trabalhou em nosso restaurante, você é nada menos que uma filha para nós. — Sorri para a senhora Dobson. Mais uma noite não faria m*l ficar, supunha.
Beijei minhas pontas dos dedos e as coloquei no caixão, pegando uma das rosas escuras do caixão. Fui levá-la para casa e pressioná-la entre alguns livros para secar e colocá-la em um álbum de recordações para depois. Desde que Maria faleceu há uma semana, eu estava empacotando caixas com as coisas dela e as minhas.
Ambas vivíamos o mínimo possível. Não desejávamos a tecnologia mais recente, as roupas mais novas, nem mesmo decorávamos muito nossa casa. Eu sempre ia para a escola durante o dia e trabalhava no restaurante à noite desde que eu tinha apenas 11 anos. A companhia uma da outra era o suficiente. Eu amava estar com Maria, mas também sabia que ela estava perdendo algo em sua vida que a mantinha muito deprimida.
Não sabia toda a história de Maria, apenas pequenos boatos dos amigos locais da cidade. Mesmo assim, as informações eram limitadas. Diziam que Maria foi atacada por lobos nos arredores da cidade e seu então marido, durante um acampamento. Era algo que eles faziam todo fim de semana. Eles amavam a natureza, e as pessoas brincavam de que eles construiriam uma cabana e viveriam isolados nas florestas.
Ela passou três meses em coma para se recuperar de ferimentos na cabeça, arranhões e ossos quebrados. Suas cordas vocais foram rasgadas, causando danos permanentes. Ela tentou falar, e nada saía de seus lábios. As enfermeiras tiveram que acalmá-la e explicar o dano causado em sua voz. Os médicos disseram que, quando ela acordou, só queria seu querido marido, Jeremy. Quando o médico sentou-se e lhe contou o que aconteceu, ela perdeu o controle. Ninguém podia ouvir seus soluços enquanto ela ficava em silêncio, lágrimas enrolavam seu rosto. Havia até um rumor de que havia sangue em suas lágrimas, ansiando por seu amado marido.
Suspirei enquanto continuava a traçar meus dedos ao longo do caixão com meu dedo indicador. Maria foi a única família que eu já conheci. Como iria seguir em frente e encontrar uma vida para mim mesma? Nem mesmo sabia quem eu era. Passei a maior parte da minha vida trabalhando depois da escola para ajudar a pagar as contas e cuidar dela. Ninguém queria levar uma criança de 11 anos a sério, exceto o senhor e a senhora Dobson.
A família Dobson me levou para o restaurante local e me ensinou tudo o que eu sabia. Eu era garçonete, arrumadeira, lavadora de louças, padeira, cozinheira, entre outros. Eu era tão grata a eles, e eles podiam me ensinar coisas que eu sabia que minha tia Maria não poderia. Depois que fiz 11 anos, sua depressão afetou seriamente seu corpo.
Ela tinha dificuldade em apenas viver. Eu oficialmente me tornei sua guardiã aos 18 anos, quando me formei no ensino médio. Eu trabalhava no restaurante durante os horários de café da manhã, almoço e jantar, e às vezes até tarde da noite. Entre esses horários, eu corria para casa para garantir que ela estivesse alimentada, vestida e limpa. A cada dia que passava, eu a encontrava assando suas tortas, se perdendo lentamente no mesmo padrão monótono.
Muitas pessoas na cidade comentavam como eu era a única coisa que a fazia querer viver; eu lhe dava esperança em tempos de escuridão, já que o marido dela se foi. Ela tinha um amor tão profundo que estava prestes a desistir da vida, até que eu apareci em sua porta. Agora que eu era adulta, uma vez que ela percebeu que eu poderia me cuidar, ela desistiu.
Sempre sorria quando a via. Ela tentaria corresponder, mas à medida que os dias viravam semanas, um mês, um ano, ela não conseguia mais sorrir de volta. Ficava perdida em seu próprio mundo. Lágrimas silenciosas invadiam seu rosto enquanto ela segurava uma foto dela e de Jeremy no dia do casamento deles.
A senhora Dobson puxava minha mão, me levava para a casa deles e me conduzia até o andar de cima. Ela me deu um beijo rápido no rosto arruinado e caminhou até a porta. O breve sorriso em seus lábios me tranquilizou de que tudo ficaria bem. Eu sabia que era verdade. No meu coração, eu sabia que ela estava com Jeremy, e eles estavam juntos novamente.
Naquele momento, decidi que não podia mais chorar. Deveria ter lágrimas de alegria por ela. Ela estava onde ansiava estar. Nos braços de seu Jeremy. Maria queria isso há muito tempo.
Será que eu queria um amor tão profundo? Gostaria de ter uma alma gêmea para amar e cuidar? E se um dia eles não estivessem mais aqui, assim como Maria? Ficar sozinha na terra para seguir em frente, mas parte de sua alma morreu, na realidade? Você ainda seria uma pessoa nesse ponto?
Maria costumava me mostrar fotos dela e de Jeremy. Ela sorria e ria silenciosamente enquanto eu apenas a observava admirada. Ela estava relembrando os bons momentos, eu gostaria de poder ouvir essas histórias. Sim, eu gostaria de ter algo assim. Ter alguém para amar. Os olhos de Maria sempre brilhavam quando eu dizia o nome dele, e eu realmente queria encontrar algo assim.
Ela uma vez me escreveu em um papel:
"Sadie, encontre seu amor, o único. Ele lhe dará borboletas no estômago, e seu toque incendiará sua alma. Vocês dois serão atraídos um pelo outro, e somente então, perceberão o que estavam perdendo. Eu faria tudo de novo."
Esperava apenas amar tão profundamente um dia, mesmo que isso me assustasse. Ela nunca olhou para outro homem e apenas pensou nele.
Sempre acreditei em almas gêmeas, naquela pessoa perfeita feita para você. Maria me ensinou isso desde o primeiro dia. Se fosse tudo o que eu aprendi com as inúmeras lições de vida de Maria, acredito que seria feliz.
Sempre fui boba por romances e tinha uma boa coleção de livros. Tinha meus favoritos, e um deles era onde ambos sabiam que deveriam ficar juntos. A inibição que eles tinham, a inclinação em que suas almas lutavam para se encontrar para que seus corpos pudessem se tornar um só.
Suspirei enquanto olhava pela janela. O sol havia se posto e as estrelas estavam aparecendo no céu. Eu me perguntava se minha alma gêmea estava lá fora e me procurando. Sabia que não estive procurando porque estava cuidando de Maria, talvez fosse hora de empacotar minhas coisas e encontrar algum lugar novo. Sabia que minha alma gêmea não estava nesta cidade. Era pequena, e todo mundo conhecia todo mundo.
Virei para o meu lado, coloquei meu braço embaixo do travesseiro e adormeci, sonhando onde talvez eu pudesse encontrar minha alma gêmea um dia, talvez ele pudesse ser o homem dos meus sonhos.