capítulo 4

594 Words
Capítulo 4: A Próxima Peça do Tabuleiro POV: Ares Eu deixei a porta do meu escritório aberta de propósito. Não por gentileza. Por crueldade. Queria que ela ouvisse o barulho da fechadura eletrônica do andar trancando. Queria que ela entendesse que aberta ou fechada, aquela porta não significava liberdade. Significava que eu permitia que ela ficasse ali. Fiquei observando pela câmera do meu celular enquanto descia pro térreo. Elena Vance, 24 anos, 1,68m, loira natural. Tava encolhida no mesmo lugar onde eu deixei, abraçada nos próprios joelhos, encostada na coluna de mármore da sala de reuniões do 40º andar. Ela não sentou na cadeira de couro de 20 mil reais. Não tocou no café que a secretária deixou. Ela tava tentando ficar invisível de novo. Como no arquivo morto. Só que agora não tinha prateleira pra se esconder. Viktor já me esperava no subsolo, com o motor do blindado ligado. — Ela tá no 40? — ele perguntou, quando entrei no carro. — Tá. E vai ficar lá. — Travei o celular. — Ninguém sobe. Ninguém leva comida, água, nada, sem eu mandar. Quero que ela sinta o peso de ficar sozinha num andar inteiro que é meu. Se ela tentar descer pelas escadas, me avisa. Não encosta nela. Só me avisa. Viktor me olhou pelo retrovisor. Ele trabalha comigo desde que eu tinha 17 anos. Ele já viu eu mandar quebrar perna, já viu eu mandar queimar galpão. Mas ele nunca me viu trancar uma garota do arquivo morto no andar da presidência. Ele não perguntou por quê. Esse é o motivo dele ainda estar vivo. O carro cortou a chuva até o porto. Galpão 3. Grigori e os russos. Dinheiro, rota, ameaça, aquele teatro todo que eu faço há 10 anos. Mas pela primeira vez em 10 anos, eu fiz o teatro no piloto automático. Porque a cada 30 segundos, eu abria a câmera do 40º andar. 00:47 - Ela levantou. Andou até a janela. Olhou pra rua lá embaixo. Colocou a mão no vidro. 01:12 - Ela tentou abrir a porta de emergência da escada. Trancada, como eu mandei. Chutou a porta de raiva. Pela primeira vez, vi raiva, não só medo. 01:33 - Ela voltou pra coluna e chorou. De verdade. Sem fazer barulho. Só o ombro tremendo. Aquilo me deu uma pontada esquisita no peito. Não era t***o. Era pior. Era vontade de subir de volta e fazer ela parar de chorar. Nem que fosse me odiando, mas olhando pra mim. Quando voltei pro prédio, já passava das 2 da manhã. O prédio estava escuro. Só o 40º aceso. Subi direto. Sem Viktor. Abri a porta da sala de reuniões. Ela dormiu. Encolhida no chão frio, abraçada na própria bolsa velha, com o cabelo loiro espalhado no mármore. Ela tava tremendo de frio. Eu tirei meu paletó de 15 mil reais e, por um segundo, pensei em jogar por cima dela. Não joguei. Em vez disso, me agachei do lado dela, bem perto, e sussurrei no ouvido dela pra ela acordar assustada: Ares: Você ronca dormindo, boneca. Que falta de classe pra alguém que dorme na minha gaiola. Ela acordou em pânico, se arrastando pra longe de mim no chão. E eu sorri. Porque o espetáculo tava só começando. --- ✨ NOTA DA AUTORA Gente, eu tô amando escrever essa fase da gaiola, porque é aqui que a Elena vai parar de ser só a menininha assustada e vai começar a mostrar as garras. Vocês acham que ela devia ter aceitado o paletó ou cuspido na cara dele? KKKKK
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