Capítulo 29
Elena
O silêncio do escritório de Ares era sufocante.
A pasta com os comprovantes de pagamento do hospital da minha mãe continuava ali, como uma prova irrefutável de que as amarras da minha vida antiga haviam sido cortadas uma por uma.
Eu estava encostada na mesa de mogno, assistindo Ares caminhar até o mini bar no canto da sala.
O terno perfeito, a postura impecável e a serenidade fria dele tornavam impossível adivinhar que, horas atrás, ele estava lidando com o homem que permitiu a invasão deste apartamento.
— Você acha que comprar a minha liberdade me faz sua?
— perguntei, a voz rasgando o silêncio.
Ares serviu duas doses de uísque.
Ele virou-se devagar, segurando um dos copos, e caminhou na minha direção com passos lentos e calculados.
Ele não ofereceu a bebida; apenas parou a poucos centímetros de mim, o calor do seu corpo envolvendo o meu espaço.
— Eu não comprei sua liberdade, Elena. Eu comprei a sua paz
— ele disse, o tom de voz calmo, quase didático, mas com uma densidade que fez minha pele arrepiar.
— Lá fora, você era uma presa. Trabalhando até a exaustão para pagar a dívida de um hospital que nem se importava se sua mãe sobreviveria ou não.
Aqui dentro, ninguém encosta em você.
— Porque *você* é quem decide o que acontece comigo!
— rebati, encarando-o.
— Você matou homens por minha causa. E hoje à noite... você vai para a guerra de novo, não vai?
Ares deu um gole no uísque, os olhos cinzentos fixos nos meus, devorando cada expressão do meu rosto.
— Os remanescentes do grupo de Grigori se reuniram no porto
— ele revelou, sem se dar ao trabalho de esconder.
— Se eu não acabar com eles hoje, amanhã eles enviarão outro mercenário.
E da próxima vez, eu posso não chegar a tempo.
A ideia de outro homem invadindo o quarto, ou pior, a imagem de Ares caindo em uma emboscada no porto, fez meu estômago dar um nó violento. Uma onda de pânico genuíno invadiu meu peito, e a percepção do que eu estava sentindo me aterrorizou ainda mais do que o próprio perigo.
Eu não estava apenas com medo dos russos. Eu estava com medo de perder *ele*.
Minha mão subiu involuntariamente, tocando a manga da camisa dele. Os dedos trêmulos apertaram o tecido macio.
— Não vai
— o pedido escapou da minha boca antes que meu orgulho pudesse segurar
— Mande os seus homens.
Deixe o Viktor ir.
Se você for...
Ares congelou.
Ele olhou para a minha mão em seu braço e depois subiu o olhar para os meus olhos.
Por uma fração de segundo, a máscara do líder implacável da família Vanderbilt caiu, dando lugar a uma surpresa crua e sombria.
— Você está preocupada comigo, boneca?
— ele sussurrou, a voz caindo uma oitava, tornando-se perigosamente aveludada.
— Eu odeio você
— menti, o queixo tremendo enquanto me esforçava para sustentar o olhar dele.
— Eu odeio o que você fez comigo. Mas eu... eu não quero ver você morto.
Ares
*Eu odeio você.*
As palavras saíram da boca dela, mas o toque trêmulo das suas mãos no meu braço e o pavor estampado naqueles olhos azuis diziam exatamente o oposto.
Elena Vance estava se apaixonando pelo seu captor, e o desespero de perceber isso a estava destruindo por dentro.
E a p***a da minha alma, que eu achava enterrada há anos, queimou com essa constatação.
Deixei o copo de uísque sobre a mesa atrás de mim com um estalo seco. Segurei a cintura dela com as duas mãos e a ergui na borda da mesa, colando seu corpo ao meu.
Elena arfou, o peito subindo e descendo descontroladamente enquanto suas mãos subiram para meus ombros para não perder o equilíbrio.
— Olhe para mim
— ordenei, aproximando meu rosto do dela até nossas respirações se misturarem.
— Se eu ficar nesta casa hoje à noite, os ratos vão continuar rondando as nossas portas.
Eu vou ao porto porque é lá que eu coloco um fim definitivo nisso.
— Ares, por favor...
— ela murmurou, a voz embargada por lágrimas contidas.
— Eu volto, Elena.
Eu sempre volto para o que é meu
— declarei, apertando sua cintura com força possessiva.
— E quando eu cruzar aquela porta de madrugada, a máfia russa será apenas uma lembrança.
E você não terá mais nenhuma desculpa para fingir que não me quer na sua cama.
Inclinei a cabeça e tomei seus lábios em um beijo feroz, faminto, despejando toda a promessa de violência e devoção que eu carregava no peito.
Elena não recuou. Desta vez, suas mãos se cravaram no meu cabelo loiro, puxando-me para mais perto, entregando-se ao beijo com uma paixão desesperada que quase me fez perder o controle e esquecer o mundo lá fora.
Quando me afastei, ela estava ofegante, com os lábios vermelhos e os olhos brilhando.
— Espere por mim
— murmurei contra sua bochecha.
Soltei-a devagar, peguei o paletó sobre a cadeira e saí do escritório sem olhar para trás. Se antes eu ia para o porto por negócios e territorialismo, agora eu ia por algo muito mais perigoso: eu ia para exterminar qualquer um que se colocasse entre mim e a mulher que finalmente havia dobrado os meus joelhos.
A guerra final no porto se aproxima para fechar o cerco contra os russos de uma vez por todas!