As Marcas do Silêncio

1173 Words
O mar estava calmo demais. Por dias, as ondas se arrastaram preguiçosas pela costa de Velmora, como se o oceano estivesse em luto. Os pescadores voltaram a lançar suas redes, mas os peixes pareciam ter desaparecido. As gaivotas, antes barulhentas, agora voavam em círculos silenciosos. E à noite, o vento soprava sem direção, como se tivesse perdido o caminho. Lysandra sentia tudo isso. Desde que tocara a mão de Alaric, algo dentro dela havia mudado. Não era visível, não havia feridas, nem febre. Mas havia ecos. Vozes que sussurravam em seus sonhos. Imagens que surgiam quando fechava os olhos: o convés do navio, o mar vermelho, a coroa de espinhos. Ela tentava ignorar. Cumpria seus deveres reais com a mesma postura firme de sempre. Mas os conselheiros notavam sua distração. O rei, embora silencioso, a observava com preocupação. E Veylan, o arquimago, começou a visitá-la com mais frequência. — Você trouxe algo de volta — disse ele certa noite, enquanto observavam a lua refletida na água da fonte do jardim. — Algo que não pertence a este mundo. Lysandra não respondeu. Seus dedos tocavam a superfície da água, e pequenas ondas se formavam, mesmo sem vento. — O que eu trouxe foi paz — disse ela, finalmente. — O mar está calmo. O povo está seguro. — Por enquanto — murmurou Veylan. — Mas o mar não esquece. E tampouco perdoa. Ela se levantou, os olhos fixos no horizonte. — Então que venha. Eu o enfrentei uma vez. Posso fazê-lo de novo. Mas naquela noite, ao dormir, o mar voltou. Desta vez, não havia Alaric. Havia apenas escuridão. E uma voz nova, mais antiga, mais profunda. Uma voz que não suplicava, ordenava. "A alma foi tomada. Mas o vínculo permanece. O toque selou o pacto. E agora, tu és a herdeira do lamento." Lysandra acordou com o peito ardendo. Correu até o espelho e viu, pela primeira vez, o que temia: seus olhos, antes azuis como o céu, agora tinham um anel escuro ao redor da íris, como se o mar tivesse deixado sua marca. Ela caiu de joelhos. — O que você fez comigo, Alaric? Mas o mar não respondeu. Na manhã seguinte, Veylan confirmou o que ela já sabia. — O toque selou o ciclo. Você interrompeu o lamento, mas ao tocá-lo... herdou o fardo. O mar agora canta por você. — E o que isso significa? — Que o silêncio não durará. E que, em breve, o mar pedirá algo em troca. -------- Naquela manhã, o mar devolveu algo. Os pescadores encontraram, entre as redes vazias, um objeto que não pertencia ao mundo dos vivos: uma rosa n***a, feita de sal cristalizado, com espinhos de prata corroídos pela maresia. Ela flutuava sobre as águas como uma oferenda, ou um aviso. A notícia chegou ao castelo antes do meio-dia. Lysandra segurou a rosa com mãos trêmulas. Ao tocá-la, sentiu um arrepio subir por sua espinha, como se dedos invisíveis percorressem sua pele. A flor pulsava com uma energia fria, e em seu centro havia uma gota de água, imóvel, suspensa, como uma lágrima congelada no tempo. — Ele ainda está aqui — sussurrou. Veylan analisou a rosa com olhos cautelosos. — Não é dele. Não diretamente. Isso é magia antiga. Pré-marinha. Algo que dormia nas profundezas e despertou com o pacto de Alaric... e com o seu toque. Lysandra sentiu o peso daquelas palavras. O lamento havia cessado, mas o eco permanecia. E agora, algo mais escutava. Algo que não conhecia amor, nem dor, apenas fome. ----- Naquela noite, ela sonhou com o fundo do mar. Não havia luz. Apenas formas colossais movendo-se na escuridão. Tentáculos que se arrastavam por ruínas esquecidas. Olhos que se abriam lentamente, como se despertassem de um sono milenar. E no centro de tudo, uma voz — não humana, não viva — que sussurrava: "A herdeira do lamento... deve descer." Lysandra acordou com o corpo encharcado de suor e os lençóis úmidos de água salgada. O chão de seu quarto estava coberto por pequenas conchas negras, como se o mar tivesse invadido seus sonhos e deixado lembranças físicas. Ela não podia mais negar. O mar a havia escolhido. E agora, queria algo em troca. Na manhã seguinte, o céu amanheceu coberto por uma névoa espessa, como se o próprio sol hesitasse em tocar Velmora. Os sinos da catedral não soaram. Os pássaros não cantaram. E o mar, embora calmo, parecia... atento. Lysandra caminhava pelos corredores do castelo com passos silenciosos. Seus vestidos, antes vibrantes, agora eram tons de cinza e azul profundo. As damas da corte cochichavam sobre sua palidez, sobre os olhos que pareciam mais escuros a cada dia. Mas ninguém ousava confrontá-la. Havia algo nela que inspirava reverência, e medo. No salão do trono, o rei a esperava. — Filha — disse ele, com voz grave —, os portos estão vazios. Os navios não partem. Os mercadores temem que o mar os engula. Dizem que você... trouxe algo de volta. Lysandra manteve o olhar firme. — Trouxe a verdade. Trouxe o silêncio. Mas o silêncio tem um preço. O rei se levantou, os punhos cerrados. — E qual é esse preço? Ela hesitou. Como explicar o que nem ela compreendia por completo? Como descrever o peso de carregar um eco do abismo dentro do peito? — O mar me escolheu. E agora, algo antigo desperta. Algo que talvez nem Alaric conhecesse. O rei se aproximou, mais pai do que monarca. — Então devemos protegê-la. Isolar você. Encontrar uma cura. Lysandra sorriu, triste. — Não há cura para o que fui feita. Só há caminho. E ele me leva de volta ao mar. Naquela noite, ela retornou à biblioteca secreta. Vasculhou os tomos esquecidos, os mapas das rotas proibidas, os diários de navegadores que jamais voltaram. Em um pergaminho quase ilegível, encontrou o nome de uma ilha: Thal’Zar, a Boca do Abismo. Segundo os registros, era um recife submerso, visível apenas durante as marés de sangue, quando o mar se tingia de vermelho sob a lua cheia. Diziam que ali dormia uma entidade antiga, anterior aos deuses, que se alimentava de promessas quebradas e amores condenados. Lysandra sabia. Era para lá que o mar a chamava. Ela enrolou o mapa com cuidado e o escondeu sob o manto. Ao sair da biblioteca, encontrou Veylan à sua espera. — Você vai partir — disse ele, sem rodeios. — Sim. — E sabe que talvez não volte. — Sei. O mago assentiu. — Então leve isto. Ele entregou-lhe um anel de prata com uma pedra azul-escura no centro. Ao tocá-lo, Lysandra sentiu o mar estremecer. — É um selo de contenção. Se o que habita Thal’Zar tentar tomar você... este anel pode atrasá-lo. Mas não o deterá para sempre. Ela o colocou no dedo. — Não preciso de sempre. Só de tempo suficiente para entender o que sou agora. E naquela madrugada, sob a névoa e o silêncio, Lysandra partiu. Sozinha. Rumo à Boca do Abismo. Rumo ao fim — ou ao renascimento — do lamento.
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