Capítulo 1 — Almoço de domingo
Na casa do meu avô, o almoço de domingo começava ao meio-dia em ponto. Não ao meio-dia e cinco. Não "mais ou menos meio-dia". Meio-dia. Porque o Vô Otávio acreditava que pontualidade era caráter, e caráter era a única coisa que ele não conseguia comprar dos outros, então exigia.
Eu cheguei às 11h58, com o cabelo preso do jeito que minha mãe gosta, o vestido azul que minha mãe escolheu e a cara que eu treinei no espelho a vida inteira: a de quem está ótima.
— Anna, você engordou? — foi o "oi" da minha mãe.
— Oi, mãe. Também senti saudade.
Ela não riu. Minha mãe nunca ri das minhas piadas, só das piadas sobre mim.
— Esse vestido ficava melhor na loja — ela disse, ajeitando a alça no meu ombro como quem arruma um móvel torto. — Mas tudo bem. Ninguém vai reparar em você hoje. A Isabela vem com o noivo.
A Isabela era minha prima. Vinte e quatro anos, noiva de um cirurgião, magra de um jeito que minha mãe chamava de "elegante" e eu chamava de "com fome". Toda conversa da minha mãe sobre mim começava ou terminava na Isabela.
— E sorri pro Henrique hoje — ela completou. — Da última vez ele achou você seca.
O Henrique era meu noivo. Quer dizer, era o que todo mundo chamava de meu noivo. Filho do sócio do meu avô, trinta e um anos, dentes clareados, opinião sobre tudo e curiosidade sobre nada. Nunca teve pedido. Teve um jantar entre os dois patriarcas, um aperto de mão e, uma semana depois, uma caixinha de veludo em cima do meu prato.
O anel era lindo. Eu nunca disse sim. Só nunca disse não.
A mesa estava posta como capa de revista de decoração. Toalha de linho, porcelana que veio da Europa com a bisavó, as taças de cristal que ninguém podia lavar na máquina. Tudo lindo. Tudo no lugar. A casa inteira parecia dizer "aqui é uma família perfeita", e eu sempre achei engraçado como uma casa consegue mentir melhor do que as pessoas que moram nela.
Meu pai já estava no terceiro copo de uísque. Eu sei que era o terceiro porque conheço o som. O primeiro é silencioso. O segundo tem gelo batendo. O terceiro vem com a risada alta demais.
— Minha princesa! — ele abriu os braços, e o bafo chegou antes do abraço.
— Oi, pai.
— Você viu que sua filha virou executiva, Letícia? Executiva! — ele bateu na mesa. — Semana passada ela fechou aquele contrato dos fornecedores sozinha. Sozinha!
— Fechou porque o seu pai deixou — minha mãe respondeu, arrumando o guardanapo no colo. — Ninguém fecha nada naquela empresa sem o Otávio deixar. E, convenhamos, com aquele sobrenome no crachá, o fornecedor assinaria até se ela pedisse em latim.
E ali estava. Dois minutos de almoço e eu já tinha sido gorda, incompetente e propriedade do meu avô. Recorde pessoal? Não. O recorde era de um Natal, quarenta segundos.
Meu avô se sentou na cabeceira, e a mesa inteira endireitou as costas. Não é força de expressão. Eu vi minha tia literalmente endireitar as costas.
Minha avó se sentou ao lado dele e sorriu pro prato. A Vó Helena sorria pro prato havia cinquenta anos.
O Henrique puxou a cadeira do meu lado, beijou meu rosto sem encostar e comentou que a carne estava no ponto certo antes de provar.
— Vamos agradecer — ele disse.
A gente agradeceu. Eu agradeci também, de verdade, em silêncio, por uma coisa que ninguém naquela mesa sabia: fazia seis dias que eu carregava um segredo no bolso, e ele queimava.
Deixa eu explicar quem eu era naquela época, pra ninguém achar que eu era uma coitadinha.
Eu tinha vinte e seis anos, trabalhava no setor comercial da empresa do meu avô e fazia Administração à noite, porque "alguém da família precisa entender de números". Eu entendia de números. Entendia bem demais, inclusive. Eu era boa no que fazia. Negociava com fornecedor marrento, desmontava planilha mentirosa em dez minutos e já tinha feito um gerente de cinquenta anos pedir desculpa em reunião.
Eu não era sonsa. Eu era treinada. É diferente.
Sonsa é quem não percebe. Eu percebia tudo.
Quem cresce numa casa assim aprende a medir a febre do lugar antes de tirar o casaco. Eu entrava pela porta e, em três segundos, já sabia. Pelo barulho das chaves do meu pai no aparador, se ele tinha jogado ou colocado. Pelo salto da minha mãe no piso, se ela estava andando ou marchando. Pela porta do escritório do meu avô, se estava encostada ou fechada. Encostada, dava pra respirar. Fechada, alguém ia pagar por alguma coisa, e quase sempre era eu.
Eu percebia o olhar da minha mãe descendo pelo meu corpo, o copo do meu pai enchendo, o jeito como meu avô falava "minha neta" como quem fala "meu carro". Eu nunca desligava. Nem dormindo. Até hoje eu sento de frente pra porta em qualquer restaurante.
Eu percebia e engolia, porque engolir era o que mantinha a paz. E a paz, naquela casa, era um animal frágil que todo mundo alimentava com pedaços de si mesmo.
Eu tinha dado muitos pedaços meus.
O primeiro foi a música.
Eu cantava desde que me conheço por gente. No chuveiro, no carro, no coral da escola, nas festas de família, até o dia em que cantei numa festa de família de verdade, com microfone, e meu avô me chamou no escritório depois.
Eu tinha quinze anos. Ele não levantou a voz. Ele nunca levantava. Só disse, olhando por cima dos óculos:
— Cantar em público é coisa de vagabunda, Anna. Você é uma Albuquerque.
E voltou a ler o jornal.
Eu nunca mais cantei na frente dele. Nem de ninguém. Minha voz foi morar no chuveiro, e depois nem lá.
O segundo pedaço foi a faculdade. Eu queria Artes. Queria museu, queria quadro, queria passar a vida estudando por que um borrão de tinta pode fazer uma pessoa chorar. Meu avô disse que arte era hobby de rico desocupado e que, se eu quisesse ser rica e desocupada, que fosse pelo menos depois de saber administrar o dinheiro.
Então eu fiz ADM. E, escondida, fiz todos os cursos livres de História da Arte que encontrei. Online, de madrugada, pagos com o meu salário. Li tudo. Escrevi ensaios que ninguém leu. E, seis meses antes daquele almoço, numa noite em que meu pai quebrou uma garrafa na cozinha e minha mãe disse que a culpa era minha por "provocar ele", eu me inscrevi num programa de um ano em Nova York.
Estudos de Curadoria e História da Arte. Whitmore Institute. Bolsa parcial.
Eu não contei pra ninguém. Só pra Mariana.
— E a faculdade, Anna? — meu avô perguntou, cortando a carne. — Formatura em dezembro, certo?
— Certo, vô.
— Ótimo. Em janeiro você assume a gerência comercial. Já conversei com o Paulo.
Ele disse isso do jeito que se fala da previsão do tempo. Não era uma proposta. Era o meu futuro sendo servido no prato, junto com a carne, sem ninguém perguntar se eu estava com fome.
— Parabéns, filha! — meu pai levantou o copo. — Gerente! Aos vinte e seis!
— Com o sobrenome dela, até eu seria gerente — minha mãe disse.
— Não é pelo sobrenome, Letícia. — Meu avô nem levantou os olhos do prato. — É porque ela obedece. Talento a gente contrata em qualquer esquina. Gente que obedece sem precisar ser mandada duas vezes, isso é raro.
Ele disse como elogio. Minha mãe sorriu como se fosse. E eu mastiguei a carne bem devagar, porque era isso ou gritar.
— Ao contrário de outros — ele completou, e olhou pro copo do meu pai.
Meu pai fingiu que não ouviu. Ele era ótimo nisso. Trinta anos de treino.
Meu celular vibrou em cima da mesa.
Eu devia ter virado a tela pra baixo. Eu sempre virava a tela pra baixo. Mas naquele dia eu estava esperando aquele e-mail havia seis dias, e meu corpo foi mais rápido que a minha prudência.
Whitmore Institute — Congratulations, Anna!
Eu li a palavra "congratulations" e parei de respirar.
— O que é isso? — minha mãe esticou o pescoço. Ela tinha um radar pra qualquer coisa que me fizesse feliz.
— Nada.
— Nada não faz você ficar dessa cor. Me dá.
Ela não esperou. Pegou o celular da minha mão como pegava tudo, meu diário aos doze anos, meu primeiro namorado aos dezessete, minha vontade aos vinte e seis. Leu. Riu. A risada que ela nunca dava pras minhas piadas.
— Otávio, a sua neta foi aceita num cursinho de arte em Nova York.
A mesa ficou em silêncio. Até meu pai abaixou o copo.
— Não é cursinho — eu disse. — É um programa de um ano. Com bolsa.
— Bolsa? — minha mãe riu de novo. — Você precisa de bolsa? Que vergonha. O que as pessoas vão pensar? Que a gente não pode pagar?
— Eu não pedi dinheiro pra ninguém.
— Ainda. — Ela me devolveu o celular com dois dedos, como se estivesse sujo. — Você não dura um mês, Anna. Você não dura uma semana sem alguém arrumando a sua cama. E com esse corpo, em Nova York, no meio daquelas mulheres? Vão rir de você na rua. Eu estou te poupando.
Meu avô limpou a boca com o guardanapo de linho. Devagar. Dobrou. Colocou ao lado do prato. Cada movimento era uma frase.
— Arte — ele disse, como quem prova um vinho estragado. — Arte é o que gente fraca faz quando não aguenta o mundo de verdade. Seu pai também quis ser alguma coisa, Anna. Músico, lembra, Ricardo? — Meu pai encarou o copo. — Olha no que deu.
Ninguém respirou.
— Você vai pra lá e volta com o quê? Um diploma que não paga um aluguel, uma tatuagem e um namorado sem sobrenome. Enquanto o Henrique espera aqui feito um palhaço. — Ele pegou o garfo de novo. — Você não vai.
Três palavras. Nem alto, nem baixo. No tom exato de quem nunca ouviu um "não" na vida.
E foi aí que aconteceu uma coisa estranha.
Eu esperei o medo. Aquele gelo no estômago, aquela vontade de pedir desculpa por existir. Eu conhecia esse medo como conhecia o som do terceiro copo. Mas ele não veio.
O que veio foi uma calma. Uma calma esquisita, fria, limpa. A mesma que eu sentia nas reuniões quando o fornecedor tentava me passar a perna e eu já sabia exatamente onde estava o erro da planilha dele.
— Eu vou, vô.
Minha tia derrubou o garfo.
A Vó Helena começou a chorar. Sem barulho. Ela tinha aprendido a chorar sem barulho muito antes de eu nascer.
— Helena, pelo amor de Deus — meu avô disse, sem olhar pra ela.
E ela parou. Assim. Como quem fecha uma torneira.
O Henrique pousou a mão no meu pulso, por cima da mesa, com aquele sorriso de quem acalma cachorro.
— Amor, a gente conversa sobre isso depois. Em casa.
— A gente não tem casa, Henrique.
Ele tirou a mão.
— Anna — minha mãe sibilou —, peça desculpas ao seu avô.
— Pelo quê? Por ter passado?
— Você vai jogar fora a gerência? A empresa? Tudo que o seu avô construiu pra você?
— Ele não construiu nada pra mim, mãe. Ele construiu pra ele. Eu só fui colocada dentro.
Meu pai começou a rir. Aquela risada alta, torta, do terceiro copo.
— Olha a minha filha! Olha que marra! Puxou a mim!
— Cala a boca, Ricardo — minha mãe disse, e foi a única coisa dela com que eu concordei naquele dia.
Meu avô continuou me olhando por cima dos óculos. O mesmo olhar do escritório, onze anos antes.
— Se você sair por aquela porta pra ir brincar de arte em Nova York, Anna, não conte com um centavo desta família.
Eu sorri. Não sei de onde veio o sorriso, mas veio.
— Eu nunca contei, vô. É por isso que eu vou.