Acordei antes do despertador tocar. O céu ainda estava escuro, aquele tom indefinido entre madrugada e manhã que sempre me fazia lembrar dos primeiros dias no seminário, quando eu acordava sem saber exatamente quem eu seria naquele mundo. Fiquei alguns minutos deitado, olhando para o teto do quarto, ouvindo apenas o silêncio da casa e minha própria respiração. Ângela. O nome veio antes mesmo de qualquer oração. A conversa da noite anterior voltou inteira, como um filme sem pausa. O vestido elegante demais. A explicação rápida. O jeito como ela desviou o olhar por um segundo a mais do que o normal. A lembrança da fala do porteiro ecoando na minha cabeça como algo que não queria se calar. “Ela sempre sai à noite. Sempre bem arrumada.” Por quê? Por que alguém mentiria sobre algo aparen

