Eu sigo dirigindo. O motor ronca baixo agora, como se também estivesse cansado depois de tudo. Minhas mãos ainda tremem no volante, os dedos rígidos, doendo de tanto apertar. O suor escorre pela minha nuca, frio, nada a ver com o calor da noite. O coração ainda bate descompassado, forte demais, como se quisesse pular pra fora do peito. No banco de trás, o silêncio é pesado. Ela continua desacordada. O corpo jogado de lado, o cabelo espalhado, respiração fraca, irregular. Cada vez que olho pelo retrovisor interno, sinto um aperto estranho no estômago. Um misto de culpa, medo e urgência. Eu não planejei nada daquilo. Nada. Foi tudo rápido demais. Um segundo de descuido, uma sombra cruzando a rua… e depois o impacto. Fecho os olhos por um instante, só um instante, e a cena volta inteira.

