A Filha da Lua

847 Words
O silêncio não durou muito. Porque a alcateia… não esquece. Nem ignora. Nem espera. — Então é agora? — uma voz feminina ecoou do outro lado do pátio. Todos se afastaram levemente. Não por medo. Por respeito. Elara virou o rosto — e sentiu algo mudar no ar antes mesmo de entender o porquê. A mulher que se aproximava era mais velha. Mas não fraca. Muito pelo contrário. Havia algo nela… antigo. Profundo. Como a própria lua. Seus cabelos prateados caíam soltos sobre os ombros, e seus olhos — completamente claros — pousaram diretamente em Elara. E não desviaram. Aiden ficou rígido ao lado dela. — Anciã — disse ele, em tom respeitoso. Então era isso. Elara engoliu em seco. A anciã parou a poucos passos dela. Silêncio absoluto ao redor. — Então… — a voz dela era suave, mas carregava peso — você finalmente apareceu. Elara franziu levemente a testa. — Eu não sabia que estava sendo esperada. Um leve brilho surgiu no olhar da anciã. — Oh, criança… — ela sorriu de forma quase melancólica — você sempre esteve. O coração de Elara deu um salto. O vínculo reagiu. Mas dessa vez… não era com Aiden. Era outra coisa. Mais ampla. Mais profunda. Como se a própria terra estivesse ouvindo. A anciã deu mais um passo. — Posso? — perguntou, erguendo a mão. Elara hesitou. Mas assentiu. Quando os dedos da anciã tocaram sua testa— O mundo parou. Luz. Prata. Frio e calor ao mesmo tempo. E então— Imagens. Uma lua gigantesca. Um círculo de lobos. E no centro… Ela. Mas diferente. Mais forte. Mais… inteira. Elara puxou o ar bruscamente quando o toque foi quebrado. Cambaleou um passo para trás. Aiden segurou seu braço imediatamente. — Elara. — Eu… — ela levou a mão à cabeça — o que foi isso? A anciã a observava com uma intensidade quase reverente agora. E então disse, em voz clara: — Filha da Lua. O pátio inteiro congelou. Literalmente. Ninguém respirava. Rowan soltou um “o quê” quase inaudível. Elara piscou. — Isso não faz sentido. — Faz — disse a anciã com calma. — Você carrega o chamado antigo. O vínculo não é comum… porque você não é. Elara olhou para Aiden. Procurando algo. Explicação. Negação. Qualquer coisa. Mas o que encontrou foi… aceitação. E algo mais. Orgulho. — Isso muda tudo — murmurou Rowan. — Não — disse Aiden, firme. — Só confirma. A anciã assentiu levemente. — O poder dela ainda está adormecido. Mas não por muito tempo. Elara sentiu o estômago apertar. — Poder? — Você vai sentir — disse a anciã. — E quando sentir… não poderá ignorar. Silêncio. Pesado. Inevitável. Elara respirou fundo. Uma vez. Duas. E então ergueu o queixo. — Então eu preciso estar pronta. A anciã sorriu. — Exatamente. Ela se afastou. — Comecem o treino. --- O pátio mudou de energia imediatamente. Agora não era só curiosidade. Era expectativa real. Pressão. Rowan estalou o pescoço. — Certo, “Filha da Lua”… vamos ver o que você consegue fazer. Elara revirou os olhos. — Não me chama assim. — Ainda — ele respondeu com um meio sorriso. Aiden se afastou alguns passos. Mas não muito. Nunca muito. Os olhos dele estavam nela o tempo todo. Atentos. Calculando. Sentindo. — Postura — disse Rowan, já entrando em posição. — Você está muito aberta. Elara imitou o que lembrava. Não era perfeito. Nem perto. — Assim? — Não. — ele se aproximou e ajustou seus braços — Se continuar assim, vai ser derrubada em dois segundos. — Ótimo incentivo. — Realista. Ela soltou o ar. — Certo. Vamos. Rowan não esperou. Ele avançou. Rápido. Elara tentou reagir— Mas era tarde. Ele a derrubou no chão em um movimento limpo. O impacto tirou o ar dela. — Muito lenta — disse ele, oferecendo a mão. Ela ignorou a mão. Se levantou sozinha. — De novo. Rowan sorriu de lado. — Gostei disso. Eles recomeçaram. E de novo. E de novo. E de novo. Cada queda doía. Cada erro ficava mais claro. Mas algo começou a mudar. Pequeno. Sutil. No quarto ataque— Ela sentiu antes. Não viu. Sentiu. O movimento dele. A intenção. Como um eco no ar. E dessa vez— Ela desviou. Rowan parou imediatamente. — Espera. Elara também congelou. — Eu… fiz isso? Do outro lado, Aiden não se mexeu. Mas seus olhos escureceram. Intensos. — De novo — disse ele. A voz mais baixa. Mais controlada. Rowan atacou outra vez. Mais rápido. Mais forte. E Elara— Sentiu. Virou o corpo. Bloqueou. Instintivo. Perfeito demais para ser aprendido em minutos. O pátio explodiu em murmúrios. Rowan deu um passo para trás, surpreso de verdade agora. — Ok… isso não é normal. Elara olhou para as próprias mãos. O coração disparado. — Eu não sei o que estou fazendo. — Eu sei — disse Aiden. Ela ergueu o olhar para ele. E o vínculo puxou. Forte. Quase inegável. — Você está começando. E pela primeira vez… Havia algo perigoso no sorriso dele.
Free reading for new users
Scan code to download app
Facebookexpand_more
  • author-avatar
    Writer
  • chap_listContents
  • likeADD