O silêncio não durou muito.
Porque a alcateia… não esquece.
Nem ignora.
Nem espera.
— Então é agora? — uma voz feminina ecoou do outro lado do pátio.
Todos se afastaram levemente.
Não por medo.
Por respeito.
Elara virou o rosto — e sentiu algo mudar no ar antes mesmo de entender o porquê.
A mulher que se aproximava era mais velha.
Mas não fraca.
Muito pelo contrário.
Havia algo nela… antigo.
Profundo.
Como a própria lua.
Seus cabelos prateados caíam soltos sobre os ombros, e seus olhos — completamente claros — pousaram diretamente em Elara.
E não desviaram.
Aiden ficou rígido ao lado dela.
— Anciã — disse ele, em tom respeitoso.
Então era isso.
Elara engoliu em seco.
A anciã parou a poucos passos dela.
Silêncio absoluto ao redor.
— Então… — a voz dela era suave, mas carregava peso — você finalmente apareceu.
Elara franziu levemente a testa.
— Eu não sabia que estava sendo esperada.
Um leve brilho surgiu no olhar da anciã.
— Oh, criança… — ela sorriu de forma quase melancólica — você sempre esteve.
O coração de Elara deu um salto.
O vínculo reagiu.
Mas dessa vez… não era com Aiden.
Era outra coisa.
Mais ampla.
Mais profunda.
Como se a própria terra estivesse ouvindo.
A anciã deu mais um passo.
— Posso? — perguntou, erguendo a mão.
Elara hesitou.
Mas assentiu.
Quando os dedos da anciã tocaram sua testa—
O mundo parou.
Luz.
Prata.
Frio e calor ao mesmo tempo.
E então—
Imagens.
Uma lua gigantesca.
Um círculo de lobos.
E no centro…
Ela.
Mas diferente.
Mais forte.
Mais… inteira.
Elara puxou o ar bruscamente quando o toque foi quebrado.
Cambaleou um passo para trás.
Aiden segurou seu braço imediatamente.
— Elara.
— Eu… — ela levou a mão à cabeça — o que foi isso?
A anciã a observava com uma intensidade quase reverente agora.
E então disse, em voz clara:
— Filha da Lua.
O pátio inteiro congelou.
Literalmente.
Ninguém respirava.
Rowan soltou um “o quê” quase inaudível.
Elara piscou.
— Isso não faz sentido.
— Faz — disse a anciã com calma. — Você carrega o chamado antigo. O vínculo não é comum… porque você não é.
Elara olhou para Aiden.
Procurando algo.
Explicação.
Negação.
Qualquer coisa.
Mas o que encontrou foi… aceitação.
E algo mais.
Orgulho.
— Isso muda tudo — murmurou Rowan.
— Não — disse Aiden, firme. — Só confirma.
A anciã assentiu levemente.
— O poder dela ainda está adormecido. Mas não por muito tempo.
Elara sentiu o estômago apertar.
— Poder?
— Você vai sentir — disse a anciã. — E quando sentir… não poderá ignorar.
Silêncio.
Pesado.
Inevitável.
Elara respirou fundo.
Uma vez.
Duas.
E então ergueu o queixo.
— Então eu preciso estar pronta.
A anciã sorriu.
— Exatamente.
Ela se afastou.
— Comecem o treino.
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O pátio mudou de energia imediatamente.
Agora não era só curiosidade.
Era expectativa real.
Pressão.
Rowan estalou o pescoço.
— Certo, “Filha da Lua”… vamos ver o que você consegue fazer.
Elara revirou os olhos.
— Não me chama assim.
— Ainda — ele respondeu com um meio sorriso.
Aiden se afastou alguns passos.
Mas não muito.
Nunca muito.
Os olhos dele estavam nela o tempo todo.
Atentos.
Calculando.
Sentindo.
— Postura — disse Rowan, já entrando em posição. — Você está muito aberta.
Elara imitou o que lembrava.
Não era perfeito.
Nem perto.
— Assim?
— Não. — ele se aproximou e ajustou seus braços — Se continuar assim, vai ser derrubada em dois segundos.
— Ótimo incentivo.
— Realista.
Ela soltou o ar.
— Certo. Vamos.
Rowan não esperou.
Ele avançou.
Rápido.
Elara tentou reagir—
Mas era tarde.
Ele a derrubou no chão em um movimento limpo.
O impacto tirou o ar dela.
— Muito lenta — disse ele, oferecendo a mão.
Ela ignorou a mão.
Se levantou sozinha.
— De novo.
Rowan sorriu de lado.
— Gostei disso.
Eles recomeçaram.
E de novo.
E de novo.
E de novo.
Cada queda doía.
Cada erro ficava mais claro.
Mas algo começou a mudar.
Pequeno.
Sutil.
No quarto ataque—
Ela sentiu antes.
Não viu.
Sentiu.
O movimento dele.
A intenção.
Como um eco no ar.
E dessa vez—
Ela desviou.
Rowan parou imediatamente.
— Espera.
Elara também congelou.
— Eu… fiz isso?
Do outro lado, Aiden não se mexeu.
Mas seus olhos escureceram.
Intensos.
— De novo — disse ele.
A voz mais baixa.
Mais controlada.
Rowan atacou outra vez.
Mais rápido.
Mais forte.
E Elara—
Sentiu.
Virou o corpo.
Bloqueou.
Instintivo.
Perfeito demais para ser aprendido em minutos.
O pátio explodiu em murmúrios.
Rowan deu um passo para trás, surpreso de verdade agora.
— Ok… isso não é normal.
Elara olhou para as próprias mãos.
O coração disparado.
— Eu não sei o que estou fazendo.
— Eu sei — disse Aiden.
Ela ergueu o olhar para ele.
E o vínculo puxou.
Forte.
Quase inegável.
— Você está começando.
E pela primeira vez…
Havia algo perigoso no sorriso dele.