Capítulo 01: A Dívida
Lívia
A vida, para mim, sempre foi uma tela pintada em tons de champanhe e diamante. Morávamos em uma cobertura que mais parecia um palácio de cristal no Leblon. Minhas preocupações diárias se resumiam a escolher o par de sapatos mais adequado para o almoço no Country Club e decidir qual ilha do Caribe seria o destino das férias de inverno. Eu era a "patricinha".
A palavra que me caía como uma luva de seda, confortável e inquestionavelmente cara. Eu tinha vinte e dois anos, estava matriculada em Direito, mas só frequentei o campus o suficiente para garantir que minha presença social fosse notada. Meu pai, Arthur, era a âncora discreta e onipresente de tudo isso, o empresário de sucesso que financiava nosso conto de fadas.
Naquela manhã específica de junho, o sol entrava na sala de estar, filtrado por cortinas de linho puro, e eu estava lendo uma revista de moda enquanto esperava meu motorista para me levar a um brunch. O silêncio era tão sólido quanto o mármore italiano sob meus pés, até que ele foi quebrado por um grito seco vindo do escritório de meu pai.
— Você não entende a gravidade, Vicente! Não tenho como pagar esse valor em trinta dias!
A voz do meu pai era rouca, trêmula, irreconhecível. Meu pai nunca gritava. Ele gesticulava, debatia, mas nunca perdia o controle da voz como se estivesse à beira de um precipício. Larguei a revista. A curiosidade mórbida, algo inédito na minha rotina entediante, puxou-me para a porta de mogno.
Ele estava de costas para mim, o terno impecável amassado, o cabelo grisalho que ele sempre mantinha perfeitamente penteado, agora desgrenhado pelos dedos que ele passava incessantemente. Na mesa, um tablet exibia uma planilha vermelha e, ao lado, um envelope pardo, grosso, que parecia sujo, apesar de nunca ter sido aberto.
— Vinte e cinco milhões. Em trinta dias. — ele sibilou para o telefone, e o nome "Vicente" ecoou em minha mente. Eu o conhecia. Vicente era um dos sócios mais recentes e mais sombrios de Arthur, alguém que meu pai sempre dizia ser "necessário, mas desagradável".
Fui para o meu quarto, fingindo não ter ouvido, mas a paz tinha se desfeito como vidro estilhaçado. Vinte e cinco milhões. A princípio, o número parecia abstrato, como a cotação de ações que eu não entendia. Mas a maneira como meu pai falava... era terror puro. O tipo de terror que não se resolve com uma transferência bancária.
Passei o dia em um estado de dormência. No final da tarde, ao voltar para casa, encontrei o apartamento estranhamente silencioso. Chamei por Arthur, mas não houve resposta. Foi então que vi.
Em cima da mesa de centro, havia uma carta manuscrita. A letra de meu pai, sempre elegante e firme, estava tremida, as palavras escorridas como se tivessem sido escritas em desespero.
Lívia, minha querida Lívia.
Quando você ler isto, estarei longe. Eu estraguei tudo. Não foi apenas a imobiliária. Os 'negócios obscuros', como você os chamaria, se tornaram reais e incontroláveis. Eu me envolvi com pessoas que não aceitam calotes, Lívia. A dívida é real, e ela é mais do que monetária.
Eu fugi. Por você. Para garantir que eles não peguem você. Mas há uma coisa que você precisa fazer. A única coisa que pode mantê-la segura e, talvez, quitar uma parte desse inferno. O envelope pardo. Ele contém o contrato. Você precisa ir ao endereço que está nele. É o único caminho. Não confie em ninguém. Não procure a polícia. Apenas vá. Me perdoe.
Seu pai, Arthur.
O envelope pardo. Eu o peguei. Era pesado, a textura áspera sob meus dedos. A primeira coisa que senti não foi tristeza pela ausência dele, mas uma náusea gelada de incredulidade. Meu pai, o pilar inabalável da minha vida, fugiu. Deixou-me sozinha com o "inferno". O conto de fadas tinha acabado, transformado em um thriller policial de quinta categoria.
Abri o envelope com as mãos tremendo. Dentro, havia um documento grosso, com cláusulas legais em linguagem fria e c***l. O título, em letras graúdas, era "Acordo de Cessão de Garantia". No rodapé, o valor: R$ 25.000.000,00. E, chocante, uma linha rabiscada por meu pai, indicando o que ele havia dado como garantia em troca de um prazo: a mim. Não explicitamente, mas o contrato falava sobre um "compromisso matrimonial" com o credor, a título de "compensação e liquidação parcial do passivo". Meu nome estava ali, Lívia de Moraes, como uma mercadoria em uma transação de alto risco. O nome do credor era M.M. da Silva. Não havia endereço. Apenas um nome. E um prazo para comparecimento: Amanhã.
Tudo aconteceu em um piscar de olhos. A mansão no Leblon já não era minha; era deles. Minhas roupas de grife eram apenas cascas vazias de uma vida que não existia mais. No dia seguinte, cheguei ao endereço marcado: um escritório modesto, de fachada simples, no centro da cidade. Eu esperava encontrar um advogado de terno cinza, frio e implacável.
Em vez disso, encontrei um homem. Alto, de pele morena e olhos de um castanho tão escuro que parecia preto. Ele não usava terno; vestia uma camiseta simples, tatuagens marcadas por uma musculatura que parecia ter sido esculpida em pedra, e uma calça cargo. Ele exalava perigo, uma aura de autoridade silenciosa que fazia o ar vibrar.
Ele m*l me olhou. Estava assinando uns papéis quando cheguei.
— Você é Lívia de Moraes? — A voz dele era grave, como um trovão distante.
— Sou. — consegui responder, a voz falhando.
Ele levantou os olhos, e aquele olhar me varreu de cima a baixo, sem interesse, mas com uma posse implícita que me fez sentir nua.
— Eu sou Max. O Dono da Rocinha. — ele disse, ajeitando um anel de prata maciça no dedo. — Seu pai me deve. E você é o pagamento. Esqueça o Leblon, Lívia. Sua vida muda agora. Você é minha garantia.
A realidade me atingiu com a força de um soco no estômago. Eu estava ali, a patricinha, de frente para a encarnação dos negócios obscuros de meu pai. Em menos de vinte e quatro horas, a garota que se preocupava com esmaltes se tornou a refém de um credor, entregue como pagamento por uma dívida milionária. A vida não mudou; ela implodiu. E eu m*l tive tempo de respirar antes de ser jogada nos escombros.
Eu era uma dívida. E a única coisa que eu entendia naquele momento era o medo cortante e a certeza de que os champanhes e diamantes tinham morrido na fuga covarde de meu pai. Estava a refém, precisaria aprender a sobreviver em um mundo onde a riqueza não era uma proteção, mas sim um alvo. Meu inferno estava apenas começando.