Kieran
Minha mãe, que estava parada na porta, ouvindo tudo, se aproximou. Meu pai se calou, respirando pesado, e saiu da sala sem olhar para trás.
Ela ficou. Ela sempre fica quando percebe que os filhos precisam de orientação, não p************s.
— Olha pra mim, Kieran — ela pediu.
Eu levantei o rosto. Os olhos dela estavam cheios de preocupação, mas também de algo que meu pai parece ter esquecido no meio do caminho… curiosidade. Vontade de entender.
— O que você quer fazer da sua vida? — ela perguntou, simples.
Eu sorri. Um sorriso que vinha do lugar que, naquele dia, tinha se encontrado às margens de um lago.
— Primeiro, eu vou comprar uma moto — respondi. — Depois, vou pesquisar um terreno afastado da cidade.
Ela arqueou as sobrancelhas.
— Um terreno afastado da cidade?
— Eu fugi da empresa hoje — confessei. — Andei, andei, andei, até parar num lugar cheio de árvores, com um lago enorme. Nunca tinha sentido tanta paz. Aquele lugar é perfeito para criar um resort. Não um hotel gigantesco com mil quartos grudados. Um lugar com bangalôs separados, cada um com privacidade, contato com a natureza. Gente que quer fugir do mundo, como eu fugi hoje.
Enquanto eu falava, via a cena na minha cabeça. Bangalôs com alguns metros de distância entre si, nada de paredes finas onde você ouve a tosse do vizinho. Um quarto aconchegante, uma pequena sala, um banheiro confortável. Varandas com vista para o lago. Caminhos de pedra entre árvores. Um restaurante para as refeições, lugares para atividades, ou jogos.
— Eu quero um resort que me dê o suficiente para viver bem — continuei. — Não preciso ser bilionário. Só quero ter minha renda fazendo algo que não me enlouqueça, vivendo perto da natureza. Eu quero acordar, abrir a janela e ver o lago, a chuva caindo na água, e saber que aquele pedacinho de mundo é meu.
Minha mãe me olhou por alguns segundos que pareceram uma eternidade. Então, ela sorriu. O sorriso da minha mãe ilumina o dia de qualquer um.
— Então é isso que você vai fazer — disse, com firmeza.
Eu pisquei, confuso.
— Mãe, a senhora concorda?
— Eu vou te dar o terreno — ela anunciou. — E o resort. Como presente. Além disso, vou antecipar para você a parte da herança que me cabe e que seria sua de qualquer forma. Use esse dinheiro para construir esse lugar do jeito que você imaginou. Seja feliz, Kieran. Faça o que gosta. O que seu pai falou foi da boca pra fora, você sabe. Ele estava com raiva. E, no fim das contas, nós ainda temos o Kaius para cuidar da empresa.
O nome do meu irmão mais novo trouxe uma mistura de alívio e culpa. Kaius sempre foi o mais disciplinado, o mais calmo, o mais adequado à vida que meu pai sonhou. Se alguém nasceu com genética para Ceo, foi ele.
— Você tem certeza? — perguntei, ainda sem acreditar.
— Tenho — ela respondeu. — Você não é menos meu filho porque não quer usar terno. Você não precisa carregar o mundo nas costas para ser digno de amor.
Eu não chorei ali, mas confesso que foi por pouco.
Eu tinha vinte e sete anos quando saí da mansão Maldini com uma moto, um terreno, um projeto na cabeça e uma mãe que me abraçou forte na porta e sussurrou:
— “Vai. Antes que você mude de ideia”.
Meu pai não se despediu naquele dia.
Hoje, com trinta e nove, eu acordo quase todas as manhãs ouvindo o som da água do lago batendo de leve na margem e o farfalhar das árvores ao redor do meu bangalô.
O resort existe há onze anos. Não é uma rede gigantesca, não tem filiais pelo mundo. É um único lugar, grande o suficiente para ser confortável, pequeno o suficiente para eu saber o rosto de quase todos que passam por aqui.
Os bangalôs ficam afastados uns dos outros, cinco ou seis metros de distância, no mínimo. Nada de paredes compartilhadas. Cada um tem um quarto aconchegante, uma pequena sala, um banheiro espaçoso. Alguns têm vista para o lago, outros para a mata. Todos têm a mesma coisa que eu fui procurar naquele dia: privacidade.
O meu bangalô é o último, o mais longe de todos, quase colado no lago. Do meu quarto, eu vejo a água pela janela. Nos dias chuvosos, que são meus preferidos, eu fico encostado no batente, uma caneca quente na mão, assistindo as gotas caírem e desenharem círculos na superfície.
O garoto que quase enlouqueceu num escritório hoje vive num lugar onde não precisa usar sapato se não quiser.
A vida que eu tenho agora não é perfeita. Não sou bilionário como poderia ser se tivesse ficado na empresa, não apareço em capas de revista, não dou entrevistas sobre estratégias de expansão.
Mas ganho o suficiente para viver muito bem. O resort se paga, me sustenta, sustenta a equipe. Já recebi propostas para expandir, abrir uma segunda unidade, transformar isso em uma marca maior.
Eu recusei todas. Mais nem sempre é melhor. Às vezes, mais é só mais barulho.
A única coisa que falta aqui, nesse cenário que parece ter saído da minha própria cabeça, é alguém para dividir isso comigo. Um amor que não esteja interessado no sobrenome Maldini, no meu passado de herdeiro ou no dinheiro que eu poderia ter se tivesse seguido o caminho esperado.
Alguém que escolha esse Kieran, o homem de jeans, camiseta, moto na garagem e terra na sola do pé. O que ama o cheiro de chuva e o silêncio cheio de vida da natureza.
Eu já corri atrás do amor antes, em outra época, com outra cabeça. Hoje, eu decidi que não vou mais perseguir. Não vou procurar em aplicativos, não vou aceitar alguém só para preencher foto em porta-retratos. Se o amor quiser me achar, vai ter que me encontrar aqui, no meio das árvores, perto do lago.
Mas, se um dia ele aparecer na porta do meu bangalô, de cabelo bagunçado, olhar teimoso e sorriso que bagunça meu eixo, eu sei exatamente o que não vou fazer.
Eu não vou fugir.