Capítulo 7

966 Words
Polly Casamentos rendem boas fotos e péssimos comportamentos. Eu costumo dizer que, se você quer saber quem alguém é de verdade, observe essa pessoa em três situações… no trânsito, falando com um garçom e bêbada em festa de casamento. Funciona mais que teste de personalidade. Naquele sábado, pelo menos, a parte das fotos estava correndo perfeitamente bem. — Polly, pega esse ângulo aqui! — Marise grita tentando ser discreta, do outro lado do salão, apontando com o queixo na direção da pista de dança. Os noivos estão no meio de um abraço que parece comercial de perfume caro. Luzes coloridas, bolhas de sabão, convidados emocionados. Eu me aproximo com a câmera, já sabendo exatamente o que procurar: olhar, mão, detalhes. — Inclina um pouquinho o rosto pra ela — peço ao noivo, com um sorriso profissional. — Isso… agora olha pra ela como se fosse o último dia de vocês na Terra. Ele ri, obedece, e o clique captura exatamente o que eu queria. Mais uma lembrança perfeita para o álbum de “felizes para sempre”. Hayla está perto da mesa dos pais dos noivos, rodando ao redor deles como um satélite com câmera. Ela foi encarregada de registrar fotos que valorizem os quatro juntos, em ângulos que deixem todo mundo bonito, ou, pelo menos, menos crítico consigo mesmo. Thelma, que detesta formalidade, se jogou entre as crianças e adolescentes. Ela está de cócoras com um grupo de meninas, tirando fotos com bolhas de sabão, enquanto alguns meninos fazem caretas atrás. — Não esqueçam de focar nos detalhes da decoração também — chamo no grupo de áudio só para irritá-las. — Relaxa, chefe — Marise responde. — Já fiz close até da colher de sobremesa. Nós quatro trabalhamos juntas há tanto tempo que não precisamos mais explicar muito. Cada uma tem seu estilo, e é justamente isso que faz da nossa equipe algo tão procurado. As pessoas querem fotos perfeitas, espontâneas, emocionantes. Nós queremos pagar boletos em dia. Dá certo para todo mundo. Eu estou circulando pelo salão, capturando cenas aleatórias, a avó da noiva chorando baixinho, um padrinho dançando como se estivesse num clipe dos anos 80, um casal de tios dançando coladinho, quando sinto uma mão pousar na minha cintura. Aperto o botão errado e a foto sai tremida. — Você tem um olhar lindo atrás dessa câmera — uma voz masculina, perto demais do meu ouvido, comenta. Respiro fundo, viro devagar, já sabendo quem é. O irmão da noiva. Eu tinha conseguido desviar dele nas últimas duas horas. O problema é que homem insistente costuma ter radar para onde a mulher quer exatamente o contrário dele. — Eu estou trabalhando — respondo, tirando a mão dele da minha cintura com calma. — Preciso continuar. — Eu posso ser seu intervalo — ele sorri, aquele sorriso de quem acha que é irresistível só porque tem terno bem cortado e cabelo com gel. — A gente podia ir lá fora, tirar umas fotos mais… privadas. — Não — digo, simples. — Eu estou trabalhando. E mesmo que não estivesse, a resposta continuaria sendo não. Ele ri, como se eu tivesse contado uma piada ótima. — Você deve estar estressada, é isso — ele insiste, se inclinando de novo, tentando encostar o peito no meu braço. — Trabalha demais. Eu sou ótimo pra aliviar tensão. Que preguiça. — Olha… — suspiro. — Eu já pedi com calma. Não encosta em mim. Não fala comigo desse jeito. Não insiste. Não é não. Entendeu? Ele levanta as mãos, teatral. — Claro, claro. Desculpa. Não vou insistir. Eu me afasto, focando em um grupo de convidados, tirando algumas fotos rápidas com flash, mudando de lugar como se o salão fosse um tabuleiro de xadrez e eu precisasse desviar de uma peça irritante. Por alguns minutos, funciona. Até não funcionar mais. Sinto de novo a aproximação, o cheiro forte de bebida, a mão escorregando pela minha cintura, quase na parte de trás. — Eu disse que você ficaria mais bonita sorrindo pra mim — ele sussurra. Eu me afasto, giro o corpo e, desta vez, não suavizo o tom. — Tira a mão de mim — falo, seco. — Agora. Um casal que passa perto lança um olhar curioso, mas segue em frente, fingindo que não viu. Normal. As pessoas gostam de acreditar que nada está acontecendo de errado quando a música está alta e as luzes são bonitas. — Para de drama, gatinha — ele revira os olhos. — Tá todo mundo se divertindo. Eu só estou brincando. “Brincando”. A palavra me dá vontade de enfiar a câmera dentro da boca dele. Eu poderia ir até a noiva, estragar a noite dela com essa informação. Poderia arranjar uma briga, fazer escândalo. Mas eu conheço esse tipo de cara e sei como a narrativa vira rápido. — “Ela exagerou.” — “Ela entendeu errado.” — “Ele estava bêbado.” Não. Eu decido resolver do meu jeito. Me afasto, caminho para uma área mais vazia do salão, um corredor lateral que leva a uma porta de serviço. Ali não tem convidados, não tem música tão alta, não tem gente esbarrando. É quase um pequeno refúgio. Eu paro perto da parede, mexo na câmera, finjo estar revisando fotos. Conto mentalmente. Um. Dois. Três. E lá vem ele. — Achei você — a voz aparece atrás de mim, satisfeita, como um caçador que finalmente encontrou a presa. Ele se aproxima rápido, o corredor está vazio. O cenário perfeito para o que ele acha que vai acontecer. — Eu já falei que não quero — repito, sem paciência. — Último aviso. Ele ignora. Claro. Alguns babacas não entendem que “não” não é talvez. Mas esse aqui vai entender, por bem ou por m*l.
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