Polly
Quando os gêmeos nasceram, eu tinha dez anos, e, se eu tinha medo de perder espaço, esse medo morreu no primeiro dia em que vi meu pai trocar a fralda do Raniel e, logo depois, insistir para me levar ao cinema “só nós dois”. O amor dele nunca diminuiu, apenas aumentou de tamanho para caber mais dois.
— Eu sei que vocês querem me ver feliz — eu digo. — O problema é que o universo não recebeu o memorando. Meus relacionamentos anteriores foram tão bem-sucedidos quanto dieta em final de semana.
— Você ainda vai encontrar um homem que te mereça — minha mãe fala, com aquela fé irritantemente inabalável.
— Ou eu vou encontrar um banco de esperma — respondo.
Meu pai faz uma careta.
— Eu preferia um genro inteiro, não só o material genético dele.
Eu rio, mesmo sabendo que havia um fundo de verdade ali. Não que eu nunca tenha pensado seriamente no plano B, engravidar mesmo sem um relacionamento estável, construir minha família do meu jeito. Ter um filho comigo, com a minha cara, com a minha gargalhada. Eu quero isso. Eu sinto isso no corpo, não só na cabeça.
O problema é que, em algum ponto do caminho, eu comecei a acreditar que talvez eu não tenha nascido para ser amada por um homem. Todos os meus relacionamentos terminaram com algum tipo de traição. Alguns física, outros emocional. E, quando a estatística pessoal começa a ficar alta demais, a gente começa a se perguntar se o problema não é nós mesmas.
— Eu não preciso de um homem para ser mãe — falo, sem perceber que falei alto.
— Mas seria bom se você tivesse alguém para segurar a sua mão na hora que as coisas ficassem difíceis — minha mãe rebate, rápida. — Ser mãe é lindo, mas não é fácil.
Ela sabe do que fala. Ela passou pelos primeiros meses comigo praticamente sozinha, trabalhando, estudando, chorando no banheiro da lanchonete, até o meu pai aparecer e decidir ficar.
— Eu sei, mãe — eu suspiro. — Mas você mesma é prova de que homem nenhum vem com garantia. O meu pai biológico sumiu no mapa.
— E seu pai de verdade ficou — ela responde, simples, olhando para Kevin com aquele brilho nos olhos que, juro, poderia iluminar o bairro inteiro.
É disso que eu sinto falta, de olhar para alguém e saber que ele escolheu ficar. Não por conforto, não por conveniência. Por mim.
— A gente não está dizendo pra você sair aceitando qualquer traste só pra engravidar, Polly — meu pai intervém. — Só não fecha o coração achando que todo mundo é igual.
“Todo mundo é igual” é um exagero, eu sei. Mas a minha amostra pessoal é péssima, um que me traiu com a ex, outro que me trocou pela academia, um que dizia que eu era “intensa demais”, como se sentir muito fosse um defeito de fábrica.
Eu começo a andar pela varanda, o celular na mão, enquanto observo um táxi estacionar em frente ao nosso prédio.
— Eu não fechei o coração — minto, sem o menor pudor. — Só estou... deixando ele de castigo.
Minha mãe revira os olhos.
— Só promete que, se aparecer alguém bom, você não vai sabotar, tá?
Eu rio de novo, mas por dentro algo se contrai. Porque eu sei que, se aparecer alguém bom, a primeira coisa que vou fazer é procurar o defeito escondido. É automático, um mecanismo de defesa ridículo.
— Prometo tentar — respondo. — Agora eu preciso ir, tenho reunião com uma noiva daqui a pouco. Ela quer fotos “épicas, emocionantes e espontâneas”. Tradução… ela vai me mandar um PDF com referências de Pinterest.
— Tá bom, meu amor — minha mãe suspira. — Te amo.
— Te amamos, filha — meu pai completa.
— Também amo vocês — eu desligo e fico um segundo encarando meu próprio reflexo na tela preta.
Trinta anos. Uma carreira consolidada, um apartamento dos sonhos, amigas que são praticamente irmãs, uma família que me ama tanto que causa. No papel, parece que eu venci. Na prática, falta um pedaço que eu não sei onde encaixar.
— “Talvez eu não tenha nascido para ser de alguém” — penso, encostando o cotovelo no parapeito da varanda. — “Talvez a minha história seja feita de fotos perfeitas dos outros e de casos casuais que acabam antes mesmo da gente tirar uma selfie juntos.”
Mas, no fundo, bem escondido debaixo de todas as piadas que eu faço, existe uma esperança teimosa… engravidar antes dos quarenta, ter meu filho, construir uma família à minha maneira. Com um homem do meu lado ou não.