Capítulo 3

1023 Words
Kaius Se tem uma coisa que eu aprendi cedo demais é que, na família Maldini, sentimentos vêm depois dos resultados. Eu tinha vinte e cinco anos quando me sentei pela primeira vez nessa mesma cadeira de couro, de frente para a mesma janela que agora exibe Toronto em miniatura, cheia de prédios que parecem brinquedo de gente rica. Na época, meu pai me entregou a presidência da empresa com uma frase curta: — “Você é o mais preparado.” Ele não disse “o mais amado”, “o mais querido”, “o que eu confio mais”. Disse “preparado”. Entre eu e Kieran, meu irmão dois anos mais velho, não era para ser eu o Ceo, mas Kieran nunca fez questão de seguir o script que meu pai escreveu para ele. Sempre foi mais interessado em viver a própria vida do que em assinar relatórios. E, na Maldini, recusar um papel é o mesmo que oferecê-lo para alguém mais disposto. — Você não está prestando atenção, Kaius — a voz do meu pai atravessa meus pensamentos. Edwin Maldini está sentado na poltrona de frente para minha mesa, impecável no terno cinza, expressão séria, o tipo de homem que algumas pessoas chamam de “assustador” antes mesmo de ouvir uma palavra. Do lado dele, minha mãe, Calíope, é o oposto… vestido claro, sorriso fácil, olhar que parece um abraço. Água e vinho. Os dois se amam há mais de quarenta anos sem nunca terem aprendido a ser parecidos. — Eu estou ouvindo, pai — respondo, apoiando os cotovelos na mesa. — Vocês acham que eu preciso casar. Agora. De preferência ontem. Minha mãe suspira, como se eu tivesse acabado de resumir uma operação complexa em uma linha. — Não é só “achar”, meu filho — ela diz, com carinho, mas firme. — Você já tem trinta e sete anos. Você construiu um império, assumiu a empresa quando ainda era tão jovem, não nos deu um problema sequer… mas não tem ninguém para dividir sua vida. — A gente também está cansado dos comentários idiotas da família — meu pai completa, sem rodeios. — Cada Natal é a mesma coisa. “O Kaius é tão reservado, será que ele é gay?”, “Ele nunca aparece com mulher nenhuma, deve estar escondendo alguma coisa”. Eu já ouvi cada coisa que me dá vontade de expulsar metade dos Maldini do nosso próprio salão. Eu fecho os olhos por um segundo. Isso de novo. — Eu já disse que não sou gay — respondo, controlado. — E se fosse, não seria um problema, a não ser para os idiotas que fazem esse tipo de comentário. O fato de eu não ser casado e não aparecer todos os dias com uma mulher diferente não significa nada além de… seletividade. Meu pai bufa, impaciente. — Seletividade demais vira frescura, Kaius. Você é homem. Homem não resiste a uma mulher bonita, nua, na cama dele. Isso é instinto. Ele fala “homem” como se fosse um manual rígido, uma lista de características padronizadas. Força. Controle. Desejo simples. Eu respiro fundo e conto até três antes de responder. — Pai, comigo não funciona assim. Eu não consigo dormir com alguém se não estiver apaixonado. Eu não sinto t***o sem sentimento. Não é moralismo, não é pose, não é medo. É… físico. A minha cabeça não desliga se o meu coração não estiver envolvido. O silêncio que se instala na sala é denso. Meu pai me encara como se eu tivesse falado em outro idioma. Minha mãe, por outro lado, apenas me observa com um misto de orgulho e preocupação. — Isso é bobagem — ele solta por fim. — Homem aprende a gostar depois. Primeiro vem a atração, depois o resto. Você está invertendo a ordem. Eu sorrio de lado, cansado. — Talvez eu tenha nascido com os fios trocados, então. Porque, para mim, se o resto não vier primeiro, o corpo não acompanha. Meu pai abre a boca para retrucar, mas minha mãe toca levemente no braço dele. — Edwin — ela o repreende, suave. — Você exigiu que os filhos tivessem caráter, respeito e responsabilidade. Agora que um deles diz que não quer tratar ninguém como objeto, você reclama? Faça o favor. Ele respira fundo pelo nariz, como se estivesse prestes a discutir, mas se recosta na poltrona. — Eu não estou reclamando disso — ele corrige. — Eu estou reclamando do fato de que a família inteira questiona a masculinidade do meu filho por causa disso. Eu sei quem você é, Kaius. Mas eles… não sabem. E falam demais. — Eles falariam demais de qualquer jeito — digo. — Se eu aparecesse com uma nova namorada a cada mês, iam dizer que eu sou irresponsável. Se casasse cedo demais, diriam que fui precipitado. Nunca vai estar bom. — Eu não quero te forçar a nada — minha mãe se inclina um pouco para frente. — Mas você se esconde demais, meu amor. Você vive para essa empresa. A gente só te vê aqui, nessa sala, atrás dessa mesa. Quando tentamos te visitar no seu apartamento, você está sempre ocupado, viajando ou em reunião. Então nós viemos até você. Ela está certa. Eu vivo nessa sala. Às vezes tenho a impressão de que, se um dia acordar e a empresa não existir, eu vou ficar olhando para as próprias mãos sem saber o que fazer com elas. — Eu só não quero ver você sozinho para sempre — ela conclui, com a voz baixa. Essa frase me pega por um instante, em algum lugar entre o peito e o estômago. Porque, por mais que eu não admita em voz alta, há noites em que o silêncio do meu apartamento parece maior do que deveria. Em que eu olho para a cama arrumada demais e penso que seria bom ouvir outra respiração além da minha. Em que eu lembro de um par de olhos, um sorriso, uma voz, e o coração aperta por algo que eu não posso ter. Eu não posso ter.
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