Capítulo 12

1499 Words
Polly Quatro dias depois, meu celular toca de manhã cedo, enquanto eu ainda estou com cara amassada e cabelo em guerra com o travesseiro. Número desconhecido. Minha regra é simples, número que não está na agenda, eu não atendo. Quem me conhece manda mensagem ou sinal de fumaça antes. Mas, por algum motivo, a curiosidade cutuca. Eu deslizo o dedo e levo o celular à orelha. — Alô? — Polly? A voz atravessa o fio e desarma qualquer pose de indiferença que eu pretendia ter. Eu sei quem é antes mesmo de registrar o conteúdo. — Kaius? — escapa da minha boca. Do outro lado, ele ri, surpreso. — Como você sabe que sou eu? — pergunta. Eu me encosto na cabeceira da cama, mordendo um sorriso. — Sua voz é difícil de esquecer. Silêncio rápido, depois outro riso, um pouco mais baixo. — Fico lisonjeado — ele diz. — Eu… espero não estar ligando em horário r**m. — Depende — respondo. — Se você vai me oferecer um cartão de crédito ou tentar me vender plano de telefonia, péssimo horário. Se for outra coisa, talvez eu considere. — Nada de cartão, nem plano — ele garante. — Eu queria saber se você aceitaria jantar comigo no sábado. Meu coração faz um movimento estranho dentro do peito. Não é pulo. É mais um… passo pra frente. Eu penso em todas as desculpas que poderia dar. Trabalho, cansaço, compromissos. Nenhuma é verdadeira. — Sábado… — repito, só pra ganhar um segundo. — Posso. — Ótimo — ele responde, e eu consigo quase ver o sorriso. — Te pego às oito. Me manda o endereço depois por mensagem? — Mando sim. Antes que eu desligue, só uma pergunta curiosa… como conseguiu meu número? — Você é fotógrafa, não foi difícil conseguir. Principalmente quando se usa a própria imagem para divulgar informações do trabalho. — Preciso falar com as meninas para mudarmos a imagem da propaganda. Ele acaba rindo e eu também. Quando desligo, fico encarando a tela por uns segundos, como se o celular fosse me explicar em qual confusão eu estou prestes a entrar. Vou para a sala tomar café. As meninas reagem exatamente como eu imaginava assim que eu conto. — Finalmente! — Thelma quase derruba o café. — A vida ouviu nossas preces. — Ele ligou QUATRO dias depois — Marise analisa. — Isso é ponto positivo. Nem grudado, nem desligado demais. Estratégico. — Data, hora, local… — Hayla pega o celular da minha mão. — Ele é eficiente. Você vai experimentar algumas roupas. — Eu tenho roupa — digo, tentando acalmar o furacão. — E sapato. E tudo. Não precisa de drama. Elas se entreolham como um trio de vilãs de desenho planejando algo. Eu devia ter desconfiado. No sábado à noite, eu descubro que, para minhas amigas, deixar eu escolher minha própria roupa não era uma opção. — Você vai usar esse vestido — Thelma decreta, tirando do guarda-roupa dela uma peça que eu reconheço vagamente. — Eu comprei e nunca usei, ficou um número menor em mim. Em você vai ficar perfeito. — E esse sapato aqui — Marise completa, já tirando um par que combina com o vestido como se tivesse passado a manhã fazendo teste de look. — E eu vou fazer seu cabelo e sua maquiagem — Hayla anuncia. — De jeito que dure a noite inteira e faça ele esquecer que qualquer outra mulher existe no restaurante. — Gente… — tento protestar. — Eu tenho vestido. Tenho sapato que nem tirei etiqueta ainda. — A gente sabe — Thelma responde. — Mas hoje você vai ser nossa boneca viva. É o jeito da gente ir com você sem estar realmente lá. E é isso. Não é sobre roupa. É sobre presença. Eu deixo. Deixo Thelma me enfiar num vestido que abraça meu corpo do jeito certo. Deixo Marise decidir o salto que, segundo ela, “valoriza a panturrilha e o respeito próprio”. Deixo Hayla prender meu cabelo num penteado simples, mas elegante, e fazer uma maquiagem que ressalta meus olhos sem apagar quem eu sou. Quando me olho no espelho, quase não me reconheço. Sou eu. Mas uma versão minha que acredita em possibilidade. — Ele não vai entender nada — Marise diz, orgulhosa. — Se ele tiver um coração, vai derreter na primeira olhada — Thelma complementa. — E se não tiver, é um i****a — Hayla conclui. Desço no elevador com um frio na barriga que eu não sentia há muito tempo. Quando a porta abre no térreo, a primeira coisa que vejo é o carro. Caro demais pra ser de qualquer funcionário comum. Brilha mais do que deveria, com aquela cara de quem vale o preço de um apartamento pequeno. Encostado nele, está o Kaius. Calça escura, camisa bem cortada, nada exagerado. Na mão, um buquê de rosas vermelhas que parece ter saído de um catálogo. — Uau… — escapa baixinho, mas ele finge que não ouviu. — Você está linda — ele diz, com uma sinceridade que aquece a pele. — E você está… incrível — respondo, antes que o filtro ligue. Ele ri, abre a porta do carro pra mim com naturalidade, me ajuda a entrar, ajeita o cinto. Cavalheirismo. Zero pose artificial. Nada daquele modo “olha como eu sou importante”. Só cuidado. O restaurante realmente parece lugar de revista. Ambiente elegante, iluminação baixa, mesas bem arrumadas. Eu reconheço de alguma matéria que li sobre lugares caros da cidade, desses que vivem em lista de onde ter o jantar romântico perfeito em Toronto. A conversa flui fácil. Falamos de trabalho, família, preferências estranhas, coisas banais. Ele me ouve, ri dos meus comentários, faz perguntas, conta histórias engraçadas da infância, fala da irmã e do cunhado com carinho. Mas tem um elefante sentado na mesa com a gente, o carro lá fora, o restaurante caro, a roupa, tudo. Em algum momento entre a entrada e o prato principal, minha curiosidade vence a boa educação. — Eu posso te perguntar uma coisa sem parecer interesseira? — digo. — Pode perguntar — ele responde. — Como você tem um carro daquele… e como você pretende pagar essa conta aqui? — pergunto, direta. — Esse restaurante já saiu em revista por ser um dos mais caros da cidade. Se você for só funcionário de uma daquelas empresas da festa, você está ferrado. Ele sorri, um sorriso meio culpado, meio divertido. — Eu devia ter contado antes — admite. — Eu não sou só funcionário. Eu sou… Ceo. Eu rio. — Ceo de quê? Da parte de manutenção? Da equipe de TI? — Ceo da empresa Maldini — ele completa. — Eu sou Kaius Maldini. Por um segundo, meu corpo inteiro parece desligar e religar. O mundo faz aquele barulho de TV mudando de canal. Eu estou jantando com o Ceo. O bilionário. O “Maldini”. Tudo que eu sabia da empresa era de longe. Reportagens, comentários, coisas que a gente ouve por cima. Gente grande, dinheiro grande, problemas grandes. Eu seguro os talheres com mais força sem perceber. — Eu… — começo, sentindo o coração disparar. — Estou jantando com o Ceo da Maldini. Ele me observa, atento. — Você está jantando comigo — corrige, com calma. — Com o Kaius. Não com o cargo. Não com a conta bancária. Se isso fizer diferença. Faz. E não faz. Eu respiro fundo. — Eu não sei quais são suas intenções com esse encontro — digo, sincera. — Mas eu sei que nós somos de mundos muito diferentes. E isso… geralmente não acaba bem. Eu não sou ingênua. Já vi esse filme em versões diferentes. Homem poderoso, mulher “comum”, promessa de algo que parece conto de fadas e termina como pesadelo ou lembrança amarga. Pessoas falam demais. Julgam demais. E, na maior parte das vezes, quem sai arranhada é a mulher. Ele apoia os cotovelos de leve na mesa, entrelaça os dedos. — Me dá até o final dessa noite — ele diz, sem desviar os olhos dos meus. — Pra te convencer de que você está errada. A segurança na voz dele não é arrogante. É… firme. Minha parte racional grita que eu devia levantar, agradecer o jantar, ir embora com o mínimo de dano possível. Mas tem uma parte de mim, a mesma que quis atender aquela ligação de número desconhecido, a mesma que aceitou ser vestida pelas amigas como boneca viva, que quer ver onde isso vai dar. Eu tomo um gole de água, respiro fundo, e decido uma coisa. Eu posso não acreditar em finais felizes. Mas posso, pelo menos, ver como ele planeja me convencer. — Tá bom, Ceo Maldini — digo, por fim. — Você tem até o fim da noite. O sorriso que aparece no rosto dele é lento, genuíno. E eu sinto, lá no fundo, que, a partir daqui, meu coração acabou de entrar em campo num jogo para o qual eu não treinei.
Free reading for new users
Scan code to download app
Facebookexpand_more
  • author-avatar
    Writer
  • chap_listContents
  • likeADD