Kaius
Eu sempre fui bom em calcular riscos. Assumir a presidência da empresa cedo demais, negociar com gente que tinha o dobro da minha idade, fechar contratos milionários… tudo isso exigiu calma, foco, visão de longo prazo.
Mas nada disso me preparou para a sensação de estar sentado diante de uma mulher e ter medo real de estragar tudo com uma palavra errada.
Polly me encara como quem avalia um terreno antes de investir. E eu sei que, até agora, ela só viu a ponta do iceberg.
Eu respiro fundo, apoio os cotovelos na mesa, entrelaço os dedos e decido uma coisa… se eu tentar ser “menos” do que sou para parecer mais “acessível”, vou perder. Eu não preciso diminuir quem eu sou. Preciso mostrar que, por baixo de tudo, ainda sou só um homem tentando não errar.
— Olha pra mim, Polly — digo, chamando de volta o olhar que ela tinha desviado depois de saber meu sobrenome. — Eu sei que “Kaius Maldini, Ceo de empresa bilionária” assusta. Eu entendo. Mas, apesar do sobrenome e da ocupação, eu continuo sendo só um homem sentado aqui, tentando ter um encontro agradável com uma linda mulher.
Ela solta um riso curto, meio incrédulo.
— Você fala bonito — comenta. — Mas a gente sabe como histórias assim geralmente terminam. Homem poderoso, mulher comum… é um gênero de tragédia disfarçado de conto de fadas. E, na maior parte das vezes, quem acaba pagando a conta emocional é a mulher.
Eu não discordo. Ela tem razão. Eu já vi de perto versões distorcidas dessa história… homens que usam a diferença de poder como arma, não como responsabilidade. Mas eu também sei quem eu não sou.
— Com você não vai ser assim — respondo, sem hesitar.
Ela franze a testa, como se meu nível de certeza a irritasse um pouco.
— E como você pode ter tanta certeza? — desafia.
Eu não apelo para clichês. Não prometo perfeição, nem juro que nunca vou errar. Isso seria mentira.
— Eu não posso controlar tudo — admito. — Nem posso prometer que nunca vou fazer nada errado. Mas eu posso garantir uma coisa, eu não vou brincar com você. Se estou aqui, é porque eu quero te conhecer.
Ela me olha em silêncio por alguns segundos. Eu continuo.
— Nós somos duas pessoas que passaram tempo demais colocando trabalho e expectativa dos outros na frente de qualquer coisa — digo, mais calmo. — Você merece viver algo extraordinário, não porque eu sou Maldini, mas porque você é Polly. A gente merece se conhecer melhor sem se importar tanto com quem tá olhando de fora.
Eu vejo quando os olhos dela vacilam. É sutil. Um brilho diferente, uma defesa que abaixa meio centímetro.
Ela desvia o olhar para a taça, mexe na água, como se estivesse negociando com a própria cabeça. Dá pra sentir quase o diálogo interno:
— “Vai dar ruim.”
— “Mas pode ser bom.”
— “Não confia.”
— “Confia só um pouco.”
Quando ela volta a me encarar, parece ter tomado uma decisão.
— Tudo bem — ela diz, devagar. — Eu aceito… te conhecer melhor.
Um alívio atravessa meu peito. Mas ela levanta o dedo, cortando qualquer comemoração antecipada.
— Com uma condição — completa.
— Qualquer uma — respondo rápido demais.
Ela sorri.
— Se você magoar os meus sentimentos — fala, clara — vai ter que pagar uma boa indenização por isso.
Eu não esperava essa. Por dois segundos, só olho pra ela. Depois começo a rir, baixo, de verdade.
— Indenização sentimental? — pergunto.
— Isso mesmo — ela confirma, séria. — Você é Ceo, bilionário, sabe negociar. Eu não tenho como prever o futuro nem controlar o que você vai sentir. Mas eu posso, pelo menos, tentar garantir que minha dor não seja gratuita.
Ela fala brincando, mas não é brincadeira. Tem história por trás. Magoas acumuladas, promessas quebradas, gente que passou por cima dos sentimentos dela como se fossem descartáveis.
Eu encaro esse pedido não como ameaça, mas como limite.
— Tudo bem — digo. — Se eu magoar você, pago a indenização que você quiser. Em dinheiro, em desculpas, em terapia paga, em todas as opções acima. Dobro a quantia. Triplico, se precisar.
— Triplo? — ela ergue uma sobrancelha.
— Triplo — confirmo. — Considera isso um contrato verbal, sem letra miúda.
Ela ri. E é nesse riso que eu sinto a porta se abrir de verdade.
O resto do jantar segue no ritmo que eu queria desde o começo. Ela relaxa um pouco, conta histórias da família, fala dos gêmeos, do padrasto que virou pai, da mãe que liga todo dia perguntando se ela não vai decidir logo ter um filho.
Eu conto de Melissa, do Sean, pulo muita coisa sobre meu pai, falo mais da minha mãe e dos conflitos inevitáveis de ser um Maldini que não liga tanto pra festa de gente rica.
A gente troca ironias, descobre afinidades bobas, gosto parecido de filmes, preferência por chuva a sol, aversão a gente m*l-educada com garçom.
Quando saímos do restaurante, eu tenho a sensação clara de ter ganhado mais do que uma boa noite. Ganhei espaço.
Eu poderia ter encerrado o encontro ali. Levá-la até em casa, desejar boa noite, mandar mensagem no dia seguinte. Não seria covardia. Seria… prudência.
Mas, desde a conversa com meus pais, alguma coisa em mim ligou um modo que eu não ligava há anos, o de ir um pouco além do seguro. Eu preciso de uma namorada para eles me deixarem em paz.
— Quer dar uma volta? — pergunto, quando entramos no carro. — A cidade fica bonita à noite.
Ela hesita por meio segundo e depois concorda.
Eu dirijo sem pressa, passando por bairros conhecidos, cruzando pontes iluminadas, vendo arranha-céus acesos. Eu mostro alguns lugares que gosto, ela aponta cafés onde já fotografou casais, parques onde já fez ensaio.
Eu faço piadas que normalmente ficariam só na minha cabeça. Ela ri de quase todas. Eu conto o caos que é a minha família no Natal. Ela conta o caos que é a família dela em qualquer domingo.
Eu não lembro da última vez que fiz uma mulher rir tantas vezes em uma única noite sem precisar de champagne, ostentação ou frases ensaiadas. Lembro de alguém que meu coração quer apagar.
Quando percebo, já passa um pouco das duas da manhã. Estaciono em frente ao prédio dela e desligo o carro.
Por alguns segundos, nenhum dos dois se mexe. A rua está tranquila, o silêncio da madrugada é diferente do silêncio de escritório. Ela olha pela janela, depois olha pra mim.
Tem algo diferente no jeito como ela me olha agora. Menos avaliação, mais… aceitação. É como se estivesse checando se o homem que trouxe até aqui é o mesmo que começou a noite com ela.
É o meu momento. A segunda parte do plano.
Eu saio do carro, dou a volta e abro a porta do lado dela. Dou a mão, ajudo-a a descer, mesmo sabendo que ela consegue sozinha. Não é sobre necessidade. É sobre gesto.
Quando ela se vira para agradecer, eu aproveito o pouco espaço entre o carro e a porta do edifício. Dou um passo à frente, reduzindo a distância. O corpo dela encosta levemente na porta de vidro. Eu não a prendo com força. Só delimito um mundo pequeno em volta da gente.
Eu me curvo um pouco, aproximando meu rosto do dela. Ela precisa erguer o queixo para me encarar, e esse movimento é perigosamente calculado.
Eu deixo que meu nariz quase encoste no dela, minha boca a um sopro de distância dos lábios dela. Sinto a respiração quente, o perfume misturado do batom e da noite. Toco de leve os lábios nos dela, num quase beijo, não inteiro, não consigo mais que isso.
Ela prende o ar. Eu me afasto um centímetro, o suficiente para olhar direto nos olhos dela.
— Polly… — chamo, a voz mais baixa do que eu pretendia. — Você aceita namorar comigo?
A pergunta fica suspensa no ar, carregada de tensão, como se o tempo tivesse segurado a própria respiração junto com ela.
Eu sei que é rápido demais pros padrões normais. Sei que qualquer manual diria que eu devia esperar mais encontros, mais etapas, mais segurança.
Mas eu também sei que oportunidades raras não batem duas vezes na mesma porta. E meus pais não vão esperar muito tempo para me infernizar.