Capítulo 14

919 Words
Polly Eu não sei exatamente em qual momento meu cérebro entrou em modo tela azul. Talvez tenha sido quando o Kaius me encostou de leve contra a porta do meu prédio. Talvez tenha sido quando ele se curvou, aproximando o rosto do meu, até que eu conseguisse contar os fios dos cílios dele. Talvez tenha sido no instante exato em que a boca dele encostou na minha num selinho rápido, dois segundos no máximo, mas suficiente pra eu esquecer meu próprio nome. O fato é, eu estou congelada. Ele me beijou. Não foi beijo de cinema, língua, mão no cabelo, nada disso. Foi um toque simples, tímido até. Mas foi beijo. E, logo em seguida, ele me solta a bomba: — “Você aceita namorar comigo?” No primeiro encontro. Eu pisco várias vezes, tentando recuperar pelo menos 30% da minha sanidade. — Você tem consciência… — começo, devagar, como quem pisa num chão que não sabe se é sólido. — De que esse é o segundo dia que a gente se vê na vida? E que talvez seja… um pouquinho cedo demais pra esse tipo de pergunta? Ele não recua. Não desvia. Não ri como se tivesse só “brincado”. — Tenho — ele responde, firme. — E também tenho consciência de que a vida é muito curta pra gente esperar por algo que não precisa de espera. Eu o encaro, sem conseguir esconder o ceticismo. — E o que isso quer dizer, exatamente? — Quer dizer que eu sei o peso do que eu perguntei — ele continua. — E que, pra mim, certas coisas não precisam de tempo, e sim de atitude. Eu não quero fingir que estou “vendo no que dá” enquanto, na verdade, sei que quero algo sério. Eu prefiro ser claro desde o começo. Eu gostaria de dizer que isso me deixa totalmente tranquila e feliz. Não deixa. Parte de mim está derretendo com aquele discurso. Outra parte está acenando uma bandeira vermelha. Eu respiro fundo. — E se, por acaso… — começo, escolhendo as palavras — eu decidir terminar? Se eu sentir que isso não vai dar certo, você vai ser maduro o suficiente pra aceitar? Estou perguntando porque… você parece ser bem intenso. Ele leva a pergunta a sério. Nada de improviso. Nada de drama. — Eu sou intenso — admite. — Mas eu sou maduro o suficiente pra entender se você não quiser. Assim como sou maduro o suficiente pra aceitar se separar caso você perceba, lá na frente, que não é isso que você quer pra você. Eu fico em silêncio. E, como sempre, quando o presente fica confuso, minha cabeça corre para o passado. Lembro dos ex-namorados que juravam amor eterno numa semana e, na outra, estavam “confusos”. Lembro de quem dizia que eu era “demais”. Demais sentimento, demais opinião, demais intensidade. Lembro de término com choro na rua, mensagem visualizada e ignorada, justificativa esfarrapada. Kaius não parece nenhum desses. Ele é atraente, sedutor, educado, gentil, diferente de todos os homens que já passaram pela minha vida. Ele fala olhando nos meus olhos, me escuta, não tenta me convencer pela insistência, mas pela clareza. E, se eu for honesta comigo mesma, eu sei exatamente o que as meninas diriam agora. — “Você é burra se recusar namorar com um homem desse.” Eu sinto vontade de rir só de imaginar os surtos. Olho pra ele de novo. Ele continua ali, perto o suficiente pra eu sentir o perfume, longe o suficiente pra eu me mexer se quiser. Não me prende. Não me aperta. Ele só… espera. Eu solto o ar devagar. — Tá bom — digo, finalmente. — Eu aceito namorar com você. Os olhos dele brilham de um jeito que quase faz eu querer rir de nervoso. Mas eu levanto o indicador, porque é claro que não termina aí. — Só deixa eu deixar uma coisa bem clara — acrescento. — Se você for algum tipo de psicopata stalker, desses que querem namorar só pra me transformar numa boneca da sua vida e depois me matar… eu viro a boneca certa. Ele arregala um pouco os olhos, surpreso, e solta um riso. — Eu não sou psicopata — garante. — Mas… algumas bonecas eu acho fofas. — As que eu acho fofas — retruco — são a M3gan e a Anabelle. Ele me olha por um segundo, processando. Depois ri mais alto. — Elas são bonecas assassinas, Polly. Eu sorrio. — Exatamente. A ficha cai pra ele e eu sussurro de um jeito assustador: — Se você tentar me transformar em boneca, eu viro a M3gan ou Anabelle e te destruo. Ele balança a cabeça, ainda rindo. — Tá bom. Eu aceito a analogia — responde. — Sem psicopata, sem boneca, sem assassinato. Só… namoro. A tensão que estava prendendo meu corpo começa a se dissolver. Ele se inclina de novo e encosta os lábios nos meus. Outro selinho. Dois segundos. Sem língua, sem pressa. É… estranho. Não r**m. Longe disso. É doce, respeitoso, quase… singelo. Mas estranho pra alguém que já saiu com homens que tentaram enfiar a língua até a garganta no primeiro minuto de contato físico. Ele não encosta o corpo no meu. Não tenta me puxar pela cintura. Não força nada. Por um lado, isso faz soar um alarmezinho na minha mente: — “Homem assim ainda existe? Tem alguma pegadinha escondida?” Por outro, uma parte de mim se sente… segura.
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