Polly
Talvez ele seja tímido. Talvez ele tenha regras próprias, limites que eu ainda não conheço. Talvez, por ser o primeiro encontro que já terminou com um pedido de namoro, ele esteja pisando com cuidado no meu espaço.
Eu decido que não vou problematizar demais. Por enquanto.
— Boa noite, namorada — ele diz, quando se afasta um pouco.
A palavra “namorada” bate no meu peito de um jeito estranho. Pesado e leve ao mesmo tempo.
— Boa noite… namorado — respondo, testando o som.
Ele espera eu entrar no prédio, me dá um último sorriso, e volta para o carro.
O perfume dele ficou em mim. No cabelo, na roupa, na pele. Parece que a noite inteira grudou em mim, misturada a um novo status de relacionamento e uma interrogação gigante.
Subo de elevador quase em piloto automático. Quando a porta do apartamento se abre, eu entendo porque não estava conseguindo falar com elas.
As três estão acampadas no meio da sala. Cobertores jogados, bacia de pipoca vazia, latinhas, notebook aberto num filme pausado. Elas levantam a cabeça na mesma hora, como três cães de caça que sentiram cheiro de informação.
— E aí? — Thelma dispara. — Como foi?
— Ele é beijoqueiro? — Marise pergunta ao mesmo tempo.
— Você vai ver ele de novo? — Hayla completa.
Eu rio, nervosa. É informação demais, pergunta demais, sentimento demais. Então faço o que qualquer pessoa sobrecarregada faria.
— Eu estou namorando! — praticamente grito.
Elas ficam quietas por uns segundos. E então as três avançam em cima de mim ao mesmo tempo, gritando, abraçando, pulando, quase me derrubando no sofá.
— AAAAAAAH! — Thelma.
— ALELUIA, DEUS É BOM! — Marise.
— MINHA AMIGA DESENCALHOU! — Hayla, sempre sucinta.
Eu começo a rir, meio sufocada, meio emocionada.
— Calma, gente! — imploro, tentando respirar. — Eu ainda estou processando!
— Processa abraçada — Marise insiste. — A gente é abraço coletivo.
Quando elas finalmente me soltam, me sentam no sofá como se eu fosse ré numa audiência. Hayla cruza as pernas, Thelma pega uma almofada, Marise abre um pacote de biscoito.
— Começa do começo — Thelma ordena. — Roupa dele, restaurante, conversa, beijo. Tudo.
Eu conto. O buquê de rosas, que eu acabei esquecendo no carro dele. O carro caro. O restaurante de revista. A revelação de que ele é o Ceo da Maldini. O discurso dele. Meu medo de mundos diferentes.
O “me deixa te convencer até o fim da noite”. As conversas, as risadas, o passeio de carro. O quase beijo na porta do prédio. O pedido de namoro.
— Ele te pediu em namoro no primeiro encontro sem querer te levar pra cama antes? — Marise repete, chocada.
— Sim.
— E você aceitou, mesmo sabendo que seu rosto pode parar em site de fofoca? — Hayla pergunta, mas o sorriso no rosto já sabe a resposta.
— Sim — repito.
Nova rodada de gritinhos e braços levantados. Mas, conforme o barulho diminui, o que começa a subir em mim é outra coisa.
— Só que tem uma coisa… — digo, mexendo nos próprios dedos.
As três silenciam de novo, atentas.
— Ele é muito respeitoso — começo. — Muito. Tipo… muito. Ele não encostou o corpo em mim de verdade em nenhum momento. Nada de mão escorregando, nada de aproximação estranha. Os dois beijos que ele me deu foram selinhos de dois segundos. Sem língua, sem tentar aprofundar, sem me puxar, sem nada.
— Isso é r**m? — Hayla pergunta, sincera.
— Não sei — respondo. — É que… eu estou tão acostumada com homem que passa do limite em cinco minutos que quando um faz o contrário… soa um alarme diferente aqui dentro. Parte de mim acha lindo. Parte de mim fica… o que tem de errado?
Thelma pensa um pouco.
— Pode ser que ele esteja só com medo de te invadir demais — sugere. — Ou que tenha traumas, sei lá, regras próprias sobre isso. Não é comum, mas também não é impossível.
— Ele pode só ser… muito cuidadoso com limites físicos no começo — Hayla completa. — Tem gente que acha que é falta de respeito partir pra cima logo de cara.
— Ou ele é um psicopata que está fingindo ser perfeito, e no dia do casamento vai revelar um porão cheio de manequins com perucas parecidas com seu cabelo — Marise dramatiza.
Eu olho pra ela.
— Você está proibida de maratonar filme de terror por uma semana.
Elas riem. Eu rio junto. Mas, por dentro, ainda sinto aquele toque tímido na boca. Ainda sinto o fato dele não ter encostado o corpo no meu. Ainda sinto o respeito tão grande que chega a parecer… estranho.
Eu tento acalmar a paranoica interna.
— “Nem todo homem é igual. Nem todo cara respeitoso tá escondendo alguma coisa. Às vezes, ele só é… diferente.”
Eu respiro fundo, encostando a cabeça no encosto do sofá.
— Eu vou tentar não sabotar isso antes de começar — digo. — Ele parece muito diferente de tudo que eu já vivi. Talvez eu precise ser diferente também.
Hayla sorri, suave.
— E, se ele te magoar, a gente ajuda a esconder o corpo — fala, cúmplice.
Eu rio, lembrando da minha própria condição.
— Num lugar distante — Marise fala. — Onde ninguém possa encontrar.
— Principalmente a polícia — Thelma completa.
A gente ainda conversa mais um pouco, até o sono começar a pesar. Cada uma vai pro seu quarto. Eu tomo banho, tiro a maquiagem, coloco um pijama largo e deito na cama.
Fecho os olhos e, em vez das cenas de sempre, ex-namorados, brigas, término, o que aparece é o rosto do Kaius me olhando na porta do prédio. O quase beijo. O pedido inesperado. O “namorada” sussurrado.
Eu ainda não sei se estou entrando num momento lindo ou em outro desastre anunciado. Mas, pela primeira vez em muito tempo, decido não ter conclusões antes dela acontecer.
— “Nem todos os homens são iguais.” — eu repito mentalmente.
Tomara que, desta vez, eu esteja certa.