Capítulo 16

873 Words
Kaius Eu chego em casa me sentindo o homem mais sujo da face da Terra. A porta do meu apartamento m*l fecha atrás de mim e eu já sinto o peso do que fiz desabar inteiro nos meus ombros. Eu estou namorando alguém que eu não amo. Deixei minha boca tocar outra boca, mesmo que de leve, apagando o rastro dos únicos lábios que eu toquei por amor de verdade. Não foi só um selinho de dois segundos. Foi uma linha cruzada. Vou direto pro banheiro, sem acender todas as luzes, sem tirar a roupa. Abro o chuveiro no máximo e deixo a água cair, gelada no começo, depois morna, depois quente demais. Encosto as mãos na parede e abaixo a cabeça. A água escorre pelo meu rosto como se pudesse lavar culpa. Minha mente começa a fazer aquilo que sabe fazer melhor, tentar me convencer racionalmente. Você não tem chance com quem ama. Você sabe disso. Você precisa seguir em frente. Polly é encantadora, inteligente, divertida. Ela merece alguém inteiro ao lado dela. Eu concordo com tudo. A parte que dói é a seguinte… eu não sou esse alguém. — Eu nunca vou ser um homem completo pra ninguém — sussurro pro nada, a voz engolida pelo barulho do chuveiro. — Nem pra mim mesmo. Penso nos meus pais. No quanto eles fizeram por mim, por amor. No quanto abriram mão, trabalharam, investiram, acreditaram. Eles não são perfeitos, mas são o que eu tenho de mais próximo de raiz. E, agora, o máximo que eu posso fazer em troca, no entendimento torto que eu tenho de “agradecimento”, é atender um pedido que eles fizeram com tanta expectativa… que eu esteja com alguém. Que eu construa algo, que eu não seja a prova viva de que todo o esforço deles resultou num homem solitário. Mesmo que isso vá contra o meu coração. Contra o meu desejo. Contra o meu próprio corpo, que ainda reage a outra pessoa, outro rosto, outro nome. Eu sofro por amar alguém que não posso ter. E sofro, em paralelo, por iniciar um relacionamento com alguém que eu não amo, e nem sei se um dia vou conseguir amar. Se é pra me ligar a alguém sabendo que meu amor inteiro não tá disponível, que seja com alguém como a Polly. Ela me faz rir. Ela me faz conversar com naturalidade. Ela não me faz sentir estranho ou deslocado. É pouco? Talvez. Mas, pra um homem quebrado, parece um tipo de meia-salvação. No dia seguinte, acordo com a cabeça pesada e o corpo mais cansado do que antes de dormir. Domingo, teoricamente um dia de descanso. Pra mim, só mais um dia de trabalho disfarçado. Chego ao escritório cedo demais para um domingo, como sempre. O silêncio da empresa vazia me acalma. Ligo o computador, olho para a agenda, finjo que minha maior preocupação é a próxima reunião com Elon e os ajustes finais da aliança com a StarGold. Mas o primeiro impulso que tenho é outro. — Isaac — chamo pelo interfone. Meu assistente aparece na porta alguns minutos depois, com um tablet na mão. — Sim, senhor? — Eu preciso que você organize duas coisas — digo. — Primeiro, um buquê de rosas vermelhas, bem bonito. Segundo, um anel com rubi. Nada exagerado demais, mas com qualidade. Rubis sempre foram associados a amor intenso, paixão, compromisso forte. É o tipo de joia que, teoricamente, carrega um simbolismo de amor profundo e duradouro. Eu sei o que significa mandar algo assim. Sei que é pesado. Talvez seja exatamente por isso que escolho. — Endereço? — ele pergunta, pronto pra anotar. Eu escrevo o endereço do apartamento da Polly num papel e entrego a ele. — Envia pra esse lugar — digo. — Hoje ainda, se possível. Ele concorda. — E o cartão? — pergunta. — O que o senhor quer que seja escrito? Penso por alguns segundos. Não quero nada frio. Nada que denuncie demais, nem que pareça pouco. — Coloca assim — falo, devagar: — “Pelo nosso primeiro dia juntos, e pra você lembrar de mim.” Isaac digita, confirma tudo. — Mais alguma coisa? — Por enquanto, não — respondo. — Me avisa quando estiver tudo encaminhado. Quando ele sai, o silêncio volta. Eu pego o celular. Se eu quero que essa mentira pareça verdade, eu preciso agir como um homem apaixonado agiria. Abro a conversa com Polly. — “Bom dia. Dormiu bem?” É simples, quase bobo. Mas é o tipo de mensagem que alguém manda quando realmente quer entrar na rotina do outro. A resposta vem rápido. — “Bom dia. Estou impressionada. Pensei que você ia mandar aquele clássico ‘tive um sonho erótico com você’ e, na verdade, está perguntando se eu dormi bem.” Eu rio, sozinho, diante da tela. Ela é naturalmente divertida. Faz piada até com o que poderia ser só mais um clichê. — “Eu não sou nenhum pervertido indecente” — respondo. Alguns segundos. — “Até agora, você parece um sonho bom. Só espero sinceramente que não vire um pesadelo.” A frase bate em cheio. Porque, pela primeira vez, eu sinto, com força, o peso do que estou fazendo.
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