Eu tinha focado, ou tentado, no último ensaio. Eu tinha prestado tanta atenção nas notas que diz tudo perfeitamente. Eloise, minha professora de canto, chorou quando terminei.
— Perfeita — foi tudo o que ela disse antes de me abraçar.
Mas a sensação...o cheiro que ocasionalmente enche meu nariz. Tenho certeza que meu parceiro está por perto, que finalmente essa conexão entre nossas almas se estabeleceu. E é tão forte.
Uma pena, mesmo, que eu estou com Will, que eu ame Will. Não vou deixá-lo só porquê meu parceiro está por perto. São dois anos de namoro, e eu não vou abandonar isso por alguém que eu não conheço e não amo.
Estou decidida a isso.
Depois do almoço, a qual Liz trouxe para mim, tive que me juntar a equipe de maquiagem para me preparar para o concerto.
A casa segundo que passa meu estômago se revira, minhas mão soam e eu tinto que vou vomitar. Mas me mantenho firme, pois hoje é uma oportunidade, e eu não posso vacilar.
— Vou colocar estrelinhas na sua bochecha, não coce — a menina de cabelos rosa me maquiando fala —, estão todos tão animados, acho uma baboseira, e você?
— Eu estou feliz com a visita, mas por quê você acha uma baboseira? — perguntei a ela.
— Não acha estranho que nossa deusa tenha escolhido um macho para nos guiar? Só porquê ele é o Alfa não significa que nossa Luna seja menos inferior — ela rosnou.
— Mas o alfa ainda não encontrou a parceira dele, não é? Não é culpa dele, e nem da deusa pela Luna ainda não ter sido encontrada — eu posso estar falando besteira, mas é realmente nisso que eu acredito.
— Ele é um assassino, isso sim.
— Olhe o que diz — rosnei —, ele matou sim, para nós proteger.
— É mesmo? Porque pelo que parece ele não fez nada, estamos preso atrás desses muros enquanto os humanos são livres — ela parou de me maquiar, e então se virou para a bancada.
— Somos livres — declarei.
Ela pegou a própria bolsa e então a colocou sob os ombros. O olhar que ela me lançou está cheio de desgosto.
— Não somos, e eu ficaria experta se fosse você — ela andou pelo salão, e foi embora.
Ficar experta? Porque? Pelos assassinatos?
Balanço a cabeça, ignorando a conversa e as loucuras que elas me contou.
Me olhando no espelho, vejo que ela pelo menos fez um excelente trabalho. Estou linda, e agora só falta por o vestido.
Pela minha audição consigo ouvir a enormidade de Licans na plateia do teatro. Meu estômago se revira, e estou torcendo para não ficar mais suada que já estou.
Meu vestido está me apertando, mesmo que seja do meu tamanho. O cetim e as pedras estão me incomodando, coçando, mas não posso mexer, não posso arranca-las. Pelos menos ele é da cor preta, e não vão poder ver o suor, mas o cheiro...
Será que alguém me empresta o desodorante?
Enquanto caço um desodorante, a equipe de opera está cantando — e nossa, eles são incríveis. Mexo em minha bolsa e por sorte, encontro um perfume em minha bolsinha. Vai ter que servir.
— Selene! — Eloise me chama e eu me viro para ela. Ela está sacudindo as mãos para que eu vá até ela. — Você é a próxima, vem!
O quê? Já?
Engulo em seco e acompanho Eloise até as cortinas. Que eu não tenha uma crise, que eu não entre em pânico.
A opera parou, e a salva de palmas soou, forte e cheia. Muitas...muitas pessoas.
— Você começa quando as cortinas se abrirem — falou Eloise —, boa sorte.
Sorte? Eu preciso de um milagre.
Um, dois, tres, respira.
Um, dois, três.
As cortinas em minha frente se arrastam, me revelando. Uma salva de palmas rápida me recebe. Ando hesitante até o microfone.
Acho que vou desmaiar.
Fecho os olhos e respiro fundo. Imagine que eles estão pelados. Imagine que todos estao nus.
"Que pervertida."
Uma voz masculina chega a minha mente. Uma voz que nunca ouvi. Abri meus olhos em busca do lobo, pois telepatia só é possível quando alguém está em forma de lobo, mas também...
Ele está aqui.
Parceiros podem se comunicar pela mente mesmo estando na forma humana.
A música começa, e eu tento me concentrar na minha tarefa, e não em meu possível parceiro me assistindo. Mas, o fato de ele me mandar o pensamento...
Ele sabe que sou eu.
Como? Como ele descobriu? Ah, claro. Estou exposta a toda comunidade, é claro que ele descobriria.
Comecei a cantar, deixei que minha música varresse tanta preocupação da minha mente. Cantei e cantei. Deixei a música me preencher, me inebriar.
Quando terminei as palmas foram fortes e constante, assovios e gritos de euforia me homenagearam.
Eles gostaram, ele gostaram mesmo.
"Mas é claro que sim, sua voz é linda."
O que? Eu nem estou mandando meus pensamentos. Como ele...
"Está praticamente gritando, desde mais cedo aliás."
Ele está me escutando desde mais cedo? Eu estou gritando mentalmente? Minhas bochechas coram com tudo o que pensei naquele dia.
"Quem é você?"
Olhos pela multidão que ainda me aplaude. Quem é ele? Quem é?
"Olhe para cima."
Eu fiz, olhei para a plataforma em que a realeza está, pois não tem nada mais alto para alguém estar. Um homem, o único em pé, está de braços cruzados sob o peito e me encarando.
"Olá, parceira."
Puta merda. Ele é...um gato. Meu parceiro é um gato. Os cabelos pretos, e o corpo...lindo. Tive sorte pelo que parece, mas ele...ele se deu m*l, com certeza.
"Olá."