CAPÍTULO 3

2079 Words
Estávamos outra vez no lago, olhei para todos os lados, para ter certeza de que tinha voltado ao mesmo lugar, a água clara e gelada estava cobrindo os meus pés, e não tínhamos ido a lugar nenhum. Abaixei-me e peguei uma pedra do chão, queria sentir, queria ter certeza de que tudo continuava do mesmo jeito. — O que foi isso? — Olhei para a coisa que me observava, precisava ter certeza do que ele tinha feito, de como ele havia feito. Tinha saído do lugar? Ou será que ele colocou aquilo na minha cabeça? — O passado? — Ele disse pensativo e eu me afastei dele. — Como o senhor fez isso? Como me fez estar lá e estar aqui ao mesmo tempo? — Saberá tudo no tempo certo. — Ele parecia estar me analisando, como se esperasse outra atitude minha. — Mas... — Temos apenas uma solução para que você viva. — Ele continuou a me ignorar, mas suas palavras chamam minha atenção. — Eu sei, você está maravilhada com tudo. — Por que você está tentando me ajudar? O que quer? Porque eu não tenho nada, eu... — Porque preciso! — Ele falou antes que eu pudesse terminar a frase. Mas isso não era o suficiente, não aqui, não em Tárcia, ninguém ajuda uma escolhida, ainda mais alguém que possua esse tipo de poder. — Por quê? Não tenho nada valioso que possa querer nada que valeria para um ser como o senhor. — Vamos dizer que um dia terá. — Ele se vira para me olhar e posso sentir que ele diz a verdade. — Muito mais do que pensa. — Como assim? — Era insano, eu não devia confiar nele, talvez fosse algum truque da rainha, algo para ter certeza que eu não desistiria. — Teremos muito que conversar, mas só quando você estiver a salva. — Não disse que aceitava a sua ajuda. — Eu não podia confiar nele, eu nem sei por que me deixei levar, isso era perigoso demais. — Eu vou dar uma razão para você não tomar a decisão errada. Ele simplesmente desapareceu sem me deixar formular uma pergunta. Fiquei ali pensando em tudo o que tinha acontecido, se eu comentasse isso com alguém eles iriam me achar insana e duvidaram. Eu devia pensar sobre tudo, seja lá o que aquela coisa for, ele pode me ajudar, pode ser a minha única chance, mas e se essa coisa for a mesma que fica ao lado da rainha, a que o povo nunca vê a face, a que só aparece na noite do sacrifício e some? Não se fala sobre isso, o reino finge não saber e nem ver esse ser, mas há boatos sobre ele, sobre o que ele pode fazer. E se essa coisa for o mesmo? E se for uma armadilha, um teste que todas devem passar? Eu acho que eu não passei, devia ter me recusado, devia ter me negado, dito algo como: “meu sacrifício para servir o reino” seja lá o que ele esperava ouvir. Subo em uma árvore e fico olhando o castelo, logo estarei lá e serei bem tratada, ganharei uma coroa, e então me levarão para o altar onde os sacrifícios acontecem, não sei muito sobre essa parte apenas que ficamos rodeados por nosso povo, que esperarão até que eu e as outras seis meninas estejam mortas e depois celebraram, mas sete anos de prosperidade para o reino. E logo tudo acabará, morrerei "com honra". Bem, é isso que dizem, mas que honra se têm em morrer sem lutar? Já estava anoitecendo quando desci da árvore para voltar para casa. Minha mãe já fazia o jantar, ela amava cozinhar, uma das poucas coisas que não havia sido tirada dela. Como eu minha mãe foi instruída a não andar por aí fazendo coisas que camponeses comuns fazem, mas em nossa casa ela se negava a servir as ordens da rainha, então ela dispensou a jovem que tinha sido instruída a ficar em nossa casa no segundo dia, no começo houve alguns murinhos, mas por algum motivo, ela conseguiu deixar as coisas do jeito dela. Ser mãe de uma escolhida tem suas vantagens às vezes. — Onde esteve Dominique? — Ela me dá aquele olhar fulminante. Minha mãe se esquece de que não sou mais a menininha pentelha que destruía os jardins alheios. — No lago. — Era melhor falar um pouco da verdade, porque ela sempre sabia quando eu mentia. — É perigoso! — Me repreende, dessa vez olhando para o meu pai, que nada disse, ele estava apenas nos observando. — Não para mim! — Falei pronta para lhe dar um beijo. — Só porque seu pai te ensinou coisas de homem não quer dizer que você seja um! — Ela se afasta zangada. — Não acha que um beijo resolve qualquer coisa, ou acha? — Mamãe! — Eu a beijo na bochecha antes que ela se afaste novamente. — Não deve se preocupar. — Vá lavar as mãos, o jantar já está pronto! —mesmo estando zangada, ela sorri. — Sim, senhora! — Vou até o banheiro e lavo minhas mãos rapidamente, quando volto fico olhando meu pai ali parado encarando a janela e percebo a grande semelhança entre ele e o velho que eu vi hoje. — Papai, por que você nunca me disse que meu avô foi conselheiro do Rei? — Meu pai virou-se rapidamente e me olhou com os olhos levemente arregalados, ele parecia estar assustado. — Quem te disse isso? — Ele grita e isso me assusta, meu pai nunca grita, não comigo. — Eu soube... Dei-me conta que nem devia falar sobre aquilo. — Não repita isso! — Ele brada me interrompendo para então se virar novamente para a janela. — Nunca mais repita isso! — Me perdoe, pai. — Senti as lágrimas rolarem e eu só queria fazê-las pararem. Ele nunca foi assim, nunca me tratou assim. — Dominique venha cá! — Minha mãe me chama, parece estar angustiada e então obedeço, indo até ela. — O que meu pai tem? — Vá para o seu quarto! — Ela ordena e eu a encaro indignada. O que eu tinha feito de errado? Mesmo a contragosto eu faço o que ela manda e sigo para meu quarto. Eu nunca soube nada sobre a família do meu pai, minha mãe disse que ele não gostava de falar sobre isso, mas nunca achei que tocar no assunto o deixaria assim. Alguns minutos se passaram até que minha mãe bateu na porta me tirando dos meus pensamentos. — Pode entrar! — Trouxe sua comida. — Seu rosto demonstra preocupação mesmo que ela não fale. — Por que aquele ataque todo por uma simples pergunta? — questiono, ela me olha cansada. — Entenda seu pai. — Ela pede deixando a bandeja na cama e eu a encaro com as sobrancelhas erguidas, em um incentivo para que ela continue. Ela solta um suspiro longo e então fala. — O seu avô foi um dos homens que ajudou a princesa a tomar o poder! — Como assim? — Ele armou para derrubar o Rei. — Minha mãe estava sugerindo que de alguma forma meu avô tinha contribuído para a queda do Rei. — Mas por que ele faria isso? — Nada fazia sentido, minha mãe sorri e mexe os ombros, a verdade é que eu sabia que meu pai não contaria nada sobre um traidor. — Meu pai tem vergonha dele, entendo, mas ele parecia um homem tão digno! — Do que está falando? — Minha mãe me olha confusa e eu percebo o meu erro tarde demais. — Nada, é só que pensei uma bobagem. — Minto, mas o que eu poderia dizer, além disso. — Sempre pensando demais. — Ela revira os olhos. Não é difícil saber que ela acha que eu sou uma sonhadora sem solução. Ela se aproxima e me dá um beijo na testa antes de sair, me deixando ali com meu jantar. Após comer eu me deito em minha cama e fico pensando em como tudo o que tinha acontecido hoje não fazia sentido algum. O beijo de Caio, a briga, o homem na floresta e aquela visão do passado, sem contar no segredo que minha mãe tinha me confidenciado. Eram tantas coisas para um dia que o sono me tomou antes que conseguisse processar todas. — Acorde! — Minha mãe me sacode do jeito delicado que só um cavalo conseguiria. — O que foi mãe? — Digo levantando-me, irritada. Não havia forma mais delicada de alguém ser acordado? — Levante para tomar café! — Ela grita abrindo as cortinas. — Tem que ser mais cuidadosa, por que deixou a janela aberta? — Não sei. — Falei sonolenta, cobrindo o rosto com o cobertor. — Poderia ficar resfriada! — Então ela para de falar, como se compreendesse que não faria diferença alguma um resfriado para alguém que estava sentenciada a morte. — Estou sem fome. — Dei um pulo da cama e lhe dei um beijo na bochecha, ela sorriu amável novamente, como se eu fosse sua pequenina. — Seu pai não queria gritar com você, é só que as coisas não estão fáceis... — Eu entendo, mas o que posso fazer? Logo estarei morta e só queria que ele ficasse um pouco comigo. — Senti as palavras afiadas, mas não consegui pará-las antes de atingir o alvo errado. — Algumas pessoas não sabem como lidar com a dor. Tem quem se torne forte com a dor e tem aqueles que são consumidos por ela. — E meu pai foi consumido, não é? — Podemos dizer que sim. — Minha mãe me olhou com aqueles grandes olhos verdes, ela era forte, ninguém esperaria que ela fosse a mais forte da família, meu pai um guerreiro que um dia foi respeitado, não tinha a coragem daquela mulher. — Quando seu pai a segurou pela primeira vez, depois de ter servido na guerra entre nosso reino e o reino inimigo ele disse "Ela é especial! Irá me dar dor de cabeça ``. — Ela me contou se sentando na beirada da cama. — Por quê? — Perguntei curiosa, amava as histórias que meus pais sempre tinham para me contar. — Talvez seu pai consiga ver o futuro. — Ela sorri com a fala. — Ele te ama muito, até quando você nos faz ficar de cabelos em pé, nós te amamos. — Ela me beijou na testa e eu pude sentir as lágrimas escorrendo, ela estava chorando. — É difícil olhar para você e saber que logo não vai estar aqui nos deixando de cabelos em pé. — Não chore! — Eu beijo seu rosto querendo apagar a tristeza de seus olhos. — Não deve se preocupar com isso. — Eu preferia aquela casa simples, aquelas roupas velhas, do que ficar sem você. — Ela puxou o ar, enquanto tentava não chorar. — Eu sei! — Eu não queria chorar, estava cansada de resumir meus dias a chorar e me entristecer pelo meu futuro. — Não deveria ser assim, não é a ordem certa, uma mãe não devia ver a filha morrer. — Mãe! — Eu digo a abraçando e me quebrando com suas palavras. A verdade é que não sabia se suportaria ver ela e meu pai mortos. — Não queremos perdê-la, é só isso. — Ficamos ali por um bom tempo, sem dizer nada. Era tudo muito r**m, tudo muito injusto, por que eu tinha que morrer para o bem do reino? Por que minha mãe tem que perder sua única filha? Por que coisas ruins precisam acontecer? Tudo era cansativo, tudo era mau. Minha mãe sai e olho pela janela, sinto uma enorme vontade de rever minha antiga casa. Onde coisas boas aconteceram, lá o mau ainda não existia, vesti um vestido leve branco, precisava de algo confortável, a caminhada seria longa. Pulei a janela decidida, seria bom me despedir da minha antiga casa, seria bom sair desse lugar. Eu levaria toda manhã para chegar, era distante, e um pouco perigoso, já que ficava afastado do castelo, mas eu precisava disso, precisava me afastar disso tudo, e saindo cedo eu poderia voltar antes do anoitecer. Caminhei o mais rápido possível para a floresta, eu conhecia muito bem esse lugar, o povoado fica um pouco distante de nossa casa, que está mais próxima da floresta, o que era a única coisa boa nisso tudo.
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