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O Tempo de Ficar

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Blurb

Kateryn Wendler Kim aprendeu cedo a não depender de ninguém.

Aos vinte e dois anos, ela já é doutora em psiquiatria, especialista em estratégias de resgate e diretora de um serviço de inteligência forense em Seul. Extremamente competente, determinada e acostumada a enfrentar situações em que um único erro pode custar uma vida, Katy não precisa provar que é capaz de sobreviver.

O problema é que, pela primeira vez, ela terá de aprender a viver.

Filha de um poderoso militar que passou grande parte da vida distante, criada pela avó e acostumada a lutar pelo próprio espaço, Katy chega à Coreia carregando muito mais do que sua carreira. Ela precisa enfrentar o preconceito dentro do próprio departamento, a presença inesperada de uma família que nunca soube exatamente como fazer parte de sua vida e um passado que insiste em bater à sua porta.

Entre provocações, olhares, segredos e a constante vigilância de seu irmão superprotetor, nasce um sentimento que Katy não sabe controlar. Afinal, como alguém acostumada a analisar pessoas, prever movimentos e elaborar estratégias poderia não perceber o que está acontecendo dentro do próprio coração?

Só que amar também pode ser perigoso.

Enquanto Katy tenta equilibrar família, carreira e sentimentos, situações cada vez mais arriscadas colocam sua vida e a das pessoas que ama em jogo. E quando o trabalho deixa de ser apenas uma profissão e passa a envolver aqueles que estão ao seu lado, ela terá de descobrir até onde está disposta a ir para protegê-los.

Entre ação, romance, humor, conflitos familiares e reviravoltas inesperadas, O Tempo de Fica mostra que algumas pessoas chegam à nossa vida para mudar tudo.

E, às vezes, conhecer alguém é apenas o começo de uma história que pode transformar quem você pensava ser para sempre.

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Raízes e desafios em terra alheia
O sol começava a se pôr sobre Seul, tingindo de tons alaranjados e dourados os prédios altos que se espalhavam até onde a vista alcançava. A brisa da tarde trazia consigo um leve frescor, mas não era o suficiente para amenizar o peso que sentia no peito. Respirei fundo, observando o movimento intenso nas ruas, e deixei que meus pensamentos fluíssem, como se estivesse colocando em ordem cada sentimento que carregava desde que pus os pés nesta cidade. É difícil viver em um país onde, aos olhos de muitos, os estrangeiros são vistos como intrusos. É ainda mais complicado quando você tem apenas vinte e dois anos e ocupa o cargo de chefe de um departamento onde noventa e oito por cento das pessoas são homens. Nem preciso dizer que a desconfiança e o preconceito se fazem sentir em cada olhar, em cada silêncio que se prolonga quando dou uma ordem. Mas não me curvei. Não vim até aqui para me curvar. Trabalhamos em uma atividade que exige muito mais do que esforço físico — embora, em certas ocasiões, também o empreguemos. Nosso verdadeiro trabalho acontece antes de qualquer ação: ele se desenrola na mente, na análise fria dos fatos, na antecipação dos movimentos inimigos. Nosso esforço é mental e psicológico; nossa mente trabalha vinte e quatro horas por dia, sem folgas, sem descanso. Apesar de nossa sede estar localizada na capital, prestamos suporte para todo o território nacional. Ameaças fazem parte de nossas vidas. Não somos tão conhecidos pelo grande público, é verdade, mas os poucos que nos conhecem… esses são suficientes para nos fazer abrir os olhos durante a madrugada, com o coração acelerado e a certeza de que precisamos estar sempre um passo à frente. Ah! Ainda não me apresentei devidamente. Sou Kateryn Wendler Kim — mas pode me chamar de Katy, ou Key. Depende da i********e que tivermos. Sou diretora do Serviço de Inteligência Forense de Seul, Doutora em Psiquiatria e especialista em Estratégias de Resgate em Sequestros. Vim morar aqui com um objetivo claro e inabalável: tornar-me a melhor no ramo. E não costumo desistir daquilo a que me proponho. Resido aqui há apenas seis meses. No início, negociei em inglês, mas em pouco tempo ficou evidente que aquilo não seria suficiente; o idioma não atendia às minhas necessidades profissionais nem me permitia me integrar de fato. Tentei o francês — e foi como se eu fosse um ser de outro planeta. O espanhol… melhor nem comentar. Assim, restou-me dedicar-me com afinco ao aprendizado da língua local, que, para ser sincera, é consideravelmente mais difícil do que eu imaginava. Estou me virando como posso, estudando nas horas vagas, praticando com quem me dá a******a e errando muito até acertar. É um processo lento, mas avança. No meu departamento, não posso contar com amizades. Não que haja hostilidade declarada, mas o relacionamento estritamente profissional. Contudo, ao menos isso existe: quando se trata de trabalho, ninguém se n**a a executar o que é determinado. A cultura de respeito à hierarquia e à superioridade é algo que me impressiona positivamente. Por mais que alguns não aprovem minha presença, por mais que vejam em mim apenas uma jovem estrangeira, obedecem. E isso, no meio em que vivemos, vale mais do que qualquer gentileza vazia. Moro em um “apertamento”, como costumo chamar com um sorriso meio amargo. Se quero ter um momento de silêncio para pensar, sou obrigada a sair de dentro dele — é pequeno demais para abrigar meus pensamentos e minhas ideias ao mesmo tempo. O dinheiro obtido com a venda de minha casa não foi suficiente para adquirir algo digno por aqui; os valores são muito acima do esperado. Por isso, estou economizando com afinco, juntando cada quantia que consigo guardar, para em breve comprar um apartamento que me sirva de verdadeiro lar. Não sou orgulhosa… ou talvez seja um pouquinho. Mas isso não vem ao caso. O que importa é que não desejo ajuda de quem não me quer por perto. Prefiro demorar e conquistar com meu próprio esforço a depender de quem me olha com desdém. Fui criada por minha avó paterna, Dona Nancy. Minha mãe entregou-me aos seus cuidados logo que nasci. Meu pai, por sua vez, era casado e também não me quis — ou talvez ela, a esposa, não me quisesse. Até hoje não tenho certeza e nunca me dei ao trabalho de investigar. Sempre fui, aos olhos da família dele, uma intrusa, um enxerto ali colocado por circunstâncias que não me cabia corrigir. Meu avô, o Coronel Irani Kim, era coreano e serviu com muito orgulho ao Exército. Foi enviado ao Brasil em missão ou designação — nunca soube o motivo e, sinceramente, nunca quis saber. Era um homem de poucas palavras, postura ereta e olhar firme, que me ensinou a ter coragem antes mesmo de eu saber pronunciar a palavra. Meus irmãos por parte de mãe, pouco contato tive. Já por parte de pai… eis que surge a surpresa. Apesar de tudo, passávamos as férias juntos. Brincávamos e “estudávamos” juntos — eu tentava ensinar-lhes português e eles se esforçavam para me ensinar coreano. Comunicávamo-nos, na maior parte do tempo, por meio de gestos, sorrisos e olhares. Mesmo quando crescemos e nos tornamos adolescentes, aquela forma singela de nos entendermos permanecia. Havia entre nós algo que ia além do sangue: uma cumplicidade silenciosa, construída nos intervalos dos encontros e na certeza de que, ao menos ali, não éramos tão diferentes. Nossa avó Nancy era o ser mais extraordinário que conheci. Nunca me tratou de forma diferente dos outros netos. Para ela, eu era neta e ponto final. Talvez seja por isso que, apesar de tudo, não guardo amargura. Aprendi com ela a ser inteira, a não pedir licença para existir. Sou muito diferente de meus irmãos quando se trata de aparência física. Sou baixa, de cabelos claros e encaracolados, olhos verdes e traços que denotam claramente minhas raízes brasileiras. Por onde passo, dizem que meu sorriso é idêntico ao de meu irmão mais velho, que meu jeito de ser e de me portar se assemelham ao dele. E todos que conheceram minha avó quando jovem afirmam que possuo a mesma beleza e o mesmo brilho nos olhos que ela tinha. Quanto ao temperamento… ah, esse é indiscutivelmente do meu avô. Geniosa, teimosa, decidida. E quando me enfureço? Digo sem rodeios: xingo e grito tal como meu pai. Herdei dele a veemência, a impulsividade e a incapacidade de me calar diante do que considero injusto. E assim, carregando em mim todas essas heranças — o sangue coreano que corre nas veias, a criação brasileira que moldou minha alma, a educação militar que me deu disciplina e o amor de uma mulher que me ensinou a ter coragem — sigo adiante. Nesta terra nova, em um cargo pesado, em um ambiente que me testa a cada instante. Não vim aqui para provar nada a ninguém… mas também não vim para recuar um único passo. Estou aqui. E ficarei. Até conseguir o que vim buscar.

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