O expediente no Bella Tavola terminou mais tarde do que o normal naquele dia.
A cozinha finalmente estava silenciosa depois de horas de barulho de panelas, pratos, pedidos e risadas. Eu estava terminando de lavar minhas mãos enquanto Carla secava algumas louças e Júlia organizava os últimos ingredientes na geladeira.
Suspirei, sentindo aquele cansaço bom de quem trabalhou bastante.
Kamilly = Finalmente acabou — murmurei.
Carla olhou para mim com um sorriso cansado.
Carla = Ainda bem. Se chegasse mais um pedido de massa hoje eu ia fugir pela janela.
Eu ri enquanto tirava meu avental.
Kamilly = Você fala isso todo dia.
Júlia entrou na conversa.
Júlia = Mas hoje ela quase fugiu mesmo.
Carla levantou as mãos dramaticamente.
Carla = Vocês não entendem o sofrimento de uma artista da culinária.
Eu balancei a cabeça rindo.
Kamilly = Artista dramática você quis dizer.
Dona Teresa apareceu mais uma vez na porta da cozinha.
Dona Teresa = Meninas, vocês arrasaram hoje.
Ela sempre fala isso no final do expediente. E, de alguma forma, sempre faz a gente se sentir orgulhosa.
Carla = Então amanhã a gente ganha aumento?
Dona Teresa riu.
Dona Teresa = Sonhar não custa nada.
Todas nós rimos.
Peguei minha bolsa que estava pendurada em uma cadeira.
Kamilly = Bom… eu vou indo.
Carla veio me abraçar rapidamente.
Carla = Boa noite, escritora misteriosa.
Júlia também me abraçou.
Júlia = E vê se escreve logo esses capítulos.
Kamilly = Sem pressão nenhuma, né?
Carla = Nenhuma.
Eu ri enquanto caminhava até a porta.
Kamilly = Boa noite, meninas.
Carla e Júlia = Boa noite!
Saí do restaurante e senti o ar da noite tocar meu rosto.
A cidade já estava bem mais calma. Algumas luzes dos prédios iluminavam a rua, e o som distante de carros passava ocasionalmente.
Comecei a caminhar em direção ao meu prédio.
O caminho não é longo, e eu até gosto desse momento do dia. É quando minha cabeça começa a desacelerar depois do trabalho.
Algumas ideias para minhas histórias até aparecem nessas caminhadas.
Depois de alguns minutos, cheguei ao meu prédio.
Ele não é grande nem luxuoso.
Na verdade… é bem simples.
Mas é meu lar.
Assim que entrei no saguão, vi o porteiro sentado atrás da pequena mesa da portaria.
Ele levantou os olhos imediatamente e abriu um sorriso.
Seu Antônio.
Uma das pessoas mais simpáticas que eu conheço.
Kamilly = Boa noite, seu Antônio.
Antônio = Boa noite, menina Kamilly.
Ele sempre me chama assim.
Antônio = Chegando do trabalho?
Kamilly = Como sempre.
Ele sorriu.
Antônio = Tenha uma boa noite.
Kamilly = O senhor também.
Enquanto caminhava em direção às escadas, pensei no quanto gosto dele e da esposa dele.
Eles são aquele tipo de pessoas raras hoje em dia.
Gentis.
Educados.
Sempre sorridentes.
A esposa dele às vezes fica ali na portaria também, e sempre pergunta como foi meu dia ou se eu estou comendo direito.
É impossível não gostar deles.
Subi as escadas do prédio devagar.
Meu apartamento fica no terceiro andar.
Não é grande.
Na verdade… ele é minúsculo.
Mas funciona.
Principalmente porque eu divido ele com minha amiga Ana.
Cheguei na porta e peguei minhas chaves.
Assim que entrei, tranquei a porta atrás de mim.
Silêncio.
Coloquei minha bolsa em cima do sofá pequeno da sala.
kamilly = lá doce lá — murmurei.
A primeira coisa que fiz foi ir direto para o banheiro.
Depois de um dia inteiro na cozinha, a única coisa que eu queria era um banho quente.
Abri o chuveiro e deixei a água cair sobre meus ombros.
Fechei os olhos por alguns segundos.
O cansaço começou a ir embora lentamente.
Alguns minutos depois, saí do banho me sentindo muito melhor.
Coloquei uma roupa confortável e fui para a pequena cozinha do apartamento.
Meu estômago já estava reclamando.
Abri a geladeira e comecei a procurar alguma coisa simples para comer.
Acabei preparando algo rápido.
Nada muito elaborado.
Depois de comer, peguei meu celular e sentei no sofá.
Era hora de ligar para Ana.
Ela estava viajando a trabalho e só voltaria amanhã.
O telefone chamou algumas vezes até ela atender.
Ana = 'Kamilly!"
Sorri imediatamente.
Kamilly = "Ei!"
Ana = "Como você está?"
Kamilly = "Cansada, mas viva."
Ana riu do outro lado da linha.
Ana = "O restaurante estava cheio?"
Kamilly = "Muito."
Ana = "Eu não acredito que perdi o molho especial de hoje."
Kamilly = "Você sempre perde quando viaja."
Ana = "Injusto."
Kamilly = "Quando você volta mesmo?"
Ana = "Amanhã à tarde."
Kamilly = "Ótimo. Esse apartamento fica estranho sem você."
Ana = "Aposto que você está escrevendo agora."
Olhei para o notebook em cima da mesa.
Kamilly = "Ainda não… mas vou começar."
Ana = "Então vai logo. Eu quero novos capítulos."
Revirei os olhos.
Kamilly = "Até você?"
Ana = "Sempre."
Conversamos mais alguns minutos até nos despedirmos.
Ana = "Boa noite, Kamilly."
Kamilly = "Boa noite, Ana."
Desliguei o celular e o silêncio voltou para o apartamento.
Peguei meu notebook e sentei no sofá.
Abri o documento do meu livro.
As palavras do último capítulo apareceram na tela.
Sorri levemente.
Era aqui que minha verdadeira aventura começava todos os dias.
Coloquei os dedos no teclado.
Respirei fundo.
E comecei a escrever. ✍️📖