CAPÍTULO: 3

1502 Words
– A PRIMEIRA JOGADA** **DANTE** Outro dia na jaula. A cela fedia a mofo e ferrugem, um espaço apertado e imundo onde ratos passavam sem medo. O colchão era fino, duro, como se quisessem lembrar a todos ali dentro que o conforto era um privilégio, não um direito. Mas eu não me importava. Nunca fui um homem apegado a luxos. Minha rotina na prisão era a mesma de sempre. Acordei cedo, tomei um banho gelado, fumei um cigarro barato e observei. Era o que eu fazia de melhor. Observava os fracos sendo esmagados, os idiotas brigando por besteiras e os guardas fingindo que estavam no controle. Eles achavam que mandavam aqui. Mas eu sabia a verdade. Mesmo preso, **ainda era eu quem movia as peças desse jogo.** Hoje, no entanto, algo diferente aconteceria. A psiquiatra. Diziam que ela era jovem. Brilhante. Que veio para entender minha mente. Eu ri sozinho. Se ela entrou nesse jogo achando que vai me estudar, logo vai perceber que está do lado errado do tabuleiro. --- A sala de interrogatório era fria, m*l iluminada. O cheiro de café barato e metal enferrujado impregnava o ar. E então a porta se abriu. Ela entrou. E por um instante, algo em mim ficou… atento. Ela era diferente das mulheres que eu estava acostumado a ver. Não era magra como aquelas modelos sem alma que se jogavam aos meus pés nos tempos de liberdade. **Ela era abundante.** Sim. Esse era o termo. **Abundante.** Não gorda, mas cheia. **Coxas grossas que pressionavam o tecido da saia. Quadris largos, de mulher feita. s***s fartos, pesados, marcando a blusa de tecido fino. Braços e pernas cobertos, mas eu sabia que havia carne ali, calor ali.** Uma mulher feita para ser segurada. Para ser sentida. Minha língua passou pelos dentes enquanto eu a analisava. **O tipo de corpo que pedia mãos grandes e firmes.** O tipo de corpo que se encaixaria perfeitamente no meu. E então vi seu rosto. Pele alva, quase delicada demais para esse lugar imundo. **Uma boca que me deixou duro no instante em que a vi.** Carnuda, rosada, daquelas que foram feitas para mordidas e promessas proibidas. E os olhos. Verdes. **Verde veneno. Verde abismo. Verde perdição.** Ela puxou a cadeira e se sentou à minha frente, mantendo a postura ereta. Tentava parecer no controle. Mas eu vi quando seu peito subiu e desceu rápido demais. Ela sentiu. A tensão. A presença. **A faísca que já estava queimando entre nós.** Puxou um caderno, deslizando a ponta da caneta pelos lábios enquanto decidia por onde começar. **Minha ereção pulsou.** **AURORA:** Senhor Valessi, sou a doutora Aurora Castelli. Inclinei a cabeça, observando-a como um predador observa uma presa. **DANTE:** Doutora. Ela esperou que eu dissesse algo mais. Não disse. **AURORA:** Fui designada para analisá-lo. **DANTE:** Você acredita que pode entender minha mente? Ela hesitou um segundo. Pequeno. Quase imperceptível. Mas eu vi. **AURORA:** Toda mente pode ser compreendida. **DANTE:** E a sua, dottoressa? Você se entende? Seus lábios se entreabriram. **Ah, essa eu peguei desprevenida.** **AURORA:** Eu não sou o paciente aqui. **DANTE:** Mas eu gosto de entender as pessoas com quem converso. O que te trouxe aqui, Castelli? O desejo de consertar monstros ou de entender o que os faz funcionar? Ela me olhou nos olhos. Interessante. **Ela não desviou.** **AURORA:** Ambos. Bom. Ela sabia jogar. Mas eu jogava melhor. **AURORA:** Quero começar com uma pergunta simples. Você sente remorso por seus crimes? Sorri. **DANTE:** Você sente remorso por alguma coisa, doutora? **AURORA:** Eu não estou sendo avaliada. **DANTE:** Mas estou curioso. Pessoas como você… sempre tão certinhas, tão morais… mas todo mundo tem segredos, não tem? Ela fechou os lábios, respirando fundo antes de responder. **AURORA:** A moralidade não é tão simples, Dante. **DANTE:** Ah, eu sei. Me inclinei sobre a mesa, meus olhos travando nos dela. **DANTE:** É uma linha tênue, não é? Entre certo e errado. Entre curiosidade e obsessão. Entre desejo e medo. Seus olhos brilharam com algo novo. **Eu a estava atingindo.** **AURORA:** Você está tentando me manipular. Sorrindo, me recostei na cadeira. **DANTE:** Se estivesse, você saberia? Ela apertou a caneta entre os dedos. **Ela estava tentando se agarrar ao controle.** Eu poderia jogá-la nesse jogo até ela perder completamente a noção de quem era. Poderia puxá-la para meu mundo, arrastá-la para onde eu quisesse. Mas eu queria mais. **Queria quebrá-la.** Queria que ela própria atravessasse a linha, que sentisse o gosto do perigo e não quisesse mais sair. Eu a observava como um escultor observa um pedaço de mármore antes de transformá-lo em arte. **E Aurora Castelli seria minha obra-prima.** Ela se levantou, ajeitando a saia sobre suas coxas generosas. **AURORA:** Acho que já falamos o suficiente por hoje. **DANTE:** Está fugindo de mim, dottoressa? Ela me lançou um olhar frio. **Mas eu vi suas mãos tremendo.** **AURORA:** Não seja ridículo. **DANTE:** Então volte para o seu lugar. Ainda temos tempo, meu pequeno doce. Ela hesitou. Olhou para a porta. Mas ficou. Ah… **Ela queria continuar o jogo.** E eu já sabia que seria o vencedor. Ela apenas se sentou novamente, e me fez mais uma pergunta, que claro que a deixei sem resposta. AURORA: Porque matou aquelas pessoas? O que tinha lá que o fez não pensar nas vidas inocentes que tinha lá? Que o fez ajir por impulso, pois você parace tudo senhor vallaci menos impulsivo, DANTE: Quem sabe outra hora conversamos Aurora... Pois você não é como os outros Dottoressa. Ela se levantou foi a até a maçaneta da porta, abriu e saiu e me deixou ali sozinho com meus pensamentos pecaminosos. *Narrado por Aurora Castelli* O silêncio da cela ainda reverberava dentro de mim. Desde que Dante Valessi abriu a boca e me desarmou com palavras afiadas, algo dentro de mim se remexeu de um jeito que eu não conseguia controlar. Caminhei para fora daquela sala sentindo os batimentos do meu coração pulsarem em minha garganta, a respiração curta, como se meu próprio corpo não soubesse lidar com aquela situação. Meu peito subia e descia de maneira descompassada, e minhas mãos estavam frias, apesar do calor do ambiente. Ele não fez nada além de falar. E, ainda assim, me desestruturou inteira. Pelo corredor, tentei recompor a minha postura, endireitei os ombros, respirei fundo e apertei o passo até alcançar meu escritório. Cada centímetro do meu corpo estava tenso, como se minha própria pele estivesse prestes a estourar. Me joguei na cadeira e encarei o reflexo no vidro da janela. Meus olhos... havia algo diferente neles. Eu ainda estava ali, mas ao mesmo tempo, sentia que algo dentro de mim estava mudando. Dante me chamou de "doce". Ele percebeu minha hesitação. Ele entendeu, em minutos, que havia algo em mim esperando para ser libertado. Passei a mão pelo rosto, tentando apagar a sensação de sua voz ecoando na minha mente. Sua forma de falar era controlada, estudada... Ele não apenas escolhia as palavras com precisão, ele as usava como armas. **Aurora:** (murmurando para si mesma) Eu não sou fraca... Minhas mãos deslizaram pela mesa, procurando algum apoio, até que encontrei os relatórios sobre Dante Valessi. Peguei o primeiro da pilha e o abri, relendo cada linha, tentando encontrar algo que me ajudasse a entender como ele conseguia ser tão perspicaz. Filho de um dos maiores chefes da máfia italiana, estrategista frio e meticuloso, acusado de diversos crimes, e, ainda assim, permaneceu intocável até ser traído pelo próprio pai. Mas as palavras no papel não capturavam o que eu vi em seus olhos. O prazer que brilhou neles quando percebeu que me afetava. Meu telefone vibrou na mesa. Peguei o aparelho e vi a mensagem do Dr. Moretti. **Dr. Moretti:** *Aurora, como foi sua primeira sessão com Valessi?* Mordi o lábio inferior, meus dedos pairando sobre o teclado. O que eu poderia responder? Que ele jogou comigo? Que me testou? Que fez meu coração acelerar de uma forma que nenhum outro homem fez? Não. **Aurora:** *Ele é perspicaz. Consegue identificar fraquezas rapidamente.* A resposta veio quase de imediato. **Dr. Moretti:** *Não deixe que ele encontre as suas.* Minhas mãos apertaram o celular, e por um momento, senti um frio na espinha. Tarde demais. Fechei os olhos e respirei fundo. Eu precisava recuperar o controle. Dante Valessi era um criminoso perigoso. Eu era a psiquiatra encarregada de analisá-lo. Isso precisava ficar claro na minha mente. Levantei-me e fui até o pequeno armário no canto da sala, onde eu guardava alguns livros e documentos. Meus dedos deslizaram pela lombada de um dos livros de psiquiatria criminal que mais admirei na minha época de estudos. Mas, ao abrir o livro, não encontrei respostas. Minhas próprias reações estavam me assustando mais do que qualquer diagnóstico que eu pudesse dar para Dante Valessi. Eu me sentei novamente, passando as mãos pelos cabelos, enquanto tentava ignorar a lembrança de sua voz grave, rouca e envolvente. **Dante:** *Você não é como os outros, Dottoressa.* Ele me enxergou. E eu odiava admitir que isso me fazia querer voltar àquela cela.
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