CAPÍTULO: 4

820 Words
### **O Jogo Começa*** *Narrado por Dante Valessi* Traguei o cigarro lentamente, sentindo a fumaça preencher meus pulmões antes de soltá-la pelo canto dos lábios. No outro braço, girava o copo de uísque, observando o reflexo do líquido dourado na luz fraca da cela. O silêncio do presídio era cortado pelo som ocasional de passos no corredor e murmúrios abafados entre os detentos. Mas nada disso me incomodava. O que me atormentava de verdade era o tédio. Suspirei e fechei os olhos por um instante, e como um reflexo inevitável, minha mente voltou para ela. Aurora Castelli. A doce doutora que tentava me analisar como se eu fosse apenas mais um caso clínico. Ela acreditava que podia me estudar, decifrar minhas motivações, talvez até "me ajudar". Mas, no final da nossa primeira sessão, eu vi nos olhos dela que ela não estava preparada para mim. E isso era delicioso. A forma como sua respiração vacilou, como seus olhos hesitaram por um segundo a mais do que deveriam... Eu já tinha feito rachaduras na muralha dela. Era apenas questão de tempo até que desmoronasse completamente. O som metálico da grade da cela se abrindo me trouxe de volta. Abri os olhos e vi um dos guardas me encarando com a expressão neutra de sempre. — Valessi, tem visita. Meu peito se aqueceu por um segundo, e senti algo parecido com excitação percorrer minha espinha. Será que era ela? Será que a doutora Castelli não conseguiu resistir e voltou antes do esperado? Um sorriso torto surgiu em meus lábios enquanto apagava o cigarro no cinzeiro improvisado ao lado da cama. Virei o resto do uísque, sentindo o calor do álcool se espalhar por minha garganta, e me levantei. Segui o guarda pelo corredor, cada passo lento e controlado. Meu coração batia mais forte, mas não era ansiedade—era puro desejo de ver até onde esse jogo nos levaria. Mas assim que entrei na sala de visitas, toda a minha expectativa se desfez. Lá estava ele. Dr. Luiz Moretti, meu advogado, sentado à minha espera, com aquela maleta de couro e o olhar sério de sempre. Bufei, sentindo o tédio retornar com força total. — E eu que achei que teria uma surpresa agradável… — murmurei, fechando a cara enquanto puxava a cadeira e me sentava de frente para ele. — Alguma novidade, Dr. Luiz, ou veio só me tirar do sério? O advogado pigarreou, ajeitando os óculos antes de responder. — Senhor, venho pedir que colabore nas próximas sessões com a doutora. Já foi uma, agora faltam apenas três. Use essa médica ao seu favor para sair daqui. Seu pai ainda está no controle da situação, e até que ele mude de ideia, essa é a sua melhor chance. Cruzei os braços, observando o homem à minha frente. Ele realmente acreditava que eu queria sair daqui? Se fosse só isso, eu já teria encontrado um jeito. O problema não era a prisão. O problema era a humilhação de estar aqui, trancado como um animal, por culpa do próprio sangue. Mas Luiz não precisava saber disso. Em vez disso, dei um sorriso lento e perigoso. — Você quer que eu jogue bem o papel do paciente arrependido? — Quero que faça o suficiente para que acreditem que você pode ser tratado. Se seu pai achar que há esperança para você, talvez recue. Eu ri baixo, balançando a cabeça. — Meu pai sempre soube que eu não tenho salvação, Luiz. Ele não quer me recuperar. Ele quer me controlar. O advogado não respondeu. O silêncio dele já dizia tudo. Estiquei as pernas e recostei-me na cadeira, estudando suas expressões. Ele sabia que eu estava certo. Mas tudo bem. Eu podia jogar o jogo dele. — Certo… eu posso brincar um pouco. Luiz ajeitou a gravata, parecendo aliviado. Pobre homem, ainda achava que estava no controle da situação. Mas antes que ele pudesse se levantar, levantei um dedo. — Mas eu quero um favor. Ele me olhou com desconfiança. — Que tipo de favor? Inclinei-me para frente, apoiando os antebraços na mesa. — Quero que investigue a vida da doutora Aurora Castelli. Tudo. Parentes, amigos, passado, presente... Quero que ela seja vigiada vinte e quatro horas por dia. A e preciso de um celular com chip, e com o número dela. Vi a hesitação no olhar dele. — Dante... isso não faz parte do plano. Sorri devagar. — Agora faz. O advogado respirou fundo, como se já previsse o que viria. — Isso pode complicar ainda mais sua situação. — Ou pode me dar a vantagem que eu preciso. Nos encaramos por um longo tempo. Eu via o conflito nos olhos dele, a dúvida entre seguir o que era certo e fazer o que eu mandava. No final, eu sabia qual lado ganharia. E, como esperado, ele suspirou e cedeu. — Vou ver o que posso fazer. Sorri satisfeito. Esse era só o começo.
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