DANTE VALESSI
Segunda-feira, 08h00.
Ela voltou.
Aurora Castelli entrou naquela sala como se estivesse no controle. Tão convicta, tão determinada. Mas eu já a quebrei uma vez, e não demorará para que isso aconteça de novo.
Eu observo cada detalhe. O modo como ela segura a prancheta com força, como se fosse um escudo. Como tenta manter a respiração controlada. Mas seu corpo fala muito mais do que suas palavras.
Ela tem medo.
E desejo.
O medo, ela tenta esconder. O desejo, ela sequer percebe.
Ela quer acreditar que está no comando, que pode me fazer seguir suas regras. Mas aqui dentro, bambina, a única lei que importa é a minha.
Sento-me à sua frente e aproveito cada segundo do jogo.
Aurora não sabe brincar, mas eu ensino.
E quando deslizo as algemas dos pulsos e as deixo cair sobre a mesa com um som metálico, vejo a exata fração de segundo em que ela percebe que está presa comigo.
Ou melhor… que sempre esteve.
Eu poderia matá-la agora.
Simples. Rápido. Sem vestígios.
Mas onde estaria a graça nisso?
Aurora Castelli não merece um fim banal.
Ela merece ser degustada. Lentamente. Como um vinho raro. Como algo valioso demais para ser desperdiçado.
E quando finalmente a tiver? Quando ela perceber que foi minha desde o momento em que nossos olhares se cruzaram?
Ah… Esse será o meu triunfo.
Mas não hoje.
Hoje, eu apenas planto a dúvida em sua mente. Deixo que ela se debata entre o medo e a fascinação.
Jogo as palavras certas, as insinuações exatas.
— Me lembrei de algo… Eu adoro mulheres de b***a grande e branquinha para cima.
Ela congela.
E então, o golpe final.
— E a sua, Aurora… é a melhor.
Silêncio.
Por um instante, acho que ela pode desmaiar. O choque, a perplexidade. Ela não sabe como reagir.
E eu amo isso.
Levanto-me, deixando a provocação ecoar no ar. Peço ao guarda que me leve, mas minha mente permanece com ela.
Ela pensa que pode fugir de mim.
Que pode trancar portas e janelas e se esconder.
Mas o problema, bambina, é que o perigo já não está do lado de fora.
Está dentro dela.
Eu estou dentro dela.
E não há escapatória.
09h15
O guarda tranca a cela atrás de mim, mas ele sabe tão bem quanto eu que essa jaula não me contém. Não de verdade.
Meus olhos percorrem o espaço estreito. As paredes de concreto frio, a cama dura, a pequena janela que deixa entrar um fio de luz pálida. Tudo temporário. Tudo insignificante.
Me sento na cama, giro os pulsos, sentindo a leve ardência da pressão das algemas. Aurora. O nome dela ecoa na minha mente, junto com a imagem dos olhos arregalados, da respiração presa. Ela é forte, disciplinada. Mas está vulnerável, e eu já encontrei as rachaduras.
Sorrio para mim mesmo.
Hora de preparar meu retorno.
Pego o celular escondido debaixo do colchão – um presente bem pago para um dos guardas. O sistema penitenciário pode ser impenetrável para alguns, mas para mim? Nada mais do que uma rede de negócios onde cada peça tem um preço.
Disco o número e aguardo. Dois toques. Três. Até que uma voz grave e familiar atende.
— Capo.
Fecho os olhos por um instante, absorvendo a familiaridade da saudação. Já faz tempo demais.
— Lucca.
— Você demorou para ligar.
— Eu gosto de dar um tempo para o meu pai e os conselheiros acharem que têm o controle sobre mim e minhas ações, apenas entrei no jogo deles, porque quando eu voltar e meu pai me passar o poder de vez aí não terá mais jogos, terão que engolir as minhas regras.
Lucca ri baixo do outro lado da linha.
— O que quer que eu faça?
— Prepare tudo. Vamos sair dessa droga de lugar em breve.
Silêncio. Apenas por um segundo. E então a resposta vem, firme e sem hesitação.
— Diga quando.
Meu sorriso se alarga.
— Muito em breve.
Ele entende. Não há necessidade de detalhes. Lucca sabe que, se eu estou dando esse aviso, significa que os planos já estão em movimento.
— E o território? — pergunto.
— Seguro. Mas os desgraçados da família Marchesi estão farejando oportunidades. Acreditam que você está fora do jogo.
— Então mostre a eles que eu nunca saí.
— Considere feito.
Desligo o celular e o escondo de volta no colchão. O relógio interno da minha mente começa a girar, calculando cada peça no tabuleiro.
Eu estive longe tempo demais.
Está na hora de lembrar ao mundo quem é Dante Valessi.
E quando eu voltar… Aurora Castelli será minha.