Narrado por Aurora Castelli
Segunda-feira, 08h00. Estou de volta ao presídio.
Dessa vez, não hesito. Passo pela segurança sem vacilar, minhas mãos firmes segurando a prancheta com as anotações sobre Dante Valessi. Hoje, ele não vai me desestabilizar. Hoje, eu comando essa sessão.
A sala de interrogatório é a mesma de sempre. Fria. Cinza. Opaca. Mas a presença dele… essa preenche cada centímetro do ambiente.
A porta se abre. Ele entra.
Ele anda como se fosse livre. Como se as algemas não significassem nada. Como se aquele uniforme não o fizesse menos perigoso. Seu olhar encontra o meu, e um sorriso lento se forma em seus lábios.
DANTE: Dottorezza, você voltou. Que surpresa.
Cruzo as pernas e aperto a caneta entre os dedos. Não vou ceder ao seu jogo.
AURORA: Vamos direto ao ponto. Preciso que me fale sobre sua relação com seu pai e os motivos que o levaram à prisão.
Ele se inclina para frente, descansando os antebraços sobre a mesa de metal, os olhos me analisando como se me despisse ali mesmo, camada por camada.
DANTE: E eu preciso que você pare de fingir que sua vida tem algum sabor.
Meu coração erra uma batida.
AURORA: O que quer dizer com isso?
Ele não responde de imediato. Apenas me observa, como se estivesse se divertindo com minha inquietação. Então, com uma calma insuportável, ele começa a falar.
DANTE: Você se levanta todos os dias às 5h30 da manhã. Toma um café fraco, sem açúcar, porque acha que o açúcar pode causar dependência. Pega sempre a mesma rota até o hospital. Você não gosta de desviar o caminho. Gosta de rotina. De controle.
Minha boca seca.
DANTE: Seu colar de cruz entrega que você é devota. Sua postura ereta, impecável, e a forma obsessiva como arruma seus papéis a cada cinco minutos dizem que você não suporta o caos. Que passa as noites sozinha em casa, revisando relatórios, certificando-se de que cada maldito detalhe está perfeito.
Meu peito aperta.
DANTE: Você não gosta de lugares barulhentos. Odeia quando alguém invade seu espaço pessoal. — Ele sorri de lado. — Mas o que mais me fascina… é o seu olhar.
AURORA: Meu olhar?
DANTE: Sim. — Ele inclina a cabeça, avaliando-me como se fosse um experimento científico. — Você tem o olhar de quem nunca foi tocada. De quem nunca se permitiu sentir. Seu corpo grita isso. A maneira como cruza as pernas firmemente, como se quisesse impedir algo. Como toca seu próprio pescoço quando está nervosa. Como morde os lábios sem perceber.
AURORA: Você está enganado.
DANTE: Oh, bambina... Eu nunca me engano.
Minha respiração está acelerada. Minhas mãos apertam a prancheta com mais força do que o necessário. Ele está jogando comigo. Me desmontando.
Mas eu não vou ceder.
AURORA: Se acha que esse jogo psicológico vai funcionar comigo, está enganado.
DANTE: Enganado?
Ele ri. Baixo. Arrastado.
Então, diante dos meus olhos, ele puxa os braços para frente. As algemas deslizam dos seus pulsos e caem sobre a mesa com um clank metálico.
Meu sangue gela.
Ele se levanta lentamente, e de repente, o espaço entre nós parece pequeno demais.
Meu coração dispara. Minha mente já desenha todas as formas como ele pode me matar naquele instante. Poderia me estrangular com as algemas. Poderia usar as mãos, tão grandes e fortes, e me esmagar contra a parede.
Pior que o medo, porém, é o calor traiçoeiro que escorre pelo meu ventre.
Que droga está acontecendo comigo?
DANTE: A doutorezza não era para estar aqui… Mas já que está, vamos jogar.
Sua voz rouca vibra no ar, e meu corpo reage antes da minha mente. Empurro a cadeira para trás, tentando colocar alguma distância entre nós.
AURORA: Ou você responde às minhas perguntas, senhor Dante, ou abandonarei o seu caso. Direi ao diretor para deixá-lo apodrecer nesta prisão. Não estou aqui para joguinhos, estou aqui para trabalhar.
Ele me encara. Lento. Profundo. Como se pudesse ver através da minha pele.
DANTE: Olha só… A doutorezza tem garras. Gostei disso.
Ele levanta os pulsos, me mostrando as algemas soltas.
DANTE: Você realmente acha que estou aqui porque essa prisão me segura? No, bambina. Estou aqui porque quero estar. Estou descansando. Mas quando eu decidir sair… eu saio.
Meu estômago se revira.
AURORA: Isso não me importa. Ou continuamos com as sessões, ou damos um fim a isso.
Ele estreita os olhos, como se avaliasse meu limite. E então, como se não houvesse uma única barreira entre nós, ele sussurra:
DANTE: Me lembrei de algo… Eu adoro mulheres de b***a grande e branquinha para cima.
O choque me atinge em cheio.
DANTE: E a sua, Aurora… é a melhor.
O mundo ao meu redor some. Meu coração para.
Ele tem me observado.
Ele sabe.
Droga.
Meu stalker… Só pode ser ele.
Minha mente grita, mas meu corpo não reage. Não consigo dizer nada. Não consigo gritar, ameaçar ou xingá-lo como deveria.
E Dante percebe. Ele sorri.
DANTE: Nos vemos em breve, dottorezza.
Ele se vira e caminha até a porta. Antes que eu possa recuperar o controle, ele já está pedindo ao guarda que o leve.
E então, ele se foi.
Mas o peso da sua presença ainda está ali.
Dirijo para casa olhando para os lados, sentindo cada sombra como um alerta. Tranco todas as portas, todas as janelas.
Mas não importa quantos trincos eu feche.
Porque, no fundo, eu sei.
Dante Valessi me vê.
E o pior de tudo?
Eu senti algo quando ele me viu.
Algo que eu não deveria sentir!.