A sala do conselho estava silenciosa naquela noite. a Rainha Ariela e Rei Inácio estavam tensos. Pela primeira vez em muitos anos, não havia conselheiros, criados ou guardas por perto — apenas os dois.
Ariela caminhava lentamente de um lado ao outro, as mãos entrelaçadas, o olhar distante.
— Eu sinto que estamos prestes a perder o controle. — disse ela, com a voz baixa, quase falhando.
O rei permaneceu imóvel por alguns segundos antes de responder. Ele observava a chama de uma vela como se buscasse nela alguma resposta.
— não se precipite, minha rainha. — murmurou ele. — a morte de Daniel foi uma tragédia horrível. ninguém estava esperando algo assim.
Ariela parou de andar, encarando o marido.
— E agora… em três meses, Josefina será coroada rainha de Frosthal. — Sua voz carregava preocupação e medo. — Quando isso acontecer, ninguém mais poderá questionar suas decisões. Nem nós.
Inácio suspirou profundamente, passando a mão pelos cabelos.
— Ela poderá decretar que nunca irá se casar… e será o fim de qualquer esperança de aliança para o reino.
— E para o coração dela também — completou Ariela, com tristeza. — Eu tenho medo, Inácio — confessou a rainha, com os olhos marejados. — Medo de que ela transforme essa dor em gelo permanente… que governe sem amor, sem confiança… sem permitir que ninguém se aproxime.
O rei finalmente se virou para ela, o semblante firme, mas os olhos carregados de emoção.
— Josefina sempre foi forte. Mas até os mais fortes podem se quebrar… — Ele fez uma pausa, pensativo. — Precisamos agir antes da coroação.
Ariela franziu a testa.
— Agir? Você quer obrigá-la a se casar?
— Não — respondeu ele, balançando a cabeça. — Isso só a afastaria ainda mais. Mas talvez… possamos mostrar a ela que nem todo amor termina em tragédia.
A rainha o observou, ainda insegura.
— E como faremos isso?
Inácio deu alguns passos em direção à janela, olhando para o reino coberto pela neve.
— Aproximando-a da vida novamente. Das irmãs… do povo… talvez até de alguém que não represente uma obrigação… mas uma escolha. vamos agir com cautela.
Ariela respirou fundo, absorvendo aquelas palavras.
— Então temos três meses… — disse ela, quase para si mesma.
— Três meses — confirmou o rei. — Antes que o coração de nossa filha se torne tão frio quanto as terras de Frosthal.
O quarto de Josefina estava mergulhado em silêncio. A neve caía suavemente do lado de fora, cobrindo Frosthal como um manto branco e frio — exatamente como ela se sentia por dentro.
Sentada à escrivaninha, à luz de uma vela quase no fim, Josefina abriu lentamente seu diário. Suas mãos tremiam levemente, não de frio… mas do peso das palavras que insistiam em sair.
Ela respirou fundo e começou a escrever.
"Hoje eu finalmente encontrei coragem para escrever sobre você, Daniel… ou talvez eu só tenha cansado de fugir."
"Ainda parece mentira. Ainda parece que a qualquer momento você vai atravessar aquela porta, sorrindo, dizendo que tudo não passou de um m*l-entendido cruel."
"Mas não foi."
Josefina fechou os olhos por um instante, sentindo o aperto no peito crescer.
"Você se foi… e eu nem consegui me despedir."
"Eu não fui ao seu enterro."
"Não porque eu não quis… mas porque eu não consegui. Eu não tive forças para ver você sendo colocado no chão, para aceitar que aquilo era o fim."
"Me disseram que uma futura rainha deve ser forte. Mas que tipo de força é essa que exige que eu finja que não estou quebrada?"
Ela apertou a pena com mais força, a respiração falhando por um momento.
"Agora todos esperam algo de mim. Esperam que eu continue. Que eu sorria. Que eu governe."
"Daqui a três meses… eu serei rainha de Frosthal."
"E quando esse dia chegar, ninguém mais poderá me obrigar a nada."
A escrita ficou mais firme, quase dura.
"Nem a amar."
Um silêncio tomou conta do quarto. Josefina encarou aquelas palavras por alguns segundos… como se estivesse selando um destino.
"Porque amar só traz dor. Amar me tirou você. E eu não vou permitir que isso aconteça de novo. Eu, Josefina, futura rainha, faço aqui uma promessa…"
Ela hesitou por um breve instante… mas continuou.
"Eu nunca mais vou amar ninguém."
"Nunca mais."
Josefina fechou o diário com força, como se estivesse tentando aprisionar aquela dor ali dentro.