sentimentos ocultos

964 Words
O quarto estava silencioso, exceto pelo leve assobio do vento que entrava pelas frestas da janela. Do lado de fora, a neve caía lentamente, cobrindo tudo com um manto branco e frio. Isabella estava parada próxima à janela, abraçando os próprios braços, com o olhar perdido na paisagem. — Claro… — murmurou, com um sorriso amargo. — Por que seria diferente? Ela desviou o olhar da neve e começou a andar pelo quarto, inquieta. — Leonel pode falar com quem quiser… rir com quem quiser… — disse, tentando soar indiferente, mas a voz falhou no final. Ela parou diante do espelho, encarando o próprio reflexo. — E por que isso me incomoda tanto? — perguntou, quase num sussurro. Isabella respirou fundo, irritada consigo mesma. — É só uma empregada… Georgina… — o nome saiu carregado de ciúmes. — E mesmo assim… Ela apertou as mãos, lembrando da cena no jardim. O jeito como Leonel havia olhado, como havia falado… aquilo não saía da sua cabeça. — Ele nunca me olha assim… — admitiu, com o coração apertado. Por um instante, seus olhos brilharam, como se lágrimas ameaçassem surgir, mas ela rapidamente se recompôs. — E nem deve. — endireitou a postura. — Eu sou uma princesa. Ele é apenas um empregado. isso seria impossível. ela parou, respirou fundo e finalmente disse; — Então por que dói tanto? — confessou, finalmente, deixando a verdade escapar. Em uma ala mais simples do palácio, longe dos salões luxuosos e dos corredores movimentados, Leonel estava encostado em uma mesa de madeira, as mãos apoiadas com força sobre a superfície. — Isso precisa parar… — murmurou para si mesmo, passando a mão pelos cabelos. — Não pode continuar assim. Ele soltou um suspiro pesado, fechando os olhos por um instante, como se tentasse afastar um pensamento insistente. — Uma princesa… — disse, quase com um riso sem humor. — Logo ela… Leonel se afastou da mesa, começando a andar de um lado para o outro, inquieto. — Eu devia manter distância. É o certo. É o único caminho. — sua voz saiu mais firme, como se tentasse convencer a si mesmo. Mas bastou lembrar do olhar de Isabella no jardim para que ele parasse no meio do quarto. — Mas aquele olhar… — sussurrou, com o coração acelerando. — Como se… Ele balançou a cabeça, interrompendo o próprio pensamento. — Não. Não posso nem pensar nisso. Nesse momento, a porta se abriu suavemente, e Georgina entrou, observando-o com curiosidade. — Leonel? — chamou, franzindo a testa. — Você está estranho… aconteceu alguma coisa? Ele se virou rapidamente, como se tivesse sido pego em flagrante, e forçou um semblante tranquilo. — Não, não é nada — respondeu, rápido demais. — Só… cansaço. Georgina deu alguns passos para dentro do quarto, ainda desconfiada. — Cansaço? — repetiu. — Você está andando de um lado para o outro como se estivesse fugindo de alguém. Leonel soltou um leve riso, tentando disfarçar. — Talvez eu esteja fugindo do trabalho — brincou, desviando o olhar. — Muita coisa para fazer hoje. Ela cruzou os braços, analisando-o por um momento, mas acabou cedendo. — Se você diz… — respondeu, embora ainda não totalmente convencida. Georgina se aproximou mais um pouco. — Se precisar conversar, sabe que pode contar comigo. Leonel assentiu, sem encará-la diretamente. — Eu sei… obrigado. Ela ficou ali por mais alguns segundos, como se esperasse que ele dissesse mais alguma coisa, mas ao perceber o silêncio, apenas deu de ombros. — Vou deixar você descansar então. Assim que Georgina saiu e a porta se fechou, o silêncio voltou a tomar conta do ambiente. — Se eu começar a falar… — murmurou — não vou conseguir parar. Ele olhou na direção da porta, pensativo. — E é melhor ninguém saber… principalmente ela. O quarto de Josefina permanecia mergulhado em um silêncio quase sufocante. As cortinas estavam parcialmente abertas, deixando à mostra a neve que caía sem parar lá fora — fria, constante… quase c***l. Sentada próxima à janela, Josefina mantinha o olhar fixo no vazio, como se buscasse respostas na imensidão branca. — Um acidente… — murmurou, com a voz baixa e carregada de descrença. — É isso que todos dizem. Mas não faz sentido… Ela fechou os olhos por um instante, tentando organizar os pensamentos que insistiam em se atropelar. — Daniel era cuidadoso… atento… ele jamais se colocaria em risco daquela forma. A lembrança do sorriso dele surgiu em sua mente, seguida de uma dor aguda no peito. Josefina respirou fundo, contendo a emoção. — E por que não me deixaram vê-lo? — sua voz saiu mais firme agora. — Por que tanta pressa em encerrar tudo? por que o seu caixão já estava fechado no velório? Ela se levantou lentamente, caminhando pelo quarto com passos calculados, mas tensos. — Disseram que era melhor assim… que eu precisava ser forte… — ela soltou uma leve risada amarga. — Forte o suficiente para aceitar mentiras? Josefina parou no centro do quarto, o olhar endurecendo. — Não… isso não foi um acidente. O silêncio pareceu concordar com ela. — Foi rápido demais… limpo demais… conveniente demais. Seus olhos brilharam, não de lágrimas, mas de algo mais perigoso: determinação. — Daniel foi assassinado. As palavras ecoaram no quarto, pesadas, irreversíveis. Ela voltou-se novamente para a janela, encarando a neve com uma intensidade quase ameaçadora. — E alguém dentro deste palácio sabe disso… Seu coração acelerou, mas, dessa vez, não era dor — era um início de algo novo. — Eu vou descobrir a verdade. eu vou descobrir quem matou Daniel, custe o que custar. Josefina ergueu o queixo, a postura firme, diferente da princesa abatida de antes. — Mesmo que eu tenha que enfrentar todos. A dor começava, lentamente, a se transformar em justiça.
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