O quarto estava silencioso, exceto pelo leve assobio do vento que entrava pelas frestas da janela. Do lado de fora, a neve caía lentamente, cobrindo tudo com um manto branco e frio. Isabella estava parada próxima à janela, abraçando os próprios braços, com o olhar perdido na paisagem.
— Claro… — murmurou, com um sorriso amargo. — Por que seria diferente?
Ela desviou o olhar da neve e começou a andar pelo quarto, inquieta.
— Leonel pode falar com quem quiser… rir com quem quiser… — disse, tentando soar indiferente, mas a voz falhou no final.
Ela parou diante do espelho, encarando o próprio reflexo.
— E por que isso me incomoda tanto? — perguntou, quase num sussurro.
Isabella respirou fundo, irritada consigo mesma.
— É só uma empregada… Georgina… — o nome saiu carregado de ciúmes. — E mesmo assim…
Ela apertou as mãos, lembrando da cena no jardim. O jeito como Leonel havia olhado, como havia falado… aquilo não saía da sua cabeça.
— Ele nunca me olha assim… — admitiu, com o coração apertado.
Por um instante, seus olhos brilharam, como se lágrimas ameaçassem surgir, mas ela rapidamente se recompôs.
— E nem deve. — endireitou a postura. — Eu sou uma princesa. Ele é apenas um empregado. isso seria impossível.
ela parou, respirou fundo e finalmente disse;
— Então por que dói tanto? — confessou, finalmente, deixando a verdade escapar.
Em uma ala mais simples do palácio, longe dos salões luxuosos e dos corredores movimentados, Leonel estava encostado em uma mesa de madeira, as mãos apoiadas com força sobre a superfície.
— Isso precisa parar… — murmurou para si mesmo, passando a mão pelos cabelos. — Não pode continuar assim.
Ele soltou um suspiro pesado, fechando os olhos por um instante, como se tentasse afastar um pensamento insistente.
— Uma princesa… — disse, quase com um riso sem humor. — Logo ela…
Leonel se afastou da mesa, começando a andar de um lado para o outro, inquieto.
— Eu devia manter distância. É o certo. É o único caminho. — sua voz saiu mais firme, como se tentasse convencer a si mesmo.
Mas bastou lembrar do olhar de Isabella no jardim para que ele parasse no meio do quarto.
— Mas aquele olhar… — sussurrou, com o coração acelerando. — Como se…
Ele balançou a cabeça, interrompendo o próprio pensamento.
— Não. Não posso nem pensar nisso.
Nesse momento, a porta se abriu suavemente, e Georgina entrou, observando-o com curiosidade.
— Leonel? — chamou, franzindo a testa. — Você está estranho… aconteceu alguma coisa?
Ele se virou rapidamente, como se tivesse sido pego em flagrante, e forçou um semblante tranquilo.
— Não, não é nada — respondeu, rápido demais. — Só… cansaço.
Georgina deu alguns passos para dentro do quarto, ainda desconfiada.
— Cansaço? — repetiu. — Você está andando de um lado para o outro como se estivesse fugindo de alguém.
Leonel soltou um leve riso, tentando disfarçar.
— Talvez eu esteja fugindo do trabalho — brincou, desviando o olhar. — Muita coisa para fazer hoje.
Ela cruzou os braços, analisando-o por um momento, mas acabou cedendo.
— Se você diz… — respondeu, embora ainda não totalmente convencida.
Georgina se aproximou mais um pouco.
— Se precisar conversar, sabe que pode contar comigo.
Leonel assentiu, sem encará-la diretamente.
— Eu sei… obrigado.
Ela ficou ali por mais alguns segundos, como se esperasse que ele dissesse mais alguma coisa, mas ao perceber o silêncio, apenas deu de ombros.
— Vou deixar você descansar então.
Assim que Georgina saiu e a porta se fechou, o silêncio voltou a tomar conta do ambiente.
— Se eu começar a falar… — murmurou — não vou conseguir parar.
Ele olhou na direção da porta, pensativo.
— E é melhor ninguém saber… principalmente ela.
O quarto de Josefina permanecia mergulhado em um silêncio quase sufocante. As cortinas estavam parcialmente abertas, deixando à mostra a neve que caía sem parar lá fora — fria, constante… quase c***l.
Sentada próxima à janela, Josefina mantinha o olhar fixo no vazio, como se buscasse respostas na imensidão branca.
— Um acidente… — murmurou, com a voz baixa e carregada de descrença. — É isso que todos dizem. Mas não faz sentido…
Ela fechou os olhos por um instante, tentando organizar os pensamentos que insistiam em se atropelar.
— Daniel era cuidadoso… atento… ele jamais se colocaria em risco daquela forma.
A lembrança do sorriso dele surgiu em sua mente, seguida de uma dor aguda no peito. Josefina respirou fundo, contendo a emoção.
— E por que não me deixaram vê-lo? — sua voz saiu mais firme agora. — Por que tanta pressa em encerrar tudo? por que o seu caixão já estava fechado no velório?
Ela se levantou lentamente, caminhando pelo quarto com passos calculados, mas tensos.
— Disseram que era melhor assim… que eu precisava ser forte… — ela soltou uma leve risada amarga. — Forte o suficiente para aceitar mentiras?
Josefina parou no centro do quarto, o olhar endurecendo.
— Não… isso não foi um acidente.
O silêncio pareceu concordar com ela.
— Foi rápido demais… limpo demais… conveniente demais.
Seus olhos brilharam, não de lágrimas, mas de algo mais perigoso: determinação.
— Daniel foi assassinado.
As palavras ecoaram no quarto, pesadas, irreversíveis.
Ela voltou-se novamente para a janela, encarando a neve com uma intensidade quase ameaçadora.
— E alguém dentro deste palácio sabe disso…
Seu coração acelerou, mas, dessa vez, não era dor — era um início de algo novo.
— Eu vou descobrir a verdade. eu vou descobrir quem matou Daniel, custe o que custar.
Josefina ergueu o queixo, a postura firme, diferente da princesa abatida de antes.
— Mesmo que eu tenha que enfrentar todos.
A dor começava, lentamente, a se transformar em justiça.