O som dos sinos ecoava por todo o reino.
A tempestade de neve persistente lá fora caía sobre os jardins do palácio, como se até o céu lamentasse aquela perda. Vestida de preto, com o olhar vazio e a postura impecável, a princesa Josefina permanecia imóvel diante do caixão.
Daniel estava ali.
Ou melhor… o que restava dele.
O homem que havia prometido amá-la, protegê-la e caminhar ao seu lado como rei… agora era apenas uma memória fria, selada por mistérios que ninguém ousava explicar.
Josefina não chorava.
Não havia lágrimas.
A dor era tão profunda que ultrapassava qualquer expressão humana. Era um abismo silencioso dentro dela.
Atrás, o murmúrio da corte preenchia o ambiente — conselheiros, nobres e convidados cochichavam teorias, suspeitas… e medo.
— Foi um acidente… — alguém sussurrou.
— Não, há algo errado nisso… — respondeu outro.
Josefina ouviu.
Ela sempre ouvia.
Mas não reagia.
Seus olhos permaneceram fixos, duros, como se o mundo tivesse perdido completamente a cor.
Uma mão tocou suavemente seu braço.
— Irmã… — disse Catarina, em voz baixa, contendo o choro. — Você precisa descansar.
Josefina virou o rosto lentamente.
Catarina estava com os olhos vermelhos. Ao lado dela, Helena tentava se manter firme, enquanto Isabella já não escondia as lágrimas.
Suas irmãs.
— Ele está morto. — A voz de Josefina saiu fria, cortante. — Descansar não vai trazê-lo de volta.
Helena respirou fundo.
— Nós sabemos… mas você não precisa enfrentar isso sozinha.
Josefina sustentou o olhar da irmã por alguns segundos. Havia algo ali… quase como uma emoção tentando escapar.
Mas então…
más, então sumiu.
— Eu estou sozinha. — afirmou, simplesmente.
As palavras foram como uma sentença.
Sem esperar resposta, Josefina deu um passo à frente, aproximando-se do caixão. Seus dedos tocaram a madeira escura com delicadeza, como se aquele fosse o último elo entre ela e o passado.
— Promessas são frágeis… — murmurou, quase inaudível. — E o amor… ainda mais.
Catarina arregalou levemente os olhos.
— Josefina, não diga isso…
Mas já era tarde.
A princesa ergueu o queixo, assumindo novamente sua postura impenetrável. Quando se virou, não havia mais dor visível — apenas gelo.
A futura rainha.
A mulher que o reino aprenderia a temer.
— Este será o último funeral que assisto por amor. — declarou, com firmeza. — Porque eu não amarei novamente.
As irmãs se entreolharam, alarmadas.
— Você não pode decidir isso! — disse Isabella, entre lágrimas. — O amor não—
— O amor é uma fraqueza. — interrompeu Josefina.
E dessa vez, não havia espaço para contestação.
Ela começou a caminhar, deixando para trás o salão, o corpo de Daniel… e tudo o que um dia sentiu por ele.
Cada passo ecoava como um decreto.
Quando atravessou as grandes portas do salão, os guardas imediatamente se curvaram. Os olhares se voltaram para ela — alguns com respeito, outros com receio.
Josefina não olhou para ninguém.
Ela já não pertencia mais àquele mundo de sentimentos.
No alto da escadaria, parou por um instante.
O céu continuava chorando por ela.
Mas Josefina não.
Nunca mais.
E naquele momento… nasceu uma nova Josefina.
Fria.
Intocável.
Perigosa.
Atrás dela, Catarina segurou o braço de Helena, desesperada.
— E agora? — sussurrou.
Helena observava a irmã mais velha desaparecer pelo corredor.
Seus olhos carregavam preocupação… e um pressentimento sombrio.
— Agora… — respondeu, tensa — tudo mudou.
E no fundo de seu coração, ela sabia:
A morte de Daniel não era apenas uma tragédia.
Era o começo de algo que poderia destruir aquela família…
Ou o reino inteiro.