o silêncio da Coroa

596 Words
O som dos sinos ecoava por todo o reino. A tempestade de neve persistente lá fora caía sobre os jardins do palácio, como se até o céu lamentasse aquela perda. Vestida de preto, com o olhar vazio e a postura impecável, a princesa Josefina permanecia imóvel diante do caixão. Daniel estava ali. Ou melhor… o que restava dele. O homem que havia prometido amá-la, protegê-la e caminhar ao seu lado como rei… agora era apenas uma memória fria, selada por mistérios que ninguém ousava explicar. Josefina não chorava. Não havia lágrimas. A dor era tão profunda que ultrapassava qualquer expressão humana. Era um abismo silencioso dentro dela. Atrás, o murmúrio da corte preenchia o ambiente — conselheiros, nobres e convidados cochichavam teorias, suspeitas… e medo. — Foi um acidente… — alguém sussurrou. — Não, há algo errado nisso… — respondeu outro. Josefina ouviu. Ela sempre ouvia. Mas não reagia. Seus olhos permaneceram fixos, duros, como se o mundo tivesse perdido completamente a cor. Uma mão tocou suavemente seu braço. — Irmã… — disse Catarina, em voz baixa, contendo o choro. — Você precisa descansar. Josefina virou o rosto lentamente. Catarina estava com os olhos vermelhos. Ao lado dela, Helena tentava se manter firme, enquanto Isabella já não escondia as lágrimas. Suas irmãs. — Ele está morto. — A voz de Josefina saiu fria, cortante. — Descansar não vai trazê-lo de volta. Helena respirou fundo. — Nós sabemos… mas você não precisa enfrentar isso sozinha. Josefina sustentou o olhar da irmã por alguns segundos. Havia algo ali… quase como uma emoção tentando escapar. Mas então… más, então sumiu. — Eu estou sozinha. — afirmou, simplesmente. As palavras foram como uma sentença. Sem esperar resposta, Josefina deu um passo à frente, aproximando-se do caixão. Seus dedos tocaram a madeira escura com delicadeza, como se aquele fosse o último elo entre ela e o passado. — Promessas são frágeis… — murmurou, quase inaudível. — E o amor… ainda mais. Catarina arregalou levemente os olhos. — Josefina, não diga isso… Mas já era tarde. A princesa ergueu o queixo, assumindo novamente sua postura impenetrável. Quando se virou, não havia mais dor visível — apenas gelo. A futura rainha. A mulher que o reino aprenderia a temer. — Este será o último funeral que assisto por amor. — declarou, com firmeza. — Porque eu não amarei novamente. As irmãs se entreolharam, alarmadas. — Você não pode decidir isso! — disse Isabella, entre lágrimas. — O amor não— — O amor é uma fraqueza. — interrompeu Josefina. E dessa vez, não havia espaço para contestação. Ela começou a caminhar, deixando para trás o salão, o corpo de Daniel… e tudo o que um dia sentiu por ele. Cada passo ecoava como um decreto. Quando atravessou as grandes portas do salão, os guardas imediatamente se curvaram. Os olhares se voltaram para ela — alguns com respeito, outros com receio. Josefina não olhou para ninguém. Ela já não pertencia mais àquele mundo de sentimentos. No alto da escadaria, parou por um instante. O céu continuava chorando por ela. Mas Josefina não. Nunca mais. E naquele momento… nasceu uma nova Josefina. Fria. Intocável. Perigosa. Atrás dela, Catarina segurou o braço de Helena, desesperada. — E agora? — sussurrou. Helena observava a irmã mais velha desaparecer pelo corredor. Seus olhos carregavam preocupação… e um pressentimento sombrio. — Agora… — respondeu, tensa — tudo mudou. E no fundo de seu coração, ela sabia: A morte de Daniel não era apenas uma tragédia. Era o começo de algo que poderia destruir aquela família… Ou o reino inteiro.
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