O escolhido

1832 Words
Ano de 2097, 81 anos após a vitória. Terceira geração, 12 anos. Hunter parou na sacada do grande palácio projetado em um estilo quase medieval. Respirou fundo, sentindo a brisa leve daquela manhã e tentou olhar o mais longe que aqueles muros permitiam. O palácio do rei ficava próximo ao centro do reino de Ashara e era a torre mais alta, podendo ver tudo à volta, até onde os muros eram construídos, que apesar de distantes, era muito visível à noite. O pequeno Baynes sempre teve curiosidade sobre porque era tão escuro e assustador além daqueles muros. — Imaginei que estaria aqui, você sempre faz isso pela manhã. — disse o Baynes mais velho, chegando perto do filho e acariciando seus cabelos um tanto longos. — Eu ainda não consigo entender porque o lado de fora desses muros são tão diferentes do que eu conheço, é como se tudo lá fora estivesse… morto. — disse o garoto, olhando para o pai com uma careta triste e confusa. — Agora que esta chegando perto do seu aniversário de treze anos talvez seja o momento de conhecer um pouco mais sobre nossa história. Devo dizer que ela não é tão bonita como os livros contam, mas foi necessário. — colocou a mão no ombro do filho. — Eu sou um alfa e queria tanto que fosse um também, assim poderia assumir o trono sem que ninguém te questione, foi o que aconteceu comigo. Eu era jovem, mas já tinha ideia do que queria para esse reino, eu queria um povo feliz e igual. Ninguém dentro desses muros é melhor que ninguém ou tem mais que ninguém. Todos são iguais. Eu desejei felicidade genuína, ainda que não tenha sido fácil e meu pai tenha me deixado um legado, assim como deixarei a você, eu conquistei aquilo que almejei. — suspirou — Além daqueles muros vivem o que chamamos de exilados. Eles não tem uma classificação e nem um dom. São chamados de inúteis para essa sociedade e por isso vivem lá. Deveriam ter o bom senso de parar de procriar, mas eles parecem gostar da miséria em que vivem. — as palavras do rei a respeito daquela população pareciam carregadas de desdém. — Você foi quem os levou para além dos muros? — perguntou curioso, não conhecia essa parte da história. — Não, essa foi uma decisão do primeiro rei. Quando me tornei rei tomei algumas outras decisões que foram definitivas para essas pessoas durante o que ficou conhecido por nós como Grande Revolta. Quanto aos muros, estes existem há muito tempo, eles foram levantados na época da Guerra Auroria. Hunter estava ponderando sobre o que aquilo significava, não queria dizer nada de forma precipitada, mas desde o início nunca concordou com as ideias do rei. Ainda que não soubesse como aquilo funcionava, ainda que sua tenra idade não lhe desse um bom discernimento, não conseguia pensar que aquilo era uma coisa boa. Na escola era contado a história de como um vírus assolou a humanidade, como foi difícil a reconstrução do mundo e como agora a terra era mais seca e em muitos lugares não poderia ser feito plantio devido aos milhares de corpos que foram enterrados. Diversas foram zonas abandonadas, pois ninguém queria viver sobre um cemitério de milhares. Pessoas aglomeradas em pequenas aldeias ao redor do mundo tentando reconstruir tudo que foi destruído pelo vírus e pelas guerras, tentando ter tudo que a sociedade tinha na antiguidade. Mas nada vem com um passo a passo e saber que existia não era o suficiente para projetar novamente. Hunter seguiu olhando para o longe, absorto nos seus pensamentos sobre aquele passado, sobre aquelas decisões. — Senhor, meu pai disse que mandou me chamar. — um garoto alto anunciou, chegando próximo ao rei e fazendo uma reverência. Seus cabelos negros levemente ondulados davam destaque na pele um tanto bronzeada. Apesar de ainda em seus doze anos, Charles já tinha um corpo forte e com músculos, também era alto e isso chamava a atenção de Hunter a longas distâncias. O garoto havia nascido como um alfa e se destacava entre os demais. Principalmente seus olhos. — Ah, sim. Hunter, este é Charles Parker, filho do meu melhor soldado. Foi uma ótima escolha, filho. — o homem sorriu. Hunter olhou para o Parker com olhos frios e nenhuma expressão, tentando esconder que seu coração batia acelerado porto daquele alfa, ainda aos seus doze anos. Alguns dias atrás seu pai avisou que deveria ter um guarda ao seu lado, era um ômega em crescimento, filho do rei, precisava ter proteção e já que não queria um adulto, então precisava de alguém capacitado ainda em juventude. Hunter negou de início, mas olhando os meninos treinando para seu futuro protegendo a cidade, apontou para o que aceitaria como guarda. Apontou para o menino que lhe deixava com o coração disparado mesmo que não fizesse nada para isso, já que nem haviam conversado uma vez sequer. Ainda não sabia seu nome, apenas que era alto, forte e o seu cheiro lhe era mais atrativo do que deveria em sua tenra idade. Charles seguiu parado, encarando os olhos escuros de Hunter e tentando decifrar o porque ele parecia até enraivecido, sendo que nunca trocara uma única palavra com ele. Mesmo sendo filho do guarda real, não tinha muito contato com o rei ou seus filhos. — Charles, espero que tome o posto do seu pai um dia. Quando meu filho for rei, espero que consiga protegê-lo como deve e então sua família sempre estará segura. — prometeu o Baynes mais velho e o Parker sabia o que aquilo significava. Sabia do laço entre as famílias que salvou sua vida um dia. Charles Parker sabia que devia sua vida ao rei, ainda que em seu âmago preferisse a morte do que uma vida de servidão. — Será uma honra, senhor. — disse, reverenciando novamente, pondo seu joelho direito no chão. Hunter encarava a cena com um gosto amargo na boca, não gostava de ver o outro garoto daquela forma. Suspirou e deu as costas novamente, voltando a olhar pela varanda. — Nos veremos amanhã cedo no horário da escola, senhor Parker. Por hora pode voltar para a lama com seus amigos. — por mais duras que as palavras de Hunter parecessem, essas não eram suas verdadeiras intenções, não era forma de insultar o menino, mas porque gostava de vê-lo brincar na lama com seus amigos. Sempre o via lutando com espadas de madeira e sujo de lama. Mas não foi com essa entonação que as palavras foram recebidas. Hunter Baynes era diferente, ele tinha mais do que a luz em suas veias, ele tinha a cura que o mundo precisava, mas ainda não sabia disso naquela época. Ele era um ômega poderoso como ninguém, bondoso como ninguém, mas foi criado em um ambiente venenoso e hostil, não sabia expressar os sentimentos que nunca lhe foram ensinados. ✘✘✘ Aquela era uma segunda-feira gelada, o fim de um inverno rigoroso. Hunter ficou em frente à porta do palácio de braços cruzados, impaciente à espera de Charles. Por ele iria caminhando até a escola, não é como se aquela cidade fosse gigante, era quase como uma ilha que pudesse percorrer por inteiro andando, mas claro, com uma condução as coisas se tornavam mais rápidas. — Não precisava vir tão cedo para a porta, vamos à cavalo e vamos chegar mais rápido do que quando outros guardas te levam. — disse Charles em um tom calmo, mas também um tanto ríspido. — Eu não ligo de perder tempo aqui, só que hoje está frio pra c*****o. — xingou baixinho, estendendo a mão para o Parker, que não demorou a segura-la e deixar o garoto montar no cavalo atrás de si. — Nossa, como você é quente. — suspirou. As mãos de Hunter passaram pela cintura do guarda, a intenção que era segurar-se logo tornou-se um abraço, esquentando seu próprio corpo no calor alheio, parando de tremer aos poucos. — Faço exercícios pela manhã, meu corpo esquenta por causa disso, recomendo a você também. Um futuro rei não deveria ser tão mirrado. — comentou, começando a cavalgada em direção a única escola da cidade. — Eu sou mais forte do que imagina, senhor Parker. Além disso, achei que você fosse um servo ou algo assim, não deveria se dar tantas liberdades na minha presença. O garoto estalou a língua no céu da boca. — Senhor Baynes, príncipe, temos a mesma idade. Sou apenas um pouco mais novo para ser sincero. O rei pediu para que fossemos amigos, ou pelo menos agíssemos como tal. A ideia de você não ter mais homens gigantes ao seu redor é justamente parecer que pode ter uma vida normal. — Ué, e eu não posso? — Sabemos que não. Você será um rei e todos odiarão isso. Seu pai tem um filho alfa, mas seu primogênito foi um ômega, quase uma desonra… As palavras morrem aos poucos e Hunter parou para pensar sobre como o pai parecia sempre lhe preparar para a revolta do povo quando fosse um rei. — Um ômega agora não tem força para ser um rei? — Para o povo não. Um ômega é mais fraco, seus dons são mais fracos do que quem pode dominar terra ou ar. Para mim? Claro que tem, vocês não fazem nada mesmo, só mandam. — sorriu com escárnio. Hunter ficou um tanto ofendido ao ouvir aquelas palavras, apertando mais os braços na cintura do alfa como punição. — Às coisas não são assim… — Se houver uma guerra sua família irá para a batalha ou serão os soldados? Sua família irá cozinhar ou serão os empregados? Se você for atacado sairia ferido ou seria eu? Vocês só mandam e os de classe mais baixa, aqueles que não vem de uma linhagem que ganhou uma guerra, obedecem. E eu vou garantir que sempre te obedeçam. — disse com certa amargura. Charles Parker não tinha sonhos, nunca se deu o direito a sonhos, sabia que sua família tinha uma dívida com a família Baynes e uma vida de serviço era o mínimo para o pagamento, ainda que preferia ter aceitado o destino ao nascer do que viver sob as garras do reino por toda sua vida miserável. — Você… você sabe? — Hunter perguntou, sua mão levemente trêmula. O alfa estranhou a pergunta, olhando por cima de seu ombro com o cenho franzido. — Você sabe? — devolveu a pergunta, seus olhos em um tom de cobre cintilavam. — Seus olhos… — o Baynes olhou curioso. Charles suspirou com alívio, ele não sabia sobre seu maior segredo. Voltou a olhar para frente e a guiar o cavalo em direção à escola. Hunter suspirou em tristeza, ele não sabia sobre a ligação que tinham. Ele não sabia o elo que os ligava. Mas o Baynes soube desde o primeiro momento que o viu. O escolheu pois sabia que Charles era o seu alfa.
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