Ano de 2098, 13 anos do príncipe.
Era dia da sua primeira aula de aprimoramento de dons com a professora Patricia Parker, mãe de Charles.
Os dons de Hunter afloraram consideravelmente cedo, já que alguns alfas conseguiam descobrir seus dons somente aos dezesseis anos em treinamento para isso com o ministro de guerra Shelter.
Não era novidade para ninguém que seu dom seria de luz, este dom foi recebido por sua família há mais de um século, começando com seu avô, quando ainda criança tomou a vacina para doença de Chronos. Aos vinte e poucos anos usando todos os seus dons para enfrentar exércitos, aprendendo sozinho como poderia manipular a própria luz para salvar seus homens feridos e deixando um diário para suas futuras gerações de como seu próprio dom ia muito além de ser apenas uma luz. Após ele, seu pai Derek Baynes também nasceu com os dons da luz e já era esperado que Hunter também os tivesse, assim como seus filhos, passando adiante os dons de um rei. Seus irmãos mais novos, de apenas cinco anos, Hayes e Harper já pareciam ter uma aura brilhante e vívida em torno de si mesmos, dando indícios de quem eram filhos.
— Bom dia, crianças. Podem se sentar, vamos ter uma pequena introdução antes de ir para a quadra de práticas. — sorriu docemente.
A mulher puxou para frente da sala um quadro n***o que estava no canto, deixando mais em frente ao alunos.
— Para quem não me conhece, sou a professora de prática e aperfeiçoamento Patrícia Parker. Alguns de vocês já viram meu marido Ellijah pela cidade, já que ele é um guarda real. — sorriu feliz. — Se estão na aula comigo, independente de sua idade, quer dizer que já passaram pelo despertar de seus dons. E não se preocupem, não há idade para isso. Se conhecem algum amigo mais velho que ainda não passou por esse despertar, ele irá para a aula de evocação com o ministro Shelter. Mas não há como um só alfa ou ômega nesta cidade não ter um dom, seja ele qual for, já deve ser conhecido por vocês que os únicos que nascem sem dons são aqueles que nascem sem classificação.
A mulher seguiu com as explicações de como surgiram os dons e como foi o primeiro despertar, a devastação que causou ao mundo.
Era completamente proibido o uso de seus dons fora das aulas de prática antes da idade adulta, antes de ser designado a uma função onde poderia usá-los com segurança, se assim quisesse.
— Professora. — chamou Kayne, levantando a mão. — A senhora explicou que alfas costumam ter os dons de vento, trovões e terra enquanto os ômegas possuem dons de luz, água, cura e gelo. Mas e quanto a mim? Sou ômega e meu dom é terra.
A senhora Patrícia sorriu.
— Isso é o que os livros costumam dizer. Majoritariamente aconteceu dessa forma, mas não é algo fixo. Estamos trabalhando na evolução da nossa sociedade e o que eu acredito é que os dons de nossos filhos é a mistura do que nós temos a oferecer também, a mistura da nossa genética. — sorriu. — Meu dom é o domínio do ar, Kayne.
O garoto concordou animado, sentindo-se mais confortável com seu próprio dom.
— Mas e seu filho? Ele tem dom de quê? — perguntou outro aluno, mais ao fundo da sala.
Hunter sentia-se curioso quanto a isso também, tinha certeza que Charles havia tido seu despertar muito antes dele, mas nunca o viu em um único treinamento.
— Infelizmente ele ainda não descobriu, mas acredito que será o dom do ar também. Os alfas com o domínio da terra com o pai dele costumam perceber isso bem cedo.
Hunter sabia que aquilo era mentira, não só pelas reações do corpo de Charles que demonstravam que seu dom havia despertado há muito tempo, mas naquela manhã ouviu secretamente uma conversa entre o rei e o senhor Parker sobre Charles precisar morar no palácio, que era feito de pedra. O surgimento de seus dons parecia necessitar de tal isolamento. Então sabia que ela estava mentindo. Mas guardou para si mesmo.
Após mais algumas perguntas, todos foram para fora, para a quadra de treinamentos.
Os alunos se posicionaram em uma grande fileira, tentando expressar seu dom de forma contida em frente a professora que os analisava.
Hunter bufou irritado, sentando no chão de grama da lateral da quadra de terra, sem vontade de participar da aula.
— Senhor Baynes, não gostou da minha aula? — senhora Parker sentou ao lado de Hunter, sorrindo docemente.
— Gostei, a senhora é maravilhosa. Só não tem necessidade pra mim, não é como se meu dom fosse grande coisa. — suspirou, fazendo uma pequena bola de luz em sua mão. — É só luz.
— Hoje a noite vai acontecer a celebração lunar, como acontece?
Hunter ficou um pouco confuso com a pergunta, mas vendo o sorriso animado da professora, respondeu o que achou que deveria.
— Meu pai vai fazer um banquete, vamos tocar instrumentos, cantar e dançar.
— Temos uma regra clara em Ashara, não cultuamos o fogo. Como vamos iluminar a praça esta noite?
— Meu pai irá acender a fogueira de luz.
A mulher concordou.
— Não é apenas luz. — sorriu. — Você já ouviu falar sobre o que seu avô fazia com seus dons. Senhor Baynes, o primeiro rei sabia até como curar seus soldados com o poder da própria luz. Ele usava sua energia como escudo para proteção de seus soldados. Não era apenas luz.
— E acha que eu posso fazer algo assim também?
— Acho que pode muito mais, precisamos só de treinamento. O que acha de começar agora e tentar junto com seus colegas?
O príncipe concordou feliz, levantando com a professora e voltando para a quadra com os demais colegas.
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Naquela noite aconteceria a celebração lunar devido ao solstício de verão, aquele era o dia em que a noite começaria mais tarde, marcando o início dos dias mais quentes.
Hunter passou horas se arrumando após a aula naquele dia, sabia que água era um recurso escasso e por isso não passou horas em um bom banho, mesmo que tivesse esse desejo. Mas passou horas passando creme em seu corpo por inteiro, escolhendo jóias e seu melhor traje hanfu, feito pela senhora Lu.
Saiu do palácio e caminhou em direção ao centro da cidade, assim como outros cidadãos, os cumprimentando no caminho até a praça, correndo para chegar até seus amigos.
Era mais de oito horas da noite, mas ainda permanecia dia, os músicos da cidade já começavam a combinar seus instrumentos para uma linda melodia. No centro da praça, ao redor da “fogueira” de luz acesa pelo rei.
Haviam violinos, tambores, banjo e gaita de fole, deixando o som daquela noite ainda mais agradável, juntamente da melodia que era cantada em coro pelos moradores.
O povo começou a se juntar, alguns esperando pelo banquete e outros já começando a dançar.
Assim como outras pessoas do reino, Hunter não demorou a chegar mais perto dos músicos, começando a dançar.
O príncipe fechou seus olhos, sentindo a música passando por seu corpo como uma corrente de energia. Começou balançando seu corpo levemente, abrindo seus braços, mas logo girou seu corpo, deixando os tecidos de seu traje voarem lhe fazendo parecer um pássaro. A seda branca abria-se em leque em volta de seu corpo, lhe fazendo parecer um ponto de luz no meio do reino, entretanto, os detalhes da costura da barra de seu traje eram vermelhos e laranja, enquanto seu corpo girava e as cores de mostravam, era como se o fogo estivesse subindo por suas pernas, sendo barrado pela luz, pela cor branca que compunha a maior parte da roupa. Balançando-se no ritmo das cordas, levantando as mãos para o céu esperando o momento do surgimento da Lua, tão amada pelo povo de Ashara. Seu brilho prateado parecia refletir os dons dos reis.
Ainda de olhos fechados, o príncipe não percebeu que o povo parou para assisti-lo dançar, emocionado com sua entrega na espera. Hunter dançava com um sorriso nos lábios e a aura prateada rodeava seu corpo, demonstrando não apenas seu dom de luz, mas que era completamente feito dela.
— Acho que já deu. — o garoto abriu seus olhos, vendo Charles parado em frente a ele.
O alfa estava com uma sobrancelha erguida o encarando. O que fez o príncipe murchar um tanto seu sorriso, deixando transparecer o quanto estava ofegante com o exercício, já que não tinha o hábito de se exercitar de nenhuma forma além da dança ocasional.
— Você vai acabar liberando seu dom e isso é proibido. — sussurrou para o garoto, que olhou para as próprias mãos, as vendo refletir toda a sua luz.
Hunter olhou em volta e percebeu que todos o olhavam.
— Eu gosto de música. — respondeu um tanto triste respirando fundo algumas vezes, se concentrando em voltar ao normal.
— Eu sei. Você dançou de forma tão linda que a Lua deve ter se emocionado. — sussurrou apenas para o Baynes. — Vamos jantar, seu pai vai anunciar o banquete.
O príncipe deu seu melhor sorriso e sem pensar muito segurou o pulso de Charles, o puxando em direção ao banquete.
— Os dias de celebração são meus favoritos no ano.
O garoto sorriu fofamente e fez sinal com a outra mão para Charles se abaixar um pouco e andou furtivamente com ele para trás da mesa em que o banquete era servido. Hunter pegou um cálice de vinho de arroz e se abaixou, entrando embaixo da mesa e fazendo o Parker seguir o mesmo rumo.
— Esse é meu maior segredo, se contar a alguém eu mato você.
O alfa sorriu e provou o vinho, achando um pouco estranho de início, mas gostando.
— Eu nunca tinha feito isso. O vinho é apenas para os mais velhos. — disse o alfa.
— Eu sei. Essa é a graça. Estamos fazendo uma coisa gostosa e proibida. — sorriu, terminando de beber de seu cálice.
Charles lhe direcionou um sorriso cúmplice, concordando e também bebendo o vinho.
— Eu quero te dar um outro segredo. Posso?
O príncipe olhou esperançoso para o alfa, seu coração batendo forte contra o peito, tão forte que tinha certeza que dava para ouvi-lo à distância.
Engoliu em seco e concordou em silêncio, balançando a cabeça em afirmação.
O Parker tirou de dentro do tecido de suas vestes um colar com uma pedra com cores vermelho e laranja.
— Você sabe que à exploradores e pesquisadores que podem sair desses muros, que vão mais longe do que qualquer um jamais foi. — sorriu. — Eu conheço um deles, é amigo do meu pai e ele me trouxe uma pedra especial. — Charles entregou o colar para Hunter. — Aqui só usamos topázio braco para fazer as jóias. Muito mais do ser um minério que temos em abundância, é a cor do reino. O branco. A cor do dom dos reis. Mas há tantas coisas lindas nas cores, Hunter. E eu fiz esse colar para você, pedi apenas para que o senhor Baker deixasse eu mexer em suas ferramentas.
O príncipe segurou o colar com certo espanto, não era bem o que imaginou que aconteceria. Mas gostou. Gostou muito do presente.
— Eu prometo, senhor Parker, eu nunca vou tirar do pescoço. — disse com um ar debochado, sorrindo.
— Não diga besteiras. Você um dia terá que se casar e não pode se deitar com um homem usando o presente de outro.
Hunter sentiu as bochechas coradas e um sorriso bobo surgiu em seus lábios, talvez um pouco embriagado.
— Quando eu tiver idade, eu não quero outro alfa, eu quero me deitar com você. — Colocou o colar em seu pescoço. — Então não vai ter problema, porque vai ser você.