Ano de 2099, 14 anos do príncipe.
Era um dia chuvoso de inverno, Hunter ficou olhando para janela da sala de estar do palácio há espera de Charles e logo ele veio na charrete, se protegendo da chuva e parando bem em frente a porta para que Hunter subisse sem se molhar.
— Não entendo, eu já vi nos livros que haviam carros no tempo dos humanos, por que não podemos usar essa tecnologia a nosso favor? Você não acha que deveríamos ter sei lá? Carros ao menos? — reclamou já irritado.
Charles riu, não havia uma única manhã que Hunter não entrasse na charrete ou subisse na sela de seu cavalo sem reclamações.
— Você não entende o que foi a guerra, não é?! — perguntou de forma retórica, seguindo o caminho da escola. — Não temos mais os recursos necessários, não temos mais os especialistas necessários, faz muito pouco tempo desde a guerra, Hunter. Cem anos é um tempo ínfimo para a tecnologia. Nós voltamos à estaca zero, as fábricas foram destruídas, a matéria prima foi destruída e os nossos cientistas viraram soldados da linha de frente. A linha de frente é a primeira a morrer, caso não saiba. — suspirou em desagrado.
— Mas existem pessoas com conhecimento, não foi todo o engenheiro que morreu. — rebateu.
— Sim e esse conhecimento aos poucos é passado, é por isso que precisamos de estudo. Em mais alguns séculos seremos capazes de reconstruir. Os humanos leveram milhares anos para ter luz elétrica e nós já temos, sabemos como funciona, mas e o resto? Quem vai fabricar? De onde vamos tirar a matéria prima? O combustível? Vamos erguer uma fábrica de que modo? Temos pesquisadores em campo, precisamos de tempo para desenvolvimento. Além disso, precisaríamos trocar recursos com outras civilizações, mas os muros deste reino são selados e só se abrem para expansão dele mesmo, sem oportunidade para novas pessoas.
Hunter revirou os olhos e bufou frustrado.
— Você é chato, quer sempre ter razão e culpar minha família. — crispou os lábios e cruzou os braços, resmungando em seguida. — Entendo que a Guerra Auroria foi… foi muito difícil. E se não houvesse alfas do fogo isso não teria acontecido, mas acho que já deveríamos ter evoluído mais.
Charles parou a charrete de forma abrupta, olhando para o garoto.
— Acha que a culpa foi dos alfas do fogo e não da guerra? As pessoas defendem suas vidas como podem. — rebateu indignado.
— Dizimando milhares de soldados os queimando vivos? Queimando suas casas e suas famílias? Sem o fogo destruindo fábricas, florestas, casas, livros… acha que as coisas estariam assim?
— Ah, claro. Porque a atitude do seu avô de matar todos a noite enquanto dormiam, abrindo a terra para engolir o exército inimigo e suas famílias, foi muito menos c***l. Realmente, nada destrutivo. — ironizou, balançando as rédeas do cavalo para que voltasse a andar.
— Você fica muito doído, parece até que estava lá. Você também não era nascido e não sabe o que aconteceu de verdade. Meu avô tomou a decisão que salvou Ashara e nossa cidade se chama assim porque somos sobreviventes das cinzas daquela guerra. — quase gritou com o Parker.
— Sou seu servo, Hunter. Sei bem como essas coisas funcionam. — o tom de Charles era baixo e amargurado.
O garoto não discutiu novamente, permaneceu em silêncio até chegar na escola.
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Estavam em um intervalo entre os períodos, antes da educação física. Hunter já havia trocado seu uniforme e estava encostado no armário conversando com seus amigos, aguardando o sinal do início da aula. Charles chegou logo em seguida, parando atrás do garoto com os braços cruzados, como se estivesse analisando toda a cena.
— O que você quer? — o Baynes sussurrou, olhando o alfa por cima do ombro.
— Por que está de short? É inverno. — questionou irritado, vendo o garoto o olhar com as sobrancelhas erguidas.
— Esqueci de trazer o uniforme de educação física limpo e esse estava no armário, então coloquei… desde quando isso é da sua conta, senhor Parker? — perguntou com deboche.
— Você é da minha conta, sabe disso. — respondeu entre dentes, tão próximo ao rosto de Hunter que ele sentiu o hálito quente do alfa contra sua pele.
Charles era sempre muito quente, mesmo que em dias de neve, mesmo na chuva, no vento. Ele estava sempre quente.
— Se chegar mais perto eu vou suar. — brincou, soltando o ar pelas narinas em um quase sorriso de deboche.
— Não estou brincando com você, Baynes.
— Tá, tá… faz o seu trabalho de longe. — empurrou o alfa de leve, o fazendo se afastar.
E assim Charles o fez, indo para o outro lado do corredor um pouco mais a frente, olhando ao redor e não mais para o garoto ou para as coxas dele que estavam expostas.
— Imagina como esse garoto vai ser com o ômega dele, ele é super possessivo. — comentou Luna, olhando Charles e mordendo o lábio inferior.
— Meu guarda real não pode se casar. O dever dele é servir a mim e apenas a mim. — Hunter comentou, seus olhos presos no Park já distraído com outros colegas.
— Que horror, Hunter. Você não pode deixar o coitado viver uma vida assim, todos têm direito a uma família um dia. O que o ômega dele vai pensar quando o encontrar e ele não puder se casar? Já pensou nisso?
O garoto levou a mão até o colar presenteado, feito de ágata de fogo que usava no pescoço, seus olhos ainda observando o alfa com quase ciúmes dos sorrisos que ele dava aos amigos. Os dedos delineados brincando com a jóia que nunca tirava. Era seu hábito.
— Não importa, ele já cruzou com o ômega dele e nunca percebeu. O dever real é mais forte do que o laço eterno.
— Você sabe quem é o ômega dele? — Luen, irmão mais velho de Luna, perguntou curioso.
O sinal para a aula tocou e Charles olhou para o príncipe, assim que os olhos se cruzaram, o ômega pareceu acordar do transe.
— Vamos, está na hora da aula. — mudou de assunto, seguindo rapidamente para a quadra.
Alfas e ômegas correriam pelo ambiente, o suor proliferando os cheiro dos feromônios de um jeito que deixava Hunter até mesmo enjoado, principalmente somando a todo aquele barulho de risadas e o barulho dos calçados arranhando o chão. Não gostava muito das aulas de educação física, muito menos de ficar correndo pela quadra.
Não demorou a sentir Charles próximo demais de seu corpo.
— Relaxa, Parker. Pode sair do modo de guarda, estamos apenas em um ginásio do ensino médio.
— Você está desconfortável. Eu sinto. — Charles estava próximo demais novamente, quase sussurrando no ouvido de Hunter, que sentiu seu corpo arrepiar por inteiro.
O garoto bufou e empurrou o guarda.
— É muito alfa suado junto, é nojento. Mas nada demais, vai com seus amigos e me deixa com os meus. Eu sei me virar sozinho.
O príncipe seguiu seu rumo até os amigos no outro lado da quadra de vôlei. Luen e Luna Lu estavam sentados na arquibancada da quadra, enquanto Kayne Davis estava de pé em frente a eles, com os braços cruzados conversando e logo chegou Hunter, parando de pé ao lado do amigo.
— Charles não tira os olhos de você. — comentou Luna, fazendo-o olhar para trás, vendo que o Parker estava lhe encarando de braços cruzados enquanto conversava com seus amigos; Thomas Shelter e Roman Baker.
Thomas era o filho do ministro Shelter, um alfa assim como o pai, os cabelos curtos e loiros um tanto ondulados estavam bagunçados e o garoto brincava com uma bola de basquete. Já Roman era filho do ferreiro da cidade, a pele n***a parecia conter um brilho dourado em sua extensão, os cabelos longos eram enrolados em dreads e os lábios carnudos sempre continham um sorriso que parecia repleto de malícia, ainda que Roman nem tivesse idade para tais pensamentos.
— Ele anda insuportável, parece que me detesta, mas também não desgruda. — bufou, seus dedos retornando ao colar de forma ansiosa.
— É literalmente o trabalho dele, Hunter. Não leve para o pessoal, meu pai também está pensando em fazer o mesmo que o seu. — Kayne revirou os olhos apenas de pensar que o Marquês escolheria um cavalheiro qualquer para andar ao seu encalço.
O Baynes sorriu levemente e se aproximou do amigo, sussurrando em seu ouvido.
— Escolha o seu alfa.
— Hunter! — ouviu seu nome ser chamado com força e antes que pudesse virar em direção a Charles, percebeu a bola de vôlei zunindo ao lado de seu ouvido.
— Foi m*l aí. — um alfa de outra turma disse aos risos, correndo pela quadra.
— Precisa aprender a conter essa força! — gritou, pegando a bola que caiu no chão próximo a Luen e jogando novamente para o alfa.
— Nem acertou você, não reclama. — a irmã dele revirou os olhos, pegando a bola jogada pelo príncipe e se preparando para sacar em seguida.
Suspirou, dando as costas novamente e voltando à conversa com os amigos, aconteceu de modo tão abrupto que nem percebeu como havia ido parar no chão, caído em frente aos amigos.
Resmungou pelo joelho ralado e olhou para cima, seu corpo coberto pela sombra de Charles parado em sua frente, segurando a bola de vôlei.
Jeff havia usando o corte do vôlei novamente em sua direção, desta vez a bola acertaria em cheio suas costas, mas o Parker, como um fiel cavalheiro, foi mais rápido, já prevendo as ações do outro alfa.
— Eu vou enterrar essa bola no meio da sua cara, babaca! — Charles xingou, arremessando a bola em direção ao alfa novamente com toda sua força. — Perdeu a noção do perigo?
Estava pronto para andar em direção ao garoto e lhe dar uma lição, mas Hunter segurou-o pela barra da calça de linho.
— Chega, Parker. Você já fez muito por um dia. — chamou a atenção do alfa, que olhou em sua direção, vendo o joelho ralado sangrando.
Bufou irritado e estendeu a mão para o Baynes.
— Vamos, levanta. — ordenou, com a mão estendida em frente ao ômega. — Te levo até a enfermeira.
— Está bufando por quê? Eu quem deveria estar irritado. Você me empurrou no chão e me fez ralar o joelho.
— Se estivesse de calças como eu mandei, isso não teria acontecido.
Hunter revirou os olhos, dando a mão para o guarda e seguindo com ele para a enfermaria.
— Vocês acham quê…? — Luna deixou a pergunta no ar, olhando para Luen e Kayne.
— Parece… eles se odeiam e não vivem um sem o outro. — o Davis concordou.
A pergunta implícita era clara, era óbvia. Luna estava sentindo que havia algo além de trabalho com aqueles dois e não era a única.
— Com certeza. — Luen também concordou.
Charles levou Hunter até a enfermaria e colocou o garoto sentado na maca, pegou um borrifador com água e gaze, espirrando a água em abundância no ferimento para limpá-lo e depois secando o local sutilmente com a gaze estéril.
— Está ardendo muito. Você é um grosso. — deu um tapa no ombro de Charles, seria suficiente para empurrá-lo se o alfa não fosse tão forte.
Ele largou a gaze de lado, colocando as mãos na coxa do príncipe e apertando com certa força, mas não o bastante para marcar a pele.
— Se tivesse com a pele coberta, isso não teria acontecido. Você sabia que eles estavam te comendo com os olhos? Jeff Smith fez aquilo para me provocar, ele sabia que eu pegaria aquele bola de vôlei e eu deveria tê-lo feito engolir aquela merda, mas ele com certeza não me tiraria do sério se suas pernas estivessem dentro da p***a de uma calça. — disse entre dentes.
Charles estava tão perto, seus olhos eram profundos e Hunter não conseguia desviar o olhar deles, vendo a cor de cobre cintilando em suas íris.
O alfa era quente como inferno e o príncipe parecia ter apenas o desejo de ser um pecador e mergulhar nas trevas, sentir as chamas lhe queimar por inteiro.
Hunter segurou com força na maca, entreabrindo seus lábios e apenas encarando o Parker, como se esperasse por algo, ainda que soubesse que não receberia. As lufadas de ar quente contra seu rosto deixava seu coração batendo ainda mais forte, estavam próximos demais e isso estava a ponto de lhe causar reações em seu corpo.
Respirou fundo e saiu novamente daquele transe que se encontrava quando estava próximo demais do alfa, voltando a sua postura rígida e respondendo:
— Eu sou dono do meu corpo e faço o que eu quiser. — se recompôs. — Se eu quiser eu vou fazer a aula de short até o final do ano. — engoliu em seco, tentando manter o autocontrole e não levar as mãos até os ombros do Parker e findar o espaço entre eles.
— Se fizer isso, darei a ideia dos meninos jogarem queimada e que Deus te proteja, porque eu não vou. — sorriu de forma quase maligna, um deboche tilintando nos olhos cor de cobre. — Não esqueça, Hunter, você é filho do rei e há muitos nesse reino que o detestam.
O alfa de afastou, pegando um cotonete e antiséptico para passar no ferimento, colocando um curativo logo depois.
Hunter respirou fundo e ficou sentado na maca por mais alguns minutos, em silêncio.
Imaginava que mesmo sabendo sobre o elo que dividiam, certos sentimentos jamais despertariam.
Estava enganado.