Declínio da paixão

2918 Words
Ano de 2100, 15 anos do príncipe. Hunter estava sentado na praça da cidade, tomando um copo de suco que havia pegado na quitanda da esquina. Era um dia quente de verão, mas gostava do sol, gostava do calor. Fechou os olhos por um momento, apreciando a brisa suave e o sol daquele início de tarde. — Você deveria estar na aula de aprimoramento. — ouviu a voz de Charles vindo atrás de si. — Aproveitei que você saiu do meu pé e vim fazer o que eu gosto. — sorriu, sem abrir os olhos. — Deixa de ser infantil, você sabe que eu tenho meu dever com o ministro. É para sua proteção apesar dessa língua afiada espantar qualquer um que tente chegar perto. — disse com desdém, mas um tanto irritado das infantilidades que o garoto fazia. — Charles, eu sei controlar meu dom. — Hunter fez uma pequena bola de luz com sua mão. — Eu sou um completo inútil, a menos que falte luz na cidade. — ironizou. — Tem toda razão, mas ainda assim precisa ir para aula de aprimoramento. — Babaca. — jogou sua pequena bola de luz no peito do mais velho, a vendo explodir em brilhos, ainda que soubesse que era proibido. — Você é uma fada. — debochou, chegando mais perto do rosto do Baynes. — Isso é tudo porque eu não quis ir no lago com você? Precisa agir como criança? Você já tem quinze anos, Hunter. — Não deveria me provocar, Charles. Eu sou mais velho que você e sou o príncipe, você duvida que se eu quiser você ficará grudado em mim para o resto da sua vida? — disse com raiva, entre dentes. Hunter levantou do banco da praça, jogando o seu copo de suco ainda pela metade no lixo, indo até a frente do alfa. — Não provoque quem pode fazer da sua vida um inferno. O alfa abaixou-se levemente para ficar na altura dos olhos de Hunter. — Vá em frente, eu não tenho medo de você, Hunter. E pode ter certeza, eu não preciso obedecer a você. — sorriu ladino. O príncipe viu o brilho acobreado cintilar nos olhos do alfa e junto dele o que parecia uma aura alaranjada ao redor de seu corpo. Se não fosse o decreto mais rígido do reino, Hunter teria certeza que Charles era um alfa do fogo, um cão infernal. Mas isso seria impossível, não seria? — Você é sempre tão quente… — disse um tanto pensativo. — Meu pai tem mantido você no porão do palácio há anos, quase em um calabouço… você não consegue ficar tempo demais perto do Logan Jinkings porque ele é gelado… — começou a juntar as peças daquele quebra cabeça que pareceu sempre estar diante de seus olhos. Charles se afastou do príncipe, seu rosto perdendo as expressões, tomando um tom preocupado. — Hunter, vá para sua aula. — disse por fim, se afastando Apesar de irritado com o alfa, o príncipe seguiu seu caminho rumo a aula de aprimoramento de dons. Não gostava daquela aula, sabia o motivo dela, sabia que todos precisavam conseguir manter o controle e não usar seus dons em benefício próprio na hora da raiva, machucando os outros. No reino de Ashara havia duas leis primordiais, que não deveriam ser quebradas de modo algum e que sua punição era a morte sem contestações. Primeira regra: O nascimento de todo e qualquer alfa do fogo é proibido. Sem exceções. Dizem que é muito fácil identificar o nascimento de um alfa do fogo assim que sai das entranhas de sua mãe. Seus corpos parecem ter lava correndo pelas veias e assim que nascem o brilho ascendente atravessa seus corpos ainda frágeis em um tom de laranja, mostrando o fogo que há embaixo da pele. Segunda regra: Não é permitido machucar com dons ou armas nenhum indivíduo do reino de Ashara. Brigas entre alfas já resultaram em morte para ambas as famílias. Essas leis eram o lembrete constante de que não era permitido voltar a ser o que éramos antes da Guerra Auroria. Não haveria espaço para o descontrole que levava a guerras e nem oportunidade para alfas do fogo transformarem tudo em cinzas novamente. — Que bom que veio, eu já estava ficando entediado. — Kayne disse com tom de felicidade, mas sem expressão em seu rosto. O Davis estava sentado no chão de terra do campo de práticas, afastado dos demais colegas, com as pernas dobradas em forma de borboleta enquanto treinava seu dom no chão do campo. Hunter sentou ao lado do amigo da mesma forma, o vendo brincando de fazer formas na terra usando seu dom, suspirou profundamente, apoiando o rosto em sua mão, olhando o Davis levantar os montinhos de terra com formas diferentes. — Brigou com Charles de novo? — questionou. — Não é uma briga. Ele fica sendo chato comigo. Tipo, eu mando nele, não o contrário. Mas ele sempre quer ser o dono da verdade. — revirou os olhos. — Sabe o que eu acho engraçado? Ano passado ele lambia o chão que você passava e você afastava ele. Agora está ao contrário. — riu, dando tapinhas no ombro do amigo. — Acho que você gosta dele, quer a atenção dele e quer ele por perto. Se parar de ser um i****a, ele com certeza não vai se afastar. — E o que você sabe de relacionamento, Kayne? — Eu tenho um namorado, ué. Hunter olhou para o amigo com as sobrancelhas erguidas, ajeitando a postura, agora curioso e até um tanto animado com a revelação. — Desde quando? Você nem pra me contar antes de acontecer? Me contar que estava apaixonado? Que péssimo amigo. O Davis crispou os lábios em desagrado e deboche. — Você disse para que eu escolhesse meu alfa como meu guarda-costas. Eu fiz isso e você sabe que não tem como fugir dessa ligação, é como um ímã puxando a gente. Quando dei por mim eu já estava o beijando. — É como um ímã, é? — disse em tom de desagrado e suspirou. Imãs precisas de dois lados para ocorrer atração entre eles, então Hunter não sabia nada disso, seu alfa parecia não sentir atração alguma por ele. Ou ele disfarçava muito bem? — Acha que o Baker fingia não sentir nada por você antes? Ele é filho de um ferreiro, não é como se fosse pobre. — Acho. Por mais que ele sentisse que estávamos destinados, ele não quis invadir meu espaço e me reivindicar com um animal. Mas quando eu cheguei perto dele e senti seu coração batendo mais forte, quando eu cheguei bem perto… é como se nós dois soubéssemos. — sorriu todo bobo, de forma apaixonada. Hunter pareceu se sentir ainda mais triste com a revelação. Seu coração parecia partido naquele momento, chegava a doer enquanto um nó se formava em sua garganta. — Entendi. Que bom que ficará com seu alfa, acho que o mesmo não vai acontecer comigo. — disse triste. ✘✘✘ Hunter desceu para a cozinha e sentou na ponta da mesa para seu café da manhã, escolhendo comer apenas algumas frutas entre todas as opções dispostas a sua frente. — Eu vou ao lago mais tarde e quero que chame o Charles para me acompanhar. — disse para a governanta, madame, degustando seu morango. — Hoje ele tem treino de defesa e algumas outras atividades junto do ministro de segurança, senhor. — respondeu. — Eu não perguntei. Mande chamá-lo. Ele é o meu servo, não é?! Pois eu quero que ele me acompanhe. — Sim, senhor. Vou chamá-lo. — disse a madame, fazendo uma reverência e saindo da cozinha. O garoto seguiu comendo suas frutas até o grandão chegar à sala de jantar. — O que você quer, Hunter? Sabe que hoje eu tenho coisas mais importantes do que ficar brincando com você. — suspirou, parando próximo do garoto com uma careta séria, os lábios franzidos em desagrado. — Deixa de ser tão petulante, Parker. Você foi escolhido a dedo para ficar ao meu lado em todos os momentos. Para ser meu da forma que eu quiser. — seu tom era irritado. — Hunter… — suspirou. — Vamos ao lago, mas tudo bem, Charles, se da próxima vez não quiser ir, eu chamo Thomas para me acompanhar. — seu tom era sério e frio, mas também de alguma forma era uma ameaça. Hunter levantou da mesa, passando pelo Parker e se dirigindo à saída. — Termina de tomar seu café. — Tô sem fome. — disse irritado e saiu da casa, sendo acompanhado pelo servo a passos largos. Hunter foi até o estábulo do palácio, olhando para os cavalos. Assim que fez quinze anos ganhou seu próprio cavalo, isso porque teimou muito que o queria, já que Charles ganhou o seu aos doze anos. O Parker tinha um cavalo de pelagem marrom avermelhado ao qual chamava de Fênix. Já Hunter, parecendo sempre querer competir com o alfa, tinha um grande cavalo cinza escuro e de crinas pretas, cujo nome era Abissal. As suas próprias maneiras eles escolheram nomear seu principal companheiro como um lembrete constante de quem eles eram. Charles escolhendo o nome de Fênix por conta de seus dons e Hunter escolhendo aquele cavalo para refletir toda a sua amargura. Parecia que quanto mais o tempo passava, mais no fundo do seu interior ia se soterrado a vontade que tinha de saber como vivem as pessoas do outro lado dos muros. Hunter subiu em Abissal e começou a cavalgar em direção ao lago que ficava ao leste de Ashara, um local quase deserto que estava em expansão, onde ficava a usina hidráulica do reino. O alfa imaginou que o garoto faria como de costume e subiria em Fênix junto a ele, mas percebeu que o Baynes estava determinado a lhe dar dor de cabeça. Bufou e subiu em seu próprio cavalo, indo atrás do garoto. Hunter chegou próximo ao lago e amarrou as rédeas de Abissal em uma árvore, descendo do cavalo e indo em direção a água. O garoto deu um grito tão alto e assustador que espantou os pássaros que estavam nas árvores próximas, assim como assustou Fênix, que levantou as duas patas e relinchou, quase derrubando o Parker, mas este, por sorte, era bom guiando seu cavalo e se segurou firme, olhando o garoto em completo pavor. — O que deu em você? — perguntou assim que desceu de Fênix e o deixou preso na árvore próxima a Abissal. — Você acabou com tudo. Você é um i*****l que estraga tudo sempre. — foi em confronto ao Parker, suas bochechas manchadas por lágrimas enquanto dava socos no peito do alfa, que permanecia confuso. — Eu não posso fazer nada se você não diz o que está acontecendo, Hunter. — Como você pode ser tão inútil ao ponto de nem reconhecer o seu ômega? Como você pode ser tão i****a? — gritou, tendo os braços segurados pelo alfa enquanto seu rosto estava cheio de lágrimas. Charles ficou assustado naquele momento, sem saber o que fazer além de segurar os braços do príncipe, nunca havia visto Hunter chorar em todos os seus anos ao lado dele. — Eu? Eu não sei do que está falando. O garoto permaneceu com o corpo quase colado ao corpo do alfa, o olhando daquela forma triste, sua respiração ofegante. Estava esperando sentir aquele ímã, esperando sentir o desejo do alfa por ele, mas nada aconteceu. O Baynes sentia apenas dor, muita dor em seu peito e vontade de chorar pela falta de retribuição. Enquanto o Parker o encarava confuso, sem saber o que fazer, seu coração batendo forte contra o peito e esquentando ainda mais o seu corpo. — Eu sou seu ômega. Como você nunca percebeu? Meu cheiro não é atrativo pra você? Como não percebeu que eu nasci pra ser seu? — perguntou triste, seus olhos cheio de lágrimas que ainda não haviam caído, mas em breve também estariam molhando as bochechas. Apesar de devastado, o príncipe não tinha forças nem para gritar e o tom baixo parecia ainda mais desesperador para Charles. O garoto, ainda com os pulsos presos nas mãos dele, segurou as barras do traje que o Parker vestia, embrenhado seus dedos ali, o impedindo de se afastar. — Por quê, Charles? O que tem de errado comigo? O que tem de errado com você? — perguntou, balançando o corpo do alfa. — Hunter… eu não posso. Você não entende, mas eu não posso. — respondeu igualmente triste. Seu corpo já estava fora de seu controle naquele momento, engoliu em seco sem saber como agir e como tentaria baixar sua temperatura. Estava tentando controlar sua respiração acelerada, seu coração batendo forte. Seu sangue era como lava e quanto mais rápido seu coração batia, mais quente seu corpo ficava, movimentando todo aquele fogo em seu interior. Esqueceu de soltar os pulsos do príncipe, seus olhos presos nos dele o desfocavam de seu objeto: não deixar seu dom lhe dominar. Percebeu só quando era tarde demais que as mãos não estavam mais no calor confortável que Hunter conhecia, mas já em uma temperatura insuportável para qualquer ser humano, percebeu a fumaça nublando os olhares conectados e, só então, percebeu as suas mãos já estavam gravadas na pele dele em uma queimadura de segundo grau. — Hunter… — olhou horrorizado para os braços do príncipe, se afastando. O Baynes demorou a entender o que deixou o alfa tão horrorizado, estava tão imerso em sua dor sentimental que não percebeu seus próprios braços. Era tão mais doloroso não ser desejado pelo alfa, que os pulsos latejando se tornaram insignificantes. Os pulsos eram uma dor passageira, mas aquela rejeição vinha engolindo em seco desde que eram pré-adolescentes. — Tá tudo bem. — fungou, sentando na grama em seguida. — Tá tudo bem. Tanto faz. O garoto fez uma pequena bola de luz em sua mão, logo depois esfregando a luz em seu próprio pulso como se estivesse o enfaixando e em poucos segundo já havia curado por completo, então passou a fazer o mesmo no outro. — Se ficou assustado por conta do ferimento, está curado. Se ficou preocupado por não ter se contido, tudo bem também. Eu já sabia e não contarei a ninguém. — disse ainda fungando terminando de curar seus braços. O garoto respirou fundo, ainda sentado no chão, tentando acalmar sua própria explosão de sentimentos e parar de soluçar. Era difícil conter as lágrimas, agora que finalmente as tinha deixado sair junto da sua frustração, parecia que era uma cascata e não tinha fim. Charles ainda estava apavorado, os pensamentos corriam por sua mente tão rápido que nem conseguia formular alguma coisa coerente. Respirou fundo junto de Hunter, tentando se acalmar, tentando acalmar o próprio coração dentro do peito. — Nunca conheci alguém com mais de um dom. Como você…? — Como descobri? Praticando com sua mãe. Sempre fez parte de mim. Acho que não tenho dois dons, apenas aperfeiçoei o meu o bastante. Sem isso eu seria ainda mais inútil. — fungou. — E como descobriu sobre mim? — Seus olhos, a temperatura da sua pele. Tudo sobre você. Ontem eu senti que meus anos de teoria estavam certos. Quando me aproximei de Logan e você não gostou, já foi uma grande pista. Mas ontem seus olhos brilharam e você ficou com medo quando ameacei tocar no assunto. Então eu tive certeza. O Parker balançou a cabeça em concordância, parecendo entender o sentido daquilo, pensativo. — E você? Você não sente a ligação que temos? — Hunter perguntou depois de perceber que Charles não falaria nada. — Sinto. Sempre senti, mas não posso correr o risco de machucar você. Você não pode ficar com um alfa como eu. E o que acabou de acontecer só me faz ter ainda mais certeza disso. — Eu fui feito para você. Quer prova maior do que você não poder me machucar? Eu fui feito pra você. — disse indignado. — Eu não posso, Hunter. Não posso. — negou com veemência. O garoto levantou do chão, novamente irritado. — Meu pai vai fazer uma casamento arranjado e vai anunciar meu noivo no dia do meu aniversário. — as lágrimas voltaram a correr por seu rosto, sentindo-se desesperado. — Eu achei que você não soubesse da nossa ligação, mas você simplesmente não me quer. E eu vou ser obrigado a casar com Thomas. — disse ainda mais irritado. Se o alfa não soubesse, não tivesse sentido que tinham aquela ligação, até entenderia, mas ele estava deliberadamente o rejeitando e isso beirava o inaceitável para o Baynes. O que antes era uma profunda tristeza, se tornou raiva e revolta. — Hunter não é assim… você não entende… — tentou segurar o garoto, que marchava em direção a seu cavalo. — Não tem outra forma de entender, Charles. Você está abrindo mão da nossa ligação eterna porque não me quer. Não tem outra forma de ver isso. Deve estar bem contente de saber que vou me casar com seu amigo. — disse irritado, chegando até Abissal e o desamarrando, montando no cavalo e rapidamente saindo de perto do Parker. Ainda que com outra atitude e cheio de ódio, as lágrimas mancharam a bochecha. Demarcando o sofrimento ainda presente. O alfa queria conseguir explicar, dizer que ele o queria, mas não tinha coragem. Ele queria, mas tinha medo de machucar o príncipe. Como ele queria, mas não podia.
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