O coração do alfa

1700 Words
Minha avó costumava dizer que o Reino de Ashara era cheio de simbolismos, como se os deuses da nova criação tivessem escrito aquele destino. Não é desconhecido por ninguém que a humanidade estava rumando ao seu fim, dependente da tecnologia e de seus próprios vícios, pensando apenas em si mesmos e não importando se estava passando por cima até mesmo de seus entes queridos para conseguir o que queria. Estavam fadados ao fracasso, de toda a forma o planeta iria colapsar em alguns anos. Minha avó acreditava que antes que tudo fosse para o fim de vez, os deuses decidiram unir-se em uma única força e tomar o controle mais uma vez e ajudar a humanidade a reescrever este destino. Não importa se foi Jesus, Maomé, Ganesha ou Zeus, mas havia um agir sobrenatural na segunda criação. Assim como a primeira, nunca foi possível saber como aconteceu, nunca acharam evidências de que foi o Deus católico que criou o universo e também nunca acharam o paciente zero, o motivo do primeiro contágio para a doença que devastou o mundo. E minha avó acreditava nisso ainda mais quando analisando a história, e sim ela era professora de história e também arqueóloga. Para começar a doença foi nomeada pelos cientistas como Chronos Decay, devido ao seu alto poder degenerativo e visto que Chronos é um deus do submundo, faz até um pouco de sentido. Após a Guerra Auroria, o rei Davi Baynes criou o Reino de Ashara, um nome bonito para dizer que a cidade foi construída a partir das cinzas que restaram e por fim, desde o início, desde o primeiro rei, todos possuíam o dom da luz. Meu tataravô Hunter Baynes era um pouco diferente, ele tinha mais do que um único dom. Mas também pudera, precisava ser um ômega habilidoso para conseguir ter como alfa destinado um cão infernal. Sem mais divagações, vamos voltar ao ponto que importa: Ano de 2101, 16 anos do príncipe. O povo de Ashara estava todo reunido em frente a uma ‘fogueira’ na praça da cidade. A grande estrutura de madeira estava acesa com a luz do rei, celebrando a data especial que era o aniversário de seu primogênito. O rei havia construído uma estrutura, seu trono, de forma elevada para que pudesse ver todos os participantes da celebração. Logicamente não estariam todos os quase cinco mil habitantes ali, mas sabia que a maioria iria lhe prestigiar naquele momento. Os cidadãos de Ashara costumava ser um povo engajado, que gostava de fazer parte das festividades comunitárias que haviam, ajudavam uns aos outros e nutriam toda a região. Ainda que na cidade houvessem pessoas que tinham mais dinheiro ou certas condições que outros, isso porque sua família na época da fundação ajudou o primeiro rei de alguma forma, isso não era um fator para distinção, apenas um legado histórico. Todos usavam os seus melhores trajes hanfu que eram feitos pelas costureiras conhecidas na aldeia, a mais conhecida era a senhora Lu Yu, mãe de Luen e Luna, seu pai Lu Liu era um excelente coureiro também. A senhora Lu aprendeu a costurar com sua mãe chinesa, que foi quem fez as roupas para o povo de Ashara após a guerra, ensinou sua filha e ela passava os ensinamentos a Luna, que um dia provavelmente seria a responsável pela criação destes trajes também. Os soldados usavam espadas forjadas pelo senhor Baker e assim por diante, todos tinham os mesmos recursos, os mesmos alimentos e as mesmas oportunidades. O reino de Ashara era feito como uma grande árvore, todos os seus moradores eram raízes que o nutriam de igual forma. Naquela noite todos vestiam roupas predominantemente brancas, da cor da luz emitida pelo dom do rei. Um banquete havia sido servido, os melhores porcos e cordeiros foram mortos para a celebração e o rei gostava de ver seu povo se alimentado e rindo. Enquanto os alfas estavam majoritariamente bebendo vinho de arroz e conversando, os ômegas dançam em frente a ‘fogueira’ de luz, que não emitia calor algum, apenas cintilava. Eles usavam maquiagens chamativas, sombras em tons de vermelho e rosa, dando um tom vivo a todo aquele branco. O aniversariante não estava diferente, dançando em volta da luz junto de seus amigos, os tecidos balançando no ritmo dos instrumentos, eles sorrindo e se divertindo. Hunter juntou as palmas da mão com Luna, dançando com ela aos risos. A seda brilhante dos trajes abrindo-se em leque, com os movimentos, gerando o que parecia um redemoinho de luz cintilante pelas cores predominantemente brancas. Assim como os amigos Luen e Kayne também faziam, no mesmo ritmo, como seus corpos fossem um só, com passos de uma lado a outro, pulando até cansar ao som da música tocada pelos mais velhos. Thomas e Roman não demoraram a se juntar à dança, dando o braço para os ômegas e pulando em frente à “fogueira” com eles. Charles se mantinha distante para não participar ativamente da festa, mas sempre perto o suficiente para estar de olho no príncipe. — Estou feliz de ver o meu povo junto essa noite, comemorando este momento tão importante na vida do meu primogênito. — anunciou o rei, fazendo os moradores prestarem atenção. — Além do aniversário de Hunter, do prestígio de seu nascimento que muitos de vocês puderam presenciar. Eu quero anunciar hoje o noivo do futuro rei. O momento festivo acabou para Hunter naquele momento, sentiu sua alegria esvaindo-se do seu corpo, descendo para os pés junto com sua pressão. O povo batia palmas animadas, esperando o anúncio do rei, foi naquele momento que, por menos de um minuto a fogueira se incendiou com fogo. Ao perceber o ocorrido Hunter rapidamente puxou a essência alaranjada para si e preencheu as madeiras com sua luz, torcendo para que ninguém percebesse o ocorrido, jogou seu poder para o céu da noite, explodindo em brilhos como fogos de artifício. — Senhor, um ômega com alfa predestinado não pode se casar com outro. — Charles saiu das sombras, contra a vontade de sua família, se aproximando mais da família do rei. — Entendo que tenha escolhido alguém para ficar ao lado de Hunter, mas ele não poderá se casar com essa pessoa. O príncipe ficou olhando para o alfa, sentindo que poderia respirar novamente, aproximou-se um pouco mais dele, vendo o choque do povo, assim como do rei. — O que é que está dizendo? Charles engoliu em seco, tinha medo de pronunciar as palavras novamente, sabia que sua vida era uma dívida com o rei e não deveria fazer nada além de obedecê-lo, mas não poderia ver Hunter se casando com outro homem. O Parker respirou fundo. — Hunter não pode casar com o alfa que o senhor escolheu, pois ele já tem um alfa destinado e que pretende reivindicá-lo quando o momento chegar. — Isso está fora de questão. — os olhos do rei eram severos e o povo se afastou um pouco mais, deixando o Parker, o rei e Hunter no centro da atenção de todos. — Você nasceu para servir e nunca ficará ao lado do meu filho. — Tudo bem, eu entendo. Posso estar sempre abaixo, mas Hunter ainda assim não poderá se casar. Ele pertence a alguém. O rei se segurou para não quebrar suas próprias leis, apertando a mão em punhos, seu corpo sendo envolto pela luminosidade de seu dom. — A festa acabou. Falaremos disso amanhã. — disse entre dentes, retornando ao palácio. — Hunter, vem! Agora! — ordenou. O príncipe olhou para Charles, sentindo seus olhos enchendo-se de lágrimas novamente e seguiu o pai sem ter outra escolha, mas havia um certo alívio dentro do peito. As pessoas que assistiram à cena começaram a cochichar, olhando a família do Parker. — Por que você fez isso? Por que tinha que me envergonhar dessa forma? — o alfa disse entre dentes. — Vamos conversar em casa. Charles seguiu seu pai, Ellijah Parker até em casa, entrando e suspirando, já imaginando a repreensão que ouviria. — Acha que eu não percebi o que fez com a fogueira? Você teve sorte daquilo não ter se alastrado. Quer matar toda a nossa família? — Questionou irritado, dando um empurrão no ombro de Charles. O alfa mais novo ouvia tudo em silêncio, parado em frente ao pai com a cabeça baixa. Naquela fase de sua vida, aos quase dezesseis anos, ele já era mais alto que o próprio pai, mais forte e sabia que seu poder era imensurável e destrutivo. Poderia se rebelar contra as ordens sem pensar duas vezes, mas preferia sempre ouvir em silêncio. — Entendo meu erro, pai. Mas não posso deixar que Hunter se case com qualquer outro. Não é um desejo infantil, uma revolta contra o rei, uma palhaçada. Hunter é meu e eu não podia deixar ele casar com um qualquer. Patrícia suspirou, abraçando o filho lateralmente da forma como conseguia, já que o corpo dele era muito maior que o seu. — Tudo bem querido. Entendemos sua situação. Eu tenho orgulho de ter criado um filho forte. Mas não esqueça da dívida que temos com o rei. Ele nos agraciou com sua vida, meu filho. E teremos que seguir as ordens dele. Independente do que seja. — A mulher falava calma, um tom suave. Já Ellijah estava possesso de ódio, andando de um lado a outro na pequena casa. — Mãe, isso vale a pena? Valeu a pena vender suas vidas ele só por isso? A mulher riu docemente e levou as mãos às bochechas do filho, acariciando o local. — Meu filho, se ele me desse só mais uma hora ao seu lado, eu venderia minha vida a ele. Olha tudo que eu ganhei tendo você. Charles sorriu, concordando e abraçando a mãe. Apertando o corpo dela contra o seu com certeza força e pesar. — Amanhã você irá pedir desculpas. Você irá até o rei e pedirá desculpas. — Eu farei o possível. Mas eu não vou deixar o Hunter casar com outro alfa. Ele não precisa casar comigo, mas não o deixarei casar com outro alfa. Nem que eu precise quebrar uma regra primordial e desafiar o rei a uma luta.
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