Derretendo

2624 Words
A manhã do dia 7 de maio surgiu acinzentada, o sol completamente coberto pelas nuvens escuras. O dia que deveria ser de temperaturas mais quentes, estava gelado, parecendo um presságio do que lhes esperaria. Desde os seus treze anos, quando seus poderes começaram a aflorar com mais intensidade, Charles estava morando dentro do palácio, mais especificamente no porão, como se estivesse em uma masmorra. Naquele ponto o palácio era inteiramente construído de pedra grossa e polida, as janelas do quarto do Parker eram finas e retangulares, próximo ao teto, servindo apenas para entrada de ar, não para ver o mundo lá fora. Não é como se precisasse de grandes coisas, na maioria das vezes ficava naquele lugar apenas para dormir, seus dias eram na maioria das vezes inteiramente ocupados por Hunter. Entretanto, na noite anterior não dormiu no palácio, dormiu na casa de seus pais. Queria dar um tempo para a raiva do rei, mas sabia que talvez não fosse muito útil. Assim que aquele dia surgiu, vestiu seus trajes e seguiu rumo ao palácio. Assim que adentrou-o, o rei estava no mezanino, parecendo lhe aguardar. — Venha até a sala do trono. — anunciou e deu as costas, seguindo para a sala e esperando que o Parker fizesse o mesmo. O alfa subiu os lances de escada até a parte mais alta da torre, encontrando o rei já sentando em seu trono e Hunter de pé ao seu lado, de cabeça baixa. — Qual é o seu problema, Parker? O que tinha na cabeça para fazer uma cena como aquela em frente a cidade toda? — Peço perdão, senhor. Não era minha intenção, eu nunca cheguei perto de Hunter de forma indevida. Sempre estive aqui apenas para protegê-lo, mas a ligação que temos é inevitável. Eu posso nunca tê-lo, entendo sua decisão, mas não posso deixa-lo casar com outro alfa. Ele tem a mim. — seu tom era triste e carregado de sinceridade. O rei grunhiu em desagrado, apertando com força o braço de seu trono. — Certo, Parker. Tenha ciência de que você nunca terá minha aprovação, você nunca irá se casar com meu filho. Mas irei adiar a ideia do casamento com o Shelter por enquanto. Até eu saber o que farei com você. — Obrigado, senhor. — reverenciou. — Esse fim de semana fique na casa de seus pais. Volte ao trabalho normal na segunda-feira, não o quero perto de Hunter pelo menos nestes dois dias. — Sim, senhor. — concordou, olhando brevemente para Hunter antes de sair do palácio conforme ordenado. ✘✘✘ A segunda-feira chegou e com ela um Hunter muito m*l humorado. O príncipe nem mesmo esperou Charles para ir até a escola naquela manhã, subiu em seu cavalo, Abissal, e seguiu rumo a escola. O alfa chegou alguns minutos depois, entrando no local com cara de pouco amigos, marchando até o Baynes, que assim que o percebeu vindo em sua direção, parou de falar com os amigos e seguiu outro rumo. — Qual seu problema? — Charles perguntou, segurando o braço do garoto e o levando para dentro do banheiro, trancando a porta para não ser interrompido. Hunter olhou ao redor para se certificar que não tinha ninguém ali dentro. — Qual é o seu problema? Por que fez aquela cena na minha festa de aniversário? E a fogueira… você ficou louco? — questionou indignado. — Foi você que me levou para o lago e pediu para ser reivindicado. Eu dei o que você queria! — respondeu igualmente irritado. O príncipe bufou, empurrando o Parker. — Como você é babaca! Eu apenas contei a você sobre o que somos um para o outro. Lógico que não quero casar com nenhum outro alfa, mas você não podia ter falado com meu pai em outro momento? Tinha que ser na frente da cidade toda? — Na frente da cidade toda você disse que queria se deitar comigo. — Charles desafiou, fazendo Hunter o olhar com o cenho franzido, como se aquela alegação não tivesse sentido nenhum. Acompanhou o olhar do alfa para o cordão de ágata de fogo que usava em seu pescoço, diferentemente do antigo colar de topázio branco, lembrando da noite que o recebeu. — Eu bebi vinho. O que eu disse não tem relevância e estávamos sozinhos. — Qualquer um poderia ter ouvido. E no final o que importa é que esse sempre foi seu desejo. — se aproximou do Baynes, o fazendo recuar até que a parede estivesse contra suas costas. — Você me queria e agora me tem. Quer mudar de ideia de novo? Eu não sou um brinquedo seu. Hunter sentiu sua respiração ficar ofegante próximo do Parker, era como se o ar fosse rarefeito, sufocante. O calor que emanava do corpo do alfa o deixava ainda mais desconcertado. — Vamos seguir o que sempre fomos. Você ouviu meu pai. Você não está autorizado a passar dos limites, Parker. — disse sem muita confiança, batendo com o indicador no peito do maior. — Tem certeza? — perguntou, chegando mais perto, seus lábios roçaram levemente os do Baynes, aguardando a reação dele, como se lhe desse tempo de mudar de ideia. — Tudo bem, então. Manterei distância e não farei nada como isso novamente. Pode se casar com quem quiser, príncipe. Charles afastou seu corpo e Hunter lambeu os lábios, ansioso por sentir um pouco mais daquele roçar de lábios. — Não seja tão i****a. Eu só… eu só… — não sabia o que dizer. — Eu não sou um brinquedo, Hunter. Mas vou dar uma chance a você de responder minha pergunta em outro momento. Quando estiver pronto me diga se tem certeza sobre os meus limites. Dito isso, o alfa saiu do banheiro, deixando um príncipe sem ar para trás. Não sabia descrever o que tinha sentido com todo aquele calor e proximidade, mas tinha quase certeza que Charles o havia deixado e******o. ✘✘✘ Após a aula naquela tarde, Hunter foi para casa de Luen. Gostava quando o amigo o convidava pra almoçar, apesar de ter tudo que tinha direito no palácio, não era como ter uma comida feita pelas mãos da mãe. Para sua infelicidade sua mãe faleceu há muitos anos, não resistindo ao parto dos gêmeos Hayes e Harper. Sabia que para o rei aquela era uma das maiores dores que já sentiu, o patriarca não compartilhava com os filhos, mas Hunter sentia. Sabia que ainda após esses anos o pai chorava todas as noites pela falta que sentia de sua ômega, isso porque eles compartilhavam do mesmo lado que Hunter tinha com Charles, eles possuíam uma ligação eterna e se não fosse pelo fatídico falecimentos precoce da senhora Baynes, eles jamais teriam se separado. O príncipe tinha apenas oito anos na época que perdeu sua mãe. — Chegamos, mãe. — avisou Luen, entrando em casa acompanhado de Luna e Hunter. O primogênito seguiu direto para a cozinha, vendo o que tinha de almoço. — Cheguei para almoçar, senhora Lu. — Hunter entrou animado na casa simples da costureira. A mulher já um pouco de idade estava com seus óculos de grau apoiados na ponta do nariz, as costas arqueadas em frente a máquina de costura enquanto dava detalhes finais em um traje. — Meu garotinho, eu não sabia que viria. Não fiz os doces que gosta. — sorriu feliz, terminando a última passada na máquina antes de levantar e ir abraçar o príncipe. — E Charles, não veio junto? — Ah, aquele i****a. — suspirou falsamente bravo. — Papai o deixou distante de mim, ele não deveria ter passado tanto dos limites. — Hm, tenho conheço bem, pequeno Baynes. Tenho certeza que o provocou até tomar uma atitude, Charles Parker não teria coragem para isso. — Eu também acho, mãe. — Luna concordou. — Charles é todo na dele. Ontem ele estava numa aura sombria, saindo do meio da multidão para reivindicar seu ômega. Quero ter a sorte de achar um alfa assim um dia. — sorriu toda boba, levando um peteleco de Hunter. — Quer nada. Agora ele se acha no direito de ficar atrás de mim. — suspirou. — Deve ser porque é meu direito. — Charles debruçou-se na janela da casa, colocando a cabeça para dentro com um sorriso ladino pintando os lábios. Hunter respirou fundo e revirou os olhos. — Não, não é. O que está fazendo aqui? — Cuidar do príncipe é meu trabalho. Não se preocupe, ficarei aqui fora. A senhora Lu sorriu toda contente, dando tapinhas nos ombros de Hunter, como quem diz “para de besteira”. — Nada disso, Charles. Entre para almoçar. Ao menos isso, não pode ficar com fome. — Pode sim. — Hunter respondeu birrento, cruzando os braços. — Tudo bem, senhora Lu. Já me acostumei. — Vou ficar aqui. O príncipe franziu o cenho, indignado com aquela afirmação, algo que não fazia sentido. — Como se acostumou? Por acaso eu vejo você com fome? — perguntou bravo. — Hunter, ele segue você pra onde você vai. Não tem tempo dele passar em casa e almoçar pra ir atrás de você, se é um lugar onde não oferecem nada a ele também ou não o deixam entrar, acha que Charles faz o quê? — Luna perguntou como se a resposta fosse óbvia para Hunter. Mas não era, em todos os quatro anos que estava com Charles atrás de si, nunca havia passado naquela possibilidade. — Tudo bem. Às vezes eu trago maçãs comigo. — riu e deu de ombros. — Está brincando, né? Você faz isso por causa do Fênix. — Hunter perguntou com deboche, vendo Charles e os amigos lhe encarando, esperando que se desse conta da situação, só então percebendo que todos sempre souberam daquela informação menos ele. — Por que nunca me disse nada? — Meu dever é cuidar de você, não reclamar. — respondeu simplista, dando de ombros novamente. — Vem, Charles, vem almoçar com a gente. — pediu a senhora Lu, colocando a mesa toda animada. O alfa não disse nada, ficando parado ainda na janela, como se esperasse aprovação para aceitar o convite. — Entra logo. — Hunter mandou entre dentes. E assim o alfa fez, juntando as palmas em agradecimento a senhora Lu. — Obrigado, senhora Lu. Hoje não tive tempo de tomar café, descobri que alguém tinha ido com as próprias pernas pra escola. — disse pra senhora, fazendo Hunter revirar os olhos. Assim que o senhor Lu entrou em casa, após uma pausa em seu trabalho com couro, todos sentaram na mesa para comer. Naquele momento o príncipe percebeu que o alfa também era próximo das pessoas que conhecia, que inclusive ele parecia bem próximo de Luna, com quem sussurrava sobre música durante o almoço. — Vocês parecem bem mais próximos que na escola. — Hunter comentou, mexendo a comida no prato. Luna riu. — Charles não morava longe daqui, às vezes quando saía para caminhar ele estava tocando lira e eu parava para escutar. Não precisa ficar com ciúmes, Hunter. — Por que eu teria ciúmes? Isso não tem nada a ver, só queria entender desde quando são amigos. — comentou irritado, voltando a comer seu almoço. Os mais velhos achavam graça, era mais do que nítido que ele estava enciumado, que era apaixonado, mas vivia negando isso. Jovens apaixonados eram fofos. Os mais velhos se olharam, dando um sorriso cúmplice e apenas apreciando o diálogo das crianças. — Vamos encontrar Logan na praça mais tarde? Ele estava pensando em fazer uma sessão de cinema com os discos que os exploradores encontraram, o pai dele achou até um aparelho que dá pra gente assistir. Charles torceu o nariz levemente, algo perceptível apenas para Hunter. Que ficou em um misto de sensações, queria muito ver um filme, mas não queria machucá-lo. Haviam coisas que apenas haviam escutado sobre, filmes, bandas de música que tocavam outros instrumentos, aparelhos que você escutava a música só pra você, Internet. Era coisas que seus avós vivenciaram e contaram para os filhos, contaram em seus diários e em livros, mas que não tiveram acesso. Ainda assim, após tantos anos, exploradores sempre encontravam coisas do antigo mundo humano, isso porque apesar da guerra, haviam sobreviventes que carregaram consigo toda a sua história durante a jornada e após a morte deixava estes vestígios para trás. — E como é que vamos assistir isso? — perguntou por fim. — Assim. O pai dele explicou que esse aparelho que projeta luz, então a gente vai colocar ele na parede de trás da vendinha e vamos assistir quando escurecer. Vamos? Hunter suspirou, não poderia perder aquela oportunidade. — Tá, vamos. ✘✘✘ Após passar a tarde na casa de Luen, uma parte estudando e outra apenas conversando, a noite finalmente chegou e com ela o momento de ir até a praça assistir o tal filme. Hunter deixou Luen e Luna andando um pouco a frente, ficando no mesmo passo de Charles, que costumava andar atrás de si. — Prometo que vamos ficar longe dele. — sussurrou para Charles. — De quem? Do Logan? Está preocupado comigo ou quem ele? — sorriu. — Com você, sei o quanto o frio te afeta e ele é literalmente uma pedra de gelo. Já percebi que não gosta de estar perto dele. — sussurrou. Charles balançou a cabeça em ponderação, não era mentira. Seu corpo naturalmente tinha uma temperatura elevada e a de Logan já o completo oposto e apesar de achar o garoto muito legal, era difícil passar tempo demais perto dele. — Está tudo bem. Eu também quero ver o filme. — Então vou dar um oi para ele e sentaremos mais atrás, pode ser? — Fique com seus amigos, Hunter. Sou só o guarda, não se preocupe comigo. O garoto bufou e concordou, voltando a andar ao lado de seus amigos. Às vezes Charles lhe parecia muito difícil de lidar. O príncipe chegou até a praça com seus amigos e viu que já haviam algumas pessoas reunidas ali para apreciar o filme. Cumprimentou seus amigos e conversou um pouco antes de começar a reprodução do tal disco, mas assim que o senhor Jinkings, pai de Logan, pediu para todos sentarem, o garoto se despediu dos amigos. Depois do ocorrido no aniversário, não pareceu estranho para ninguém ele ter escolhido ficar próximo ao Parker. — Fica com seus amigos, Hunter. — ordenou, já sentado em seu cantinho no gramado. — Eu estou com frio. — respondeu de forma manhosa, fazendo o Parker crispar os lábios e puxar o príncipe para o chão, o deixando sentado entre suas pernas. Aquela era a forma mais confortável de se estar, suas costas envoltas pelo corpo quente do alfa. Podia se recostar e descansar, sendo amparado por ele. — Você parece ansioso para reconsiderar meus limites. — Charles sussurrou. — Nem pense nisso, i****a. Só estou com frio e é melhor ficar aqui. Você continua não podendo agir como meu alfa. — Então tá bom. — concordou com um sorriso cínico. Charles colocou seus braços para trás, apoiando seu corpo e não abraçando mais o Baynes. Foi daquela forma que apreciaram pela primeira vez o filme De volta para o futuro. Era engraçado como nem de longe aquilo representava a humanidade no futuro, mas era um filme engraçado, cheio de elementos interessantes e ficção científica. No final daquela noite Hunter voltou para casa tagarelando sem parar sobre cada ponto do filme, cantando a tal música da trilha sonora com sorrisos bobos e cheios de animação. E quer saber? Charles podia suportar uma temperatura de mil graus, podia ter seu corpo coberto por chamas, poderia ser um incêndio, mas nada derretia seu coração como os sorrisos animados de Hunter.
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