Primeiro e Único

2470 Words
Hunter acordou cedo naquela manhã de domingo, tomou seu café da manhã antes do dia amanhecer e saiu para caminhar pelas ruas. Ashara vivia sob um sistema socialista, o rei tinha o dever de cuidar dos cidadãos e garantir que nenhum passasse necessidade, entretanto o próprio reino sabia o que era necessário para manter o ecossistema saudável. Bem cedo pelas manhãs era possível ver como as coisas funcionavam para que todo o restante do dia fosse bom e agradável a todos, se havia alguém doente e cansado, sempre teria alguém para estender a mão e ajudar. Para que houvesse sucos frescos na quitanda, alfas traziam o carregamento de frutas para que a senhora Marino os preparasse, e ela fazia isso porque era gratificante contribuir com o bem-estar e lazer dos cidadãos de Ashara. A família Martin tinha um restaurante também próximo a praça, que servia para alimentar principalmente os soldados que precisavam de comida pronta de forma ágil, pois seu trabalho na proteção dos muros de Ashara não tinha descanso. Toda manhã, de forma alternada, alfas ajudavam trazendo sacas de arroz, farinha e carnes, pegos diretamente da dispensa real, onde havia um controle de tudo que entrava e tudo que saia. As pessoas se voluntariaram para fazer a sua parte, sendo ela a limpeza da cidade, a produção de alimento, caça, a agricultura, a saúde, educação e segurança. A partir da escolha de como queria ajudar, se preparava para o futuro servindo o povo. As ruas eram limpas, os cidadãos eram calmos e harmoniosos. Porque todos tinham certeza de que não queriam acabar em uma guerra novamente e perder tudo o que foi construído com tanto afinco, suor e até mesmo as cinzas de seus antepassados. A última vez que teve um grande conflito em Ashara foi poucos meses após o nascimento de Hunter, entretanto, na época de seus dezesseis anos em que ele andava admirando o trabalho comunitário da cidade, ele não imaginava o que havia gerado aquele conflito e nem o peso da coroa mantida com o sangue de inocentes. O príncipe andava distraído pelas ruas, vendo o povo começando seu dia, como engrenagens começando a se mover lentamente, aquecendo o sistema que em breve estaria girando sem precisar girar a manivela uma segunda vez. Foi quando ouviu passos apressados se aproximando. — Por que não me esperou? Ou por que não me chamou? — Charles perguntou bravo, parando ao lado do príncipe. — Se estou sozinho, supõe-se que eu gostaria de estar sozinho. — suspirou. — Por que veio atrás de mim? Acha que alguém daqui vai me atacar por acaso? — Não, Hunter. Nem eu ou seu pai achamos perigoso você andar por Ashara. Nosso povo não mata uma mosca, mas por que acha que temos guardas nos muros? A pergunta não foi retórica, mas foi seguida de silêncio pela parte do Baynes, que parou para se questionar como aqueles muros foram criados e porque precisariam ser patrulhados. — Os muros foram levantados pelos alfas da terra e só podem ser derrubados por alguém que possui um dom. Os que vivem lá fora não tem dons. — Quem te garante isso? Porque os pais são betas, não significa que filhos nascerão a mesma coisa. Minha mãe é do ar e meu pai da terra, ainda assim, olha o que eu sou. Você precisa ter cuidado. — pediu sério, preocupado. — Tá, tudo bem. Vou ter mais cuidado e deixar você me proteger. — revirou os olhos. — Já tomou café? — Não, quando cheguei até a cozinha fui sinalizando que um pestinha já estava fora do palácio há mais de dez minutos. — bufou. — Hoje é domingo, vamos passar na tenda da senhora Marino, além de sucos ela sempre prepara tortas aos domingos. — respondeu simplista, seguindo o rumo para a tenda. Assim que chegou o príncipe foi sorridente até a senhora já de idade, atrás do balcão. — Bom dia, senhora Marino. Como estão as coisas? — perguntou animado, apoiando os cotovelos no balcão e ficando na ponta dos pés, olhando para idosa todo animado. — As coisas vão bem, príncipe. Veio até aqui por uma fatia de torta? — Sim, por favor. — sorriu. — Duas na verdade, Charles vai tomar café comigo. A senhora concordou. — Eu queria assar alguns biscoitos também, mas acabou a lenha e não tenho quem busque mais para mim. Eu havia prometido à Luna que faria biscoitos. Conseguiria resolver isso pra mim? — a senhora perguntou e Hunter sorriu fofamente. — Com certeza, eu tenho um grande alfa comigo que pode fazer um trabalho árduo desses para nós. — brincou e olhou para Charles. — Você pode, né Charlie? Coloca as lenhas para ela assar os biscoitos. O alfa engoliu em seco, não sabendo porque sua cabeça encarou o príncipe de forma tão maliciosa, mas sentia que ele estava lhe provocando. — Claro. — gaguejou e saiu da loja rapidamente atrás da lenha. Os troncos estavam na parte de trás da lojinha, precisavam apenas serem cortados. — Como estão as coisas entre vocês? Não estive na sua festa de aniversário, mas fiquei sabendo como ele revelou ser apaixonado por você. O príncipe estalou a língua no céu da boca, franzindo os lábios. — Que nada, ele contou ao meu pai que é meu alfa, mas isso são coisas diferentes, não tem nada entre nós e nem vai ter. Meu pai proibiu de qualquer forma, disse que vai pensar melhor nisso quando eu tiver meu primeiro cio, mas por hora, fora de cogitação. — deu de ombros. — E pra você? Fora de cogitação também? — riu. — Charles é um bom homem, seu coração é muito puro e ele já aguentou muito ao seu lado, você não é alguém fácil, príncipe. — Bom… eu não sei. Vou pensar. — disse um tanto envergonhado, baixando a cabeça e esfregando o dedo no balcão, fazendo desenhos invisíveis. Charles voltou carregando algumas lenhas e a senhora abriu o balcão para que ele entrasse na cozinha, abastecendo o forno. — Obrigada meus amores. — sorriu e serviu dois pedaços de torta. — Aproveitem o docinho, mas lembrem-se que doce no café da manhã não é saudável. Os garotos concordaram e foram sentar em uma das mesas que havia no estabelecimento, começando a comer a torta. — Estive pensando em uma coisa… — Charles começou, olhando para o próprio prato e parecendo envergonhado de encarar Hunter. — Você quer ir ao baile de primavera comigo? Imagino que depois do que aconteceu não vão te convidar, se quiser posso ir com você… mas se não quiser, me avise com quem quer ir, eu vou providenciar. O Baynes pareceu o dilema interno que o alfa se encontrava, parecendo em um embate entre seu desejo e seu dever. Deveria fazer o que o príncipe queria, mas também queria ser escolhido para estar ao seu lado. — Não sei se quero ir… — comentou, comendo sua torta. — Não sei se vou participar. — Você vai todo ano. A senhora Lu está fazendo seu traje há meses, está cheio de pétalas vermelhas, óbvio que você vai ir. — suspirou. — Não precisa inventar história para negar o convite. Na verdade nem sei o que deu na minha cabeça. — deu um tapa fraco na própria testa suspirando em seguida. — Me diga, com quem quer ir? Thomas Shelter? Connor Silver? Vou cuidar disso pra você. Já sei como preparar tudo, vai ser um lindo pedido. O príncipe ficou em silêncio, vendo que Charles estava claramente desconfortável com o assunto. — Não, se eu for, então eu vou com você. Não sei se quero ir, o traje posso usar em outra ocasião. — Hunter, esquece que eu fiz uma pergunta tão i*****l, por favor. Apenas me diga com quem quer ir, vou falar com ele. Não se preocupe que o que aconteceu no seu aniversário não vai atrapalhar em nada. — suspirou. — Terminou de comer? O garoto concordou com a cabeça e Charles juntou os pratos, indo até a pia que havia próximo do balcão da loja e lavando os pratos e talheres usados, pois em Ashara todos sabiam que o trabalho era colaborativo. Assim como a senhora Marino dispôs de seu tempo com a preparação dos alimentos, quem os consumia cuidava da sua própria louça, mantendo o ecossistema sempre funcionando. Assim que terminou de levar os pratos, saiu do estabelecimento. — Obrigado, senhora Marino. — Hunter agradeceu, indo rapidamente atrás do alfa. O príncipe bufou irritado com o jeito que o Parker estava agindo, mas não deixou de ir atrás dele ainda assim, segurando a mão dele e entrelaçando os dedos. — Para de ser i****a e agir como criança. Eu não quero ir com outro e nem estou te rejeitando. Não posso ter minhas próprias vontade agora? Pare de ser i****a. — xingou, seguindo de mãos dadas com ele pelas ruas da cidade. — Tá bom? — Tá, tudo bem. — bufou, sutilmente acariciando a mão do príncipe com seu polegar. — Seu pai vai xingar a gente por causa disso… — comentou, tentando soltar a mão do príncipe, que apertou mais forte, mantendo os dedos entrelaçados. — Não vai. Não há nada de errado… por enquanto. — riu. O serviçal revirou os olhos, respirando fundo, dando mais alguns passos antes de franzir o cenho e olhar para as mãos unidas. — Me quer longe, mas está sempre me tocando… — Por que você sempre quer estragar o momento? — crispou os lábios, pronto para separar as mãos, dessa vez sendo impedido pelo Parker. — Só comentando… ✘✘✘ Charles estava na sala do palácio, aguardando Hunter. O alfa vestia um hanfu preto com detalhes em vermelho em suas barras, algo que contrastava e ao mesmo tempo combinava com o de Hunter, que era branco com detalhes em vermelho, algumas pétalas que pareciam subir pelo tecido. — Estou pronto. — disse o garoto, descendo as escadas com um grande sorriso. — Você está lindo. — pigarreou vergonhado — A senhora Lu ajustou meus trajes, ela disse que deveríamos ir parecidos, já que… já que sou seu par. — Eu sei, fui eu que pedi para ela fazer o ajuste. — sorriu e colocou as mãos no peito do alfa, passando dedos pelo tecido. — Eu gostei assim. Ficou ótimo. — O que pensam que estão fazendo? — o rei chamou a atenção do dois, olhando-os pelo mezanino antes de descer os degraus e ir até eles. — Não faz um mês que disse que não teria a minha aprovação e você já está se prevalecendo desta forma? Acha que de alguma maneira vou deixar você passar do limite? — perguntou sério, irritado. Charles baixou a cabeça, fazendo uma leve reverência. — Peço desculpas, senhor. Não estou passando dos limites, sou apenas um mero acompanhante, só o levarei ao baile, nada mais. Hunter crispou os lábios, irritado com a atitude do pai. — Não faz sentido esse puritanismo quando você queria me casar com um alfa só porque é filho do ministro menos de um mês atrás. Charles vai fazer o que eu quiser fazer, papai, é meu alfa e nada do que tente fazer vai mudar isso. Os deuses decidiram que seria assim. — deu de ombros, desdenhando da imposição do rei. — E eles estão errados! — gritou, assustando ambos os garotos. — Hunter, você não entende. Você não pode ficar mais perto dele do que o necessário. Você não pode. — E por quê, papai? Acaso o Parker vai me machucar? — o garoto sorriu com certo deboche. — Eu sei tudo sobre ele. Tudo. Eu sei que ele é sua maior transgressão. Eu sei quem ele é e do que é capaz. Sei que ele é meu alfa. Foi feito pra mim e se opor a isso não adiantará nada. — Eu não sou um objeto… — Charles murmurou, ouvindo o “shh” vindo do príncipe. — Você contou a ele? — o rei parecia enraivecido com a revelação. — Não exatamente. Ele descobriu por uma infelicidade. — Como eu sei, o que eu sei, nada disso importa agora. Eu vou para o baile, Charles é meu acompanhante e se eu quiser será meu namorado, meu marido, meu amante… por favor, papai, não faça disso uma grande questão. Não tem como mudar isso, você sabe. Mas vamos ser pacientes e deixar que o tempo o convença da verdade. Hunter segurou a mão do Parker, o levando para fora do palácio antes que a discussão se estendesse por mais tempo e acabassem se atrasando. Alguns passos depois de sair da sala do palácio, Charles parou, não deixando-se ser puxado pelo garoto. — Não deveria ter dito aquelas coisas a seu pai. Acho que deveríamos voltar. Ou melhor, você deve ir ao baile e eu vou para meu quarto. Eu não deveria ter me colocado num lugar que não me pertence. Hunter suspirou triste, aproximando-se do corpo do alfa, o sentindo quente como sempre. — Eu menti? — O quê? — questionou confuso. — Eu menti em algo que disse ao meu pai? Menti sobre ser meu alfa? Sobre como os deuses nos fizeram um para o outro? — Não, mas… — não terminou de falar, sentindo as mãos lindas e um tanto geladas roçar suas bochechas, geladas para sua temperatura talvez. — Então não vou pedir desculpas. Eu não quero me casar com outro alfa, você não quer que eu me case com outro alfa e somos destinados a ficar juntos. Eu sei seu segredo e sempre gostei de você mesmo assim. Não tem discussão. — Você nem me queria perto de você, ficou todo irritado pelo que eu fiz. Está apenas sendo teimoso como sempre, só que não vamos fazer com seu pai. Não é a coisa certa. — Sim, eu fiquei com vergonha de ter feito aquilo na frente da cidade toda, mas eu fiquei aliviado. Eu não queria que todo mundo ficasse sabendo desse jeito, mas o que temos não tem como negar, não tem como fugir e eu não pretendo fugir mais. Porque eu quero isso, eu sempre quis. — Hunter… O príncipe fez questão de segurar as bochechas do alfa e o puxar para perto, selando seus lábios aos dele. — Sem discussão. Já tomei minha decisão. Aquele ano o baile de primavera foi o mais bonito, cada estudante usou seu próprio dom para decoração daquele local, Hunter, é claro, utilizou sua luz para decorar todo o salão com pequenos pontos brilhantes. E foi no centro daquele salão que dançou com Charles pela primeira vez, uma dança lenta, os corpos juntos enquanto riam dos passos que só iam de um lado ao outro, nada muito elaborado. Na simplicidade nascia a certeza que algo estava começando.
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