O inverno havia acabado de começar, os dias eram frios e molhados, um pouco por conta da chuva e outro pouco pela neve. Naquela época do ano, Ashara pouco via a luz do Sol.
Estavam no ginásio para aula de educação física e, por mais que os anos tivessem passado, Hunter ainda não gostava de atividades físicas.
Estava sentado na arquibancada conversando com os amigos e, apesar de estar com o uniforme de inverno, mangas e calças compridas, ainda estava com frio.
Charles estava no outro lado do ginásio, jogando basquete com os amigos, mas pareceu sentir que o garoto precisava dele.
O alfa jogou a bola em Roman e seguiu em direção a Hunter, sentando ao seu lado na arquibancada em silêncio. O príncipe sorriu levemente, encostando seu corpo no dele, deitando a cabeça no ombro de Charles e rapidamente sentindo-se aquecido por ele.
— Quando vocês vão assumir que tem algo rolando? — Kayne questionou irritado, sentindo que o amigo estava escondendo as coisas dele.
A verdade é que nada estava acontecendo por enquanto.
Nada havia acontecido após o primeiro e único beijo deles, apenas uma proximidade maior. Hunter não tentava se esquivar de Charles, não tentava arranjar brigas com ele. O Parker da mesma forma, só estava por perto. Eram bons amigos. Passavam horas conversando sobre seus interesses, fazendo atividades juntos como bons amigos.
Essa a******a não existia anteriormente, Hunter sempre achava que Charles era apenas o seu servo, seu interior ficava confuso com a mistura de sensações de sentir que o queria como mais que isso e que um dever deveria ser cumprido.
Mas então, no baile de primavera do ano passado, não teve mais essas questões, apenas seguiu seu instinto e o manteve por perto, como sempre deveria ter sido.
— Porque não tem nada rolando ainda. O dia que acontecer algo entre a gente, eu vou falar. — Hunter riu. — Ele ser meu alfa não significa que precisamos namorar de imediato. Somos amigos até o momento. Né? — perguntou a Charles, que concordou, balançando a cabeça suavemente.
— Vocês são estranhos, mas eu sempre achei que fosse acontecer. — disse Luna, dando de ombros. — Era notório desde sempre que havia uma tensão entre vocês. Eram cheios de ciúmes um com o outro.
— Seu não tinha ciúmes. — Charles se defendeu. — Eu prezo pela segurança dele, apenas isso. Além do mais, Hunter também não tinha ciúmes, ele só queria que eu fizesse o que ele tinha vontade. É ou não? — perguntou para Hunter, que deu de ombros, levando sua mão até a mão do Parker, entrelaçando os dedos.
— Talvez eu tivesse um pouco de ciúmes. Eu só não sabia me expressar. Talvez eu não soubesse lidar com o meu sentimento e o seu dever. Não sei. — escolheu os ombros.
— Como quando me beijou e disse que as coisas seriam do seu jeito e pronto? — questionou, olhando para o garoto.
Hunter levantou um pouco o olhar, encarando o alfa enquanto ainda estava deitado em seu ombro. Um sorriso bobo se abriu.
— É, talvez.
— Vocês se beijaram? Disseram que não estava rolando nada e se beijaram? — Kayne pareceu indignado com a informação.
— Não foi um beijo. Eu só calei a boca dele. Foi só um selinho. Não foi nada demais.
Charles crispou os lábios com a negativa do príncipe.
— Pra você. Era meu primeiro beijo. Pra mim foi muito significativo.
Hunter sorriu maliciosamente, guardando para si todas as piadas impuras que passaram por sua mente.
— O que você fez no banheiro aquela vez foi muito mais significativo do que esse selinho, nem por isso fico cobrando responsabilidade da sua parte. E você sabe o que fez.
— O quê? O que ele fez? — Luna perguntou curiosa, sacudindo as pernas do amigo com um cachorro querendo atenção. — Conta tudo, queremos saber de tudo.
Hunter negou e riu.
— Nada demais. Muito menos do que o Kayne faz com o namorado. Ele pode esconder segredos e eu não posso guardar essas intimidades pra mim. — soltou e mostrou a língua pro amigo.
— Vou cortar essa tua língua, vai ver.
— Você tem namorado? — Luna perguntou curiosa. — O Luen também sabia? Sou a última a saber?
Kayne negou.
— Só o Hunter sabia.
— Eu sabia e Thomas também sabia. Somos amigos, óbvio que ele iria nos contar. — Charles deu de ombros.
Luna olhou chocada para Kayne.
— Se ele é amigo de Charles e Thomas… então você está namorando Roman Baker? Meu Deus, como pode? Como pode não me contar? — deu tapas no braço do amigo. — Pior amigo de todos. O Hunter pelo menos a gente a vontade de dar dele e finge que não. Você escondeu tudo.
— Ei! Não fala assim de mim, ainda mais essas inverdades. — revirou os olhos. — Viu como é bom, Kayne? É assim que você me cobra.
— Tá! Entendi. Eu namoro o Roman tem um tempo já. Mas a gente não fez nada muito… muito. É só uns beijos, seus mentes podres. — os amigos riram, ouvindo o sinal tocar, indicando que era hora de trocar de roupa e seguir para próxima aula.
— Me leva nas costas? — pediu a Charles, que concordou, colocando o ômega em suas costas e o levando para os vestiários.
— Droga. Eu tenho inveja disso. — Luna fez um bico. — Até Luen tem um rolinho e eu nada. Quero alguém.
— Vai ter, relaxa. — Kayne bagunçou os cabelos da mais nova e levantou. — Vamos para aula.
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Hunter sabia que isso era proibido e o quanto deixaria seu pai irritado caso ele descobrisse, ainda assim, após às dez horas da noite saiu de seu quarto. Deveria ser o primeiro a obedecer o toque de recolher do palácio, mas não poderia fazer isso naquele noite. Não quando sua mente estava cheia de pensamentos e questionamentos que o faziam se revirar na cama sem conseguir nem ao menos fechar os olhos.
De pés descalços se direcionou as saídas de empregados, as escadas do fundo do palácio eram estreitas e escuras. Desceu o mais rápido que conseguia até chegar ao porão, rumo ao quarto de Charles.
Não bateu na porta, apenas entrou no quarto, coisa que nunca tinha feito. Nunca tinha ido até o quarto do alfa. Imaginava que uma hora daquelas ele estaria dormindo em sua cama, mas não foi o que aconteceu.
O garoto fechou a porta atrás de si, ficando encostado nela, observando o alfa.
— Nossa… — foi a única coisa que saiu de seus lábios inicialmente.
Charles vestia apenas uma calça de linho e bandagens em suas mãos. O alfa estava fazendo seus exercícios físicos antes de dormir, era algo que gostava de fazer, distraía sua mente e o mantinha em forma, já que durante o dia inteiro precisava estar atrás de Hunter.
Tinha um saco de box em seu quarto, alguns pesos para musculação e também um banheiro privativo, para que não incomodasse ninguém dos andares acima.
Antes de dormir sempre costumava fazer uma série de boxe, alguns abdominais e às vezes segurava os pesos para fazer agachamentos, fortalecendo a musculatura como um todo.
A cena que tinha diante de seus olhos era o alfa levantando do chão após algumas flexões, o corpo suado e definido de uma forma como jamais imaginara. Sabia que ele era forte, sabia que gostava de exercícios, mas não imaginava que era possível ver os músculos desenhados na pele ou quão grande eram seus braços por debaixo das roupas.
— O que está fazendo aqui? Não pode entrar no meu quarto assim.
Hunter engoliu em seco, pensando no que a amiga havia dito na escola mais cedo naquela manhã a respeito de suas vontades.
— Eu estive pensando em algo que não me deixa dormir. Pensei que se eu viesse até aqui resolver isso logo talvez… talvez eu pudesse dormir depois.
— E o que é? — perguntou, já tirando as bandagens de sua mão, usadas para proteção no treino de boxe.
— Lembra da vez que conversou comigo no banheiro? Lembra que esperaria eu dizer quais eram os limites? Eu já tenho uma resposta pra isso, eu sei o que eu quero.
Charles abriu um sorriso ladino, respirando fundo, fazia meses que haviam tido aquela conversa e o alfa já tinha até desistido, estava aceitando seu posto de bom amigo.
Era agradável andar de mãos dadas vez ou outra, conversar com o Baynes durante os passeios da tarde e fazer as atividades escolares com ele, estava gostando daquela proximidade, da tensão que se criava quando estavam próximos demais e dos toques sutis que lhe causavam um calafrio de ansiedade, então deixou o assunto de lado e por um breve momento até mesmo o esqueceu.
— Para estar no meu quarto no meio da noite, sabendo que seu pai vai nos matar se descobrir, deve ser algo positivo. — riu.
— Eu acho que tô pronto, Charlie. Eu quero ser mais que seu amigo. Eu quero muito ser mais que seu namorado. E droga, olhando você assim agora, eu quero muito mais do que só o beijo que tivemos aquele dia. Eu nunca fiz essas coisas e nem sei como se faz essas coisas, mas eu sinto que quero. Você entende? Você sente?
O Parker concordou, balançando a cabeça e se aproximando do garoto.
— Faz um tempo que eu entendo, faz um tempo que eu sinto muita vontade de algo que eu não fiz ainda, mas que meu corpo me dá sinais de que eu preciso…. Preciso de você. — sussurrou a última parte, ficando mais perto ainda do garoto, o encurralando contra a porta. — Ainda assim, vamos com muita calma, as coisas vão acontecer conforme tem que acontecer.
Hunter concordou, seus lábios se partindo em expectativa de pelo menos um beijo receber naquela noite. E o alfa percebeu sua intenção olhando para os lábios do garoto, que passou a língua sutilmente pelo inferior.
Charles levou a mão ao queixo do príncipe, encarando os lábios dele por um momento antes de olhar em seus olhos novamente.
— Quer fazer isso agora? Quer um pouco disso agora?
— Quero. Eu vim até aqui porque quero você. — concordou baixinho, fechando os olhos e sentindo a ansiedade e expectativa que aquele momento carregava.
O alfa não esperou mais tempo, juntando os lábios em um selar inicialmente. As bocas levemente entreabertas descobrindo como se conectar. O primeiro beijo de língua foi sutil e um pouco desajeitado. Não tinha ideia de como fazer aquilo, como movimentar as bocas e em poucos segundos se separaram, olhando um para o outro com o cenho franzido, como se aquela não fosse bem a experiência que estavam esperando.
Mas o príncipe não desistiu, levando as mãos até o rosto do alfa e o puxando para perto, tentando novamente, um pouco menos de atitude da parte de sua língua, pelo menos por enquanto, pelo menos até descobrirem como ao menos deveriam mexer os lábios.
Encontraram uma sincronia em segundos, descobrindo como chupar os lábios alheios poderia ser gostoso e causar reações inesperadas em seus corpos.
Hunter parou o beijo, sentindo a excitação fluindo por seu corpo e despertando desejos em áreas que não deveriam ser despertadas, não naquele momento.
— Acho que tá bom. — o príncipe disse um pouco envergonhado, não querendo olhar para o alfa, sem ver que ele estava nas mesmas condições.
— Também acho. Acho melhor ir para seu quarto e outro dia tentamos de novo. — concordou. — Você achou bom?
— No começo não. Mas depois achei bom. Achei muito bom.
A revelação sincera fez Charles sorrir e por impulso dar um rápido selar nos lábios do Baynes.
— Vamos fazer amanhã outra vez. Venha até meu quarto no mesmo horário, o que acha?
— Tá, amanhã. — sorriu feliz e saiu do quarto.
Subir os longos lances de escada até seu próprio quarto foi uma tarefa um pouco difícil. Seu coração batia rápido e suas pernas estavam bambas. Mas estava feliz e ansioso para experimentar beijar Charles Parker outra vez.